Tesis doctorales de Economía

 

TURISMO, CRESCIMENTO E DESENVOLVIMENTO: UMA ANÁLISE URBANO-REGIONAL BASEADA EM CLUSTER

Jorge Antonio Santos Silva

 

 

 

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2.4. Outras abordagens para o conceito de agrupamentos ou clusters

A teoria clássica, segundo Dall’Acqua (2003), explica o êxito dos países em setores específicos, com base nos fatores de produção tradicionais – terra, mão-de-obra e recursos naturais, através dos quais eles conquistam vantagens comparativas nesses setores, utilizando de modo intensivo aqueles fatores que possuem em abundância. As vantagens comparativas, portanto, referem-se aos custos e à disponibilidade de insumos, cujo esquema original de Perrin (Le developpement regional, 1974), reproduzido por Dall’Acqua, (Figuras 2.4 e 2.5, p. 183) demonstra as transações econômicas de produção, consumo e acumulação e os respectivos fluxos que são gerados: o fluxo formado pelas ligações intersetoriais no cerne das cadeias produtivas; o fluxo formado pela estrutura de consumo das famílias na região; e o fluxo formado em função da distribuição de renda na região.

Figura 2.4 Diagrama Estrutural de um Circuito Regional de Produção

Fonte: Perrin, 1974, apud Dall’Acqua, p. 69.

Notas:

Indicam as ligações (expressas em termos de renda monetária).

A estrutura global fechada do encadeamento das ligações (com exceção das importações e exportações) é a expressão do fenômeno de circuito regional.

1. Fluxo formado pelas ligações intersetoriais e a importância de seu efeito será função da riqueza do conjunto dessas ligações.

2. Fluxo formado pela estrutura de consumo das famílias na região, em ligação com a distribuição de renda na região, chamado circuito regional.

Assim, registra-se o conceito de circuito regional, constituído pelas estruturas de consumo das famílias na região ligadas com a estrutura de distribuição da renda, que por sua vez deriva do aparelho produtor de bens finais para o mercado regional. [...] No centro do aparelho produtor estão presentes os diferentes tipos de cadeias de produção e seus efeitos, para frente e para trás – ou a jusante e a montante, da atividade produtiva. [...] Sendo o consumo função da renda, maior renda, maior disponibilidade de poupança/investimento, implicando em maior diversificação da estrutura de consumo. Diferentes tipos de cadeias produtivas geram diferentes efeitos multiplicadores no circuito regional. [...] A força e a intensidade do desenvolvimento regional estão [...] nas ligações intermediárias, pelo adensamento das atividades produtivas de bens intermediários para o Mercado Regional, cujo fluxo é formado pelas ligações intersetoriais [...]. (DALL’ACQUA, 2003, p. 68).

Figura 2.5 A Estrutura Básica dos Circuitos de Produção: Vantagens Comparativas referem-se aos Custos e à Disponibilidade de Insumos

Fonte: Perrin, 1974, apud Dall’Acqua, 2003, p. 49.

A autora considera que vantagem comparativa não é vantagem competitiva, analisando que, [...] países com baixos custos de mão-de-obra possuem vantagem comparativa. Mas, muitos desses países, na realidade, mantiveram suas nações em ciclos de pobreza e desenvolvimento lento. Suas vantagens não constituíram força motora suficiente para o crescimento. Muito embora a vantagem comparativa não conduza à vantagem competitiva, ela pode ser a base na qual se constrói a vantagem competitiva. Competitividade é um processo contínuo de inovação, crescimento e agregação de valor às atividades [envolvendo a criação de capacidade e qualidade distintivas da concorrência, implicando um menor custo de produção]. (DALL’ACQUA, 2003, p. 50).

Nessa perspectiva, Dall’Acqua alarga o conceito de fatores de produção utilizado na noção de circuito regional elaborada por Perrin, incorporando as idéias emanadas da concepção do diamante e das forças competitivas de Michael Porter, resultando na substituição de fatores de produção tradutores de vantagens comparativas, por novos fatores significativos de vantagens competitivas, como pode ser visto na (Figura 2.6, p. 185), transportando as relações entre os diferentes tipos de cadeias produtivas, no modelo de Perrin, para o contexto mais ampliado das relações nos e entre os agrupamentos econômicos ou clusters, no modelo por ela modificado, inspirado nos preceitos porterianos.

Os insumos de fatores abrangem os ativos tangíveis (como a infra-estrutura física), a informação, os sistemas legais e institucionais; o contexto para a estratégia e a rivalidade das empresas, regras, incentivos e costumes que determinam o tipo e a intensidade da rivalidade local, ou seja, o dinamismo do mercado; as condições de demanda no mercado: o progressso exige o desenvolvimento de mercados internos cada vez mais exigentes, com a presença ou a emergência de clientes locais sofisticados; e, por fim, os diferentes arranjos entre empresas, tais como os aglomerados ou clusters, unindo setores correlatos e de apoio, influenciando a competição de três maneiras amplas: primeiro, pelo aumento da produtividade das empresas ou setores componentes; segundo, pela elevação da produtividade [do aglomerado]; terceiro, pelo estímulo à formação de novas empresas, que reforçam a inovação e ampliam o aglomerado [grifo da autora], (DALL’ACQUA, 2003, p. 79).

Figura 2. 6 Novos Fatores que Condicionam Circuitos Regionais e Competitivos

Fonte: Dall’Acqua, 2003, p. 78. (Adaptado da estrutura proposta por Perrin, 1974, com alteração dos fatores).

A escolha de uma composição adequada de indústrias possíveis de serem implementadas em uma determinada área é um dos problemas cruciais no âmbito da economia regional, sendo um dos principais critérios utilizados a magnitude dos multiplicadores das atividades a serem geradas localmente. Segundo Ablas e Czamanski (1982), os investimentos que se destinarem a gerar novas atividades devem ser canalizados para pontos-chave na estrutura produtiva, onde os efeitos secundários sejam significativos.

Os multiplicadores gerados numa economia regional pela introdução de novas atividades estão intimamente relacionados com a existência de vazamentos, ou com a extensão de que esta economia é fechada em termos de magnitude e caráter dos fluxos inter-regionais. Assim, sob alguns pontos de vista pode parecer preferível promover a introdução de um “agrupamento” de indústrias intimamente relacionadas em regiões subdesenvolvidas ou em depressão, ao invés de atividades heterogêneas sem ligações entre elas. Além do mais, pode-se esperar [...] que um “agrupamento” ou complexo de atividades traga consigo algumas externalidades positivas, cuja ausência é traço típico de regiões deprimidas, sendo freqüentemente considerada como um importante obstáculo para o progresso. (ABLAS e CZAMANSKI, 1982, p. 209-210).

Considerando-se a heterogeneidade da composição dos agrupamentos industriais existentes, Ablas e Czamanski comentam sobre o questionamento da validade e utilidade dos verdadeiros conceitos de agrupamentos e complexos industriais como instrumento de pesquisa para a economia regional. Eles afirmam também que as várias noções envolvidas neste contexto, além de não serem uniformes causam uma grande confusão, a saber: complexo industrial, pólo de crescimento, centro de crescimento, lugar central e agrupamento industrial. Como se pode depreender dessa observação, a confusão conceitual na matéria não é um privilégio do presente, vem de longa data.

A expressão “agrupamento” é utilizada pelos autores como tradução do termo inglês cluster.

De forma mais específica, nas palavras dos próprios autores:

[...] agrupamento significa um subconjunto de indústrias presentes na economia, ligadas entre si por fluxos de bens e serviços mais fortes que aqueles que as ligam aos outros setores da economia nacional. Dessa forma, o conceito é destituído de qualquer conotação espacial [grifo nosso].

Um complexo, por outro lado, se define como um grupo de indústrias ligadas por importantes fluxos de bens e serviços, apresentando, em adição, uma similaridade significativa em seus padrões locacionais. Desse modo, enfatiza-se o aspecto espacial da concentração industrial, [grifo nosso]. (ABLAS e CZAMANSKI, 1982, p. 212-213).

No agrupamento as indústrias são “ligadas por fortes fluxos de bens e serviços, sem qualquer referência a sua localização espacial” [grifo nosso], (ABLAS e CZAMANSKI, 1982, p.251).

É possível se inferir que, ao incorporar o aspecto da concentração geográfica no seu conceito de cluster, Michael Porter “mixou” o conceito de agrupamento com o conceito de complexo industrial, sendo este mais um aspecto que reforça o caráter abrangente e universalista da concepção porteriana da teoria dos aglomerados e das vantagens competitivas.

Anos antes de Michael Porter, Ablas e Szamanski (1982), identificaram uma forte aproximação entre o conceito de filière e os conceitos de agrupamento e complexo. Os autores informam que essa abordagem foi desenvolvida na Universidade Aix-Marseille sob a direção de Perrin (1974), com os subconjuntos de indústrias pertencentes à filière tendo sido identificados com base nas características técnicas e com o auxílio do quadro insumo-produto nacional da França. Tendo se iniciado com uma indústria orientada para o consumidor, se identificou os setores intermediários fornecedores de insumos para esta indústria, depois os fornecedores dos fornecedores, e assim sucessivamente.

Se reportando a novas estratégias de desenvolvimento regional e local, Amaral Filho (2001), compara três conceitos, ou estratégias, que postulam a condição de ser um novo paradigma de desenvolvimento regional endógeno, que vêm sendo analisados no corpo deste trabalho: o distrito industrial, o milieu innovateur (ambiente inovador) e o cluster. Para Amaral Filho, as diferenças entre as três estratégias são muito sutis, o que dificulta sua distinção.

Uma política de investimento em capital físico ou em infra-estrutura, segundo Amaral Filho, é importante para uma economia ou região pelo fato de criar condições favoráveis à formação de aglomerações de atividades mercantis, criando externalidades para o capital privado, a exemplo de redução dos custos de transação, de produção e de transporte, de acesso a mercados, etc. Entretanto, por si só, na análise do autor, ela não é suficiente para criar um processo dinâmico de endogeneização do excedente econômico local e para atrair excedentes de outras regiões, dessa forma gerando a ampliação das atividades econômicas, da renda e do emprego.

Para que produza efeitos multiplicadores crescentes e virtuosos sobre o produto e a renda, a referida política deve estar no contexto de uma estratégia global de desenvolvimento da região, cujos mecanismos estejam administrativa, econômica e politicamente fundamentados, com o objetivo de evitar a formação de “enclaves” ou a aglomeração de indústrias desprovidas de coerência interna nas suas conexões. (AMARAL FILHO, 2001, p. 271).

As três estratégias anteriormente citadas, para se constituírem em um novo paradigma de desenvolvimento regional endógeno, devem possuir coesão, potencial e dinamismo que conduzam à realização das condicionantes acima destacadas por Amaral Filho.

Integrando a abordagem de Ablas e Czamanski (1982) com a de Amaral Filho (2001), se constata que os agrupamentos de indústrias ou de atividades econômicas, na perspectiva da teoria econômica e da teoria do desenvolvimento regional, propiciariam:

 maior aproveitamento de economias externas e criação de novas e melhoradas externalidades;

 favorecimento de economias internas com rendimentos crescentes à escala;

 direcionamento de investimentos para setores básicos e estratégicos da estrutura produtiva, alavancadores de expressivos efeitos multiplicadores;

 minimização do grau de vazamento existente na economia, ampliando a base local na utilização dos fatores de produção e na propriedade do capital;

 atração de excedentes gerados em outras regiões, pela extensão e intensificação dos fluxos inter-regionais, visando reter localmente os ganhos de produtividade da economia local;

 dinamização do desenvolvimento econômico, a nível regional e local, fomentando a prosperidade por meio da elevação da renda, da ampliação dos empregos incluindo a criação de novos e mais qualificados postos de trabalho e da melhoria do bem-estar e condições de vida da população residente.

Diferente de abordagens anteriormente analisadas neste trabalho, nas quais todo e qualquer tipo de agrupamento de indústrias e de negócios estaria inserido no “guarda-chuva” conceitual do agrupamento ou cluster porteriano, Amaral Filho (2001), utiliza o termo, ao lado dos conceitos de distrito industrial e ambiente inovador, qualificando-o como uma estratégia diferenciada tendo em vista o desenvolvimento regional e local.

O cluster, segundo Amaral Filho, é um conceito mais abrangente, não só porque incorpora vários aspectos das outras duas estratégias, mas também porque não se restringe às pequenas e médias empresas. Citando S. A. Rosenfeld (États-Unis: les agglomérations d’entreprises, 1996), Amaral Filho apresenta uma definição para o termo cluster, dada por um grupo de especialistas americanos em 1995:

[...] uma aglomeração de empresas (cluster) é uma concentração sobre um território geográfico delimitado de empresas interdependentes, ligadas entre si por meios ativos de transações comerciais, de diálogo e de comunicações que se beneficiam das mesmas oportunidades e enfrentam os mesmos problemas. (ROSENFELD, 1996, apud AMARAL FILHO, 2001, p. 275).

Amaral Filho, comentando sobre Michael Porter ter sido o autor de maior influência na composição estrutural do conceito de cluster, menciona um interessante fato, o de este termo só aparecer nos títulos dos seus artigos em 1998 (Clusters and the new economics of competition). Em The competitive advantage of nations (1990), Porter utiliza o termo “grupo” de empresas ou de indústrias, porém, como já dito, sem a ampliação, generalismo e ênfase da sua posterior publicação, On competition (1998). Isto deve se explicar, pelo sucesso por ele obtido durante a década de 1990, que o levou, ao final da mesma, a uma espécie de consolidação acadêmica e profissional de uma marca registrada, cluster = Michael Porter, ou seja, uma patente ideológica e de imagem no mundo competitivo dos negócios.

O conceito de cluster, em Porter, de certa forma, conforme Amaral Filho (2001), procura recuperar conceitos tradicionais como “pólo de crescimento” de Perroux e “efeitos concatenados” de Hirschman, notadamente na idéia de indústria-chave ou indústria-motriz, conjugada com uma cadeia de produção e adicionando o máximo de valor possível. Para Amaral Filho, a estratégia de cluster está mais próxima da grande produção flexível do que propriamente da pequena produção flexível.

[...] a abordagem associada ao cluster consegue se diferenciar tanto da visão fordista tradicional – identificada com a grande indústria de produção de massa, quanto da visão distritalista – identificada com a pequena produção flexível. Além disso, o cluster está mais [...] próximo da idéia de um “modelo”, dado assumir um caráter mais normativo, enquanto aqueles são mais intuitivos. O indicador claro desse aspecto é o fato de se encontrar, com freqüência, na literatura sobre cluster, a solução do “diamante” proposta por Porter; uma solução forte e até certo ponto convincente. Desse modo, o cluster tem a vantagem de assumir uma forma menos difusa do que outros conceitos e estratégias de desenvolvimento regional, [grifo nosso]. (AMARAL FILHO, 2001, p. 276-277).

Pelo que aqui se expôs até o momento, os indícios são de que o conceito de cluster, na elaboração do modelo teórico de Michael Porter, deixa margem a muita confusão quanto ao que é de fato um cluster, sendo recorrente a solução do diamante competitivo, de generalizada e difusa aplicação. Com o seu caráter analítico-normativo-prescritivo, o modelo do diamante se assemelha e pode ser substituído pelo da matriz de diagnóstico DAFO (SWOT analysis), que se presta a estudos de cenários – debilidades, ameaças, fortalezas e oportunidades.

Corroborando o pensamento que se expressa acima, Meyer-Stamer, indica que o argumento de Porter elabora os fatores determinantes de competitividade e “tem como produto o “diamante”, instrumento extremamente útil para o diagnóstico de um determinado território [...]” [grifo nosso], (MEYER-STAMER, 2001, p. 17).

Além do mais, pela sua visão nitidamente empresarial e microeconômica, o conceito de cluster não pode ser tomado como uma estratégia de desenvolvimento regional, não na amplitude preconizada por Porter.

A exemplo de outros autores, Amaral Filho (2001), reconhece que esses três conceitos ou estratégias (aqui também uma confusão, são conceitos ou são estratégias?) se fundamentam, em alguma medida, na noção de economias externas, que têm na aglomeração industrial sua fonte principal. A concentração geográfica de empresas concorrentes resulta em vantagens advindas [...] da concentração convergente de atividades produtivas, de um fluxo de informações, da notoriedade e da reputação alcançadas pelo local ou região, pela localização concentrada de fornecedores e de clientes; pela circulação do conhecimento científico e tecnológico; etc. (AMARAL FILHO, 2001, p. 277).

Os modelos teóricos de desenvolvimento regional mais recentes consideram, conforme Amaral Filho, além das economias externas dinâmicas ou incidentais, aquelas que resultam da ação conjunta, consciente e deliberada, da comunidade local.

Uma estratégia de desenvolvimento com base nos novos paradigmas tem por objetivo munir um determinado local, ou região, de fatores locacionais sistêmicos capazes de criar um pólo dinâmico de crescimento com variados efeitos multiplicadores, os quais se auto-reforçam e se propagam de maneira cumulativa, transformando a região num atrator de fatores e de novas atividades econômicas. Para isso, recomenda-se a implantação ou o desenvolvimento de projetos econômicos de caráter estruturante, que envolva uma cadeia de atividades interligadas. (AMARAL FILHO, 2001, p. 278).

Amaral Filho sugere, que o turismo pode ser uma das opções que se aproximam do desenvolvimento endógeno sustentado, pelo fato de conjugar diversos elementos que são relevantes para o desenvolvimento local ou regional:

 forças socioeconômicas, institucionais e culturais locais;

 grande número de pequenas e médias empresas locais, ramificadas por diversos setores e subsetores;

 indústria limpa;

 globalização da economia local por meio do fluxo de valores e de informações nacionais e estrangeiras, sem que essa globalização crie um efeito de trade-off em relação ao crescimento da economia local, pelo contrário.

A atividade do turismo apresenta ainda uma outra vantagem, no entender de Amaral Filho (2001), que é a de possibilitar a transformação de “fatores dados” em “fatores dinâmicos”, diminuindo substancialmente os custos de criação e de implantação que envolvem projetos de desenvolvimento, considerando que tais projetos podem estar vinculados a uma vocação regional, a exemplo de atrativos e atividades típicas e históricas.

Se, de um lado, a concentração geográfica de atividades econômicas, concorrentes mas afins, é importante para construir um pólo econômico atrator; de outro, essa concentração deve também ser suficientemente importante para formar um sistema produtivo e transformar as empresas, as indústrias ou os setores ali localizados, ou para ali atraídos, em estruturas competitivas nacional e internacionalmente. [...] não basta uma estratégia de desenvolvimento local buscar a criação de fatores locacionais, e com isso provocar uma aglomeração de empresas; é preciso mais, ou seja, é preciso que se crie um sistema produtivo sustentável no tempo. [...] A assimilação, por empresas locais, de normas de consumo e de produção internacionais, ao mesmo tempo em que mantém a reprodução ampliada do sistema produtivo local provoca um processo endógeno de contaminação dinâmica sobre inúmeros segmentos (concorrentes, parceiros, fornecedores, etc.) do próprio espaço geográfico. (AMARAL FILHO, 2001, p. 279).

A questão da competitividade pode ser considerada como a nova e central contribuição dos novos paradigmas de desenvolvimento regional endógeno, particularmente do modelo de cluster, de acordo com análise de Amaral Filho, sendo fator determinante da sustentabilidade desse desenvolvimento. O conceito de competitividade deixou de pertencer ao mundo das empresas para se incorporar ao mundo das regiões. As teorias e políticas de desenvolvimento regional requerem hoje “uma síntese que integre dois componentes: a organização econômica associada à organização setorial (principalmente o sistema industrial) e a organização territorial (principalmente o sistema regional)” (PERRIN, 1986, apud AMARAL FILHO, 2001, p. 280).

O ponto central do casamento entre economia espacial ou territorial e economia industrial está exatamente na questão de os fatores componentes da escala da produção de uma empresa não se encontrarem necessariamente na própria empresa, mas sim fora dela, isto é, em outras empresas – cooperadas ou subcontratadas, em outras instituições e organizações, e no próprio ambiente territorial. [...] Mais do que nunca a dependência entre rendimentos crescentes das empresas e externalidades (intrafirma, inter-firmas e territoriais) fica ainda mais reforçada. (AMARAL FILHO, 2001, p. 280).

Para Haddad, 1999, o que se busca com o desenvolvimento regional é a competitividade dinâmica, de empresas e de regiões. “É, em síntese, o melhor equilíbrio no desenvolvimento interno. [...] uma das condições necessárias ao desenvolvimento é a construção de redes, isto é, a integração de diferentes atores e atividades formando grandes agrupamentos interativos [...]” (HADDAD, 1999, p.7-8).

Haddad distingue o processo de crescimento econômico do processo de desenvolvimento regional. O primeiro processo caracteriza-se pelo fato de a localização e a implantação de novas atividades econômicas numa determinada região causar uma elevação dos seus níveis de produção, renda e emprego, num ritmo mais intenso que o do crescimento da população, o que não significará, entretanto, a ocorrência de um processo de desenvolvimento econômico, e sim, que, estará havendo, na média, um aumento na quantidade de bens e serviços para satisfazer as necessidades dos habitantes da região em questão.

Já o desenvolvimento regional, que pressupõe o crescimento econômico, dependerá, conforme Haddad (1999), seguindo formulação de Boisier, da capacidade de organização social da região, que se associa à ocorrência dos seguintes vetores endógenos e exógenos:

 um crescente processo de autonomia decisória;

 uma crescente capacidade regional de captação e reinversão do excedente

econômico;

 um crescente processo de inclusão social;

 uma crescente consciência e ação ambientalista;

 uma crescente sincronia intersetorial e territorial do crescimento;

 uma crescente percepção coletiva de pertencer à região. (HADDAD, 1999, p.10).

Haddad chama a atenção para a necessária distinção a ser feita entre as chamadas vantagens comparativas espúrias e as vantagens competitivas dinâmicas de uma região. As vantagens comparativas espúrias não se sustentam no longo prazo, por se fundamentarem em incentivos fiscais e financeiros, no uso predatório dos recursos naturais do ecossistema, na sobre-exploração da força de trabalho ou na informalidade e na clandestinidade de suas operações.

Já as vantagens competitivas dinâmicas, na abordagem de Haddad (1999), são aquelas que resistem aos processos de globalização e de integração da economia nacional e dependem da dotação de recursos da região e de sua posição em relação a outras regiões do próprio país e do exterior.

A exploração da base de recursos de uma região pode permitir o crescimento do seu mercado interno e abrir oportunidades de investimentos.

O mercado interno de uma região é, em geral, função de três vetores principais: o tamanho da população regional; o seu nível geral de produtividade; o grau de concentração na sua distribuição pessoal e familiar de renda e de riqueza. Quanto maior a população, maior o nível de produtividade (quanto maior a capacidade de produzir, maior a capacidade de consumir) e mais bem distribuida a renda de uma região, maior será a dimensão de seu mercado interno, [grifo nosso]. (HADDAD, 1999, p. 11).

Haddad alerta que, quando se pretende definir quais as potencialidades de crescimento econômico de uma região a partir de sua dotação de recursos, deve-se estar atento que o conceito de potencialidade de recursos é econômico e não físico.

Haddad (1999), indica e analisa os efeitos que novas atividades econômicas podem gerar na economia de uma região (Figura 2.7, p. 195):

 efeitos de dispersão ou de encadeamentos para trás – dada a estrutura tecnológica da nova atividade econômica, esta necessitará de certas quantidades de insumos para produzir determinadas quantidades de produtos;

 efeitos de dispersão ou de encadeamentos para frente – trata-se de beneficiamentos que podem ser realizados com os produtos da nova atividade econômica na própria economia da região, através de efeitos causados em atividades que utilizam estes produtos como insumos;

 efeitos induzidos – são os provocados pela demanda final de bens de consumo ou de bens de capital em função do crescimento da renda regional;

 efeitos fiscais – dadas as características do sistema fiscal do País, o desenvolvimento de uma nova atividade econômica, com suas repercussões em atividades satélites ou complementares e sobre o processo de urbanização na região, sempre irá conduzir ao crescimento das receitas tributárias da região (próprias ou de transferências), por causa do aumento da circulação de mercadorias, da expansão dos setores terciários e dos acréscimos nos valores patrimoniais privados.

Figura 2.7 Impactos Hipotéticos de uma Nova Atividade Econômica sobre o

Desenvolvimento da Região em que se Localiza

Fonte: Haddad, 1999, p. 13.

Desta sequência de impactos derivam-se os multiplicadores regionais.

Quanto maior o grau de interdependência produtiva e quanto menor o grau de ‘vazamentos’ nos fluxos de produção e de renda da região para outras regiões, maiores serão os valores dos efeitos multiplicadores. Assim, por exemplo, a ocorrência de importação de matérias-primas, importação de bens de consumo, pagamentos extra-regionais de dividendos, de serviços de assistência técnica, de custos financeiros, isto faz com que os impactos econômicos sobre a região sejam bem menores. (HADDAD, 1999, p. 15).

Haddad (2001), concorda com Michael Porter quanto a ser um equívoco se acreditar que, o desenvolvimento das moderna tecnologias de transporte e comunicação, aliado à redução de barreiras regulatórias entre as nações, tenha retirado a importância econômica da localização das empresas. Continuando em sua referência à teoria porteriana, Haddad menciona o destaque que ela concede a fatores como: a eficiência das organizações empresariais em termos de custos de implantação e operação (dimensão da empresa); o dinamismo das cadeias produtivas em que se inserem (dimensão da cadeia produtiva); e as condições de desenvolvimento das regiões em que se localizam (dimensão da região). Estas três dimensões, conforme Haddad, configuram o conceito de clusters produtivos concebido por Michael Porter.

Segundo Haddad, as economias regionais não são meras reproduções das economias nacionais, em uma menor dimensão, elas apresentam características específicas que suscitam a necessidade de se ter um referencial teórico diferenciado e mais apropriado à explicação do seu desenvolvimento. Algumas especificidades das regiões são a seguir apresentadas, nas próprias palavras de Haddad:

a) em geral, devido a contatos mais estreitos e alterações mais intensas entre as regiões de um mesmo país do que entre nações soberanas, é de se esperar que os efeitos de transbordamento do crescimento e de polarização sejam mais fortes nas relações econômicas inter-regionais do que nas relações internacionais;

b) os países concorrem nos mercados internacionais com base nas vantagens comparativas e as regiões de um mesmo país concorrem, entre si, com base nas vantagens absolutas;

c) a ausência de soberania econômica de certos instrumentos de política de desenvolvimento e questões macroeconômicas (emissão de moeda, determinação da taxa de câmbio, etc.) podem constituir uma considerável desvantagem para o desenvolvimento de uma região;

d) as forças políticas que contribuem para a transmissão inter-regional de crescimento são, provavelmente, mais poderosas que as que contribuem para a transmissão internacional. (HADDAD, 2001, p. 47).

A competitividade de uma região, em seus produtos e serviços, será função, de acordo com Haddad, de fatores vinculados aos custos operacionais de suas unidades produtivas, aos custos de transferência de insumos e produtos a partir da região e em direção à região, e à estrutura e dinâmica dos mercados em que compete. Neste sentido, as transformações produtivas que buscam a reestruturação do sistema produtivo regional e a implantação de projetos de investimentos devem fundamentar-se nas vantagens competitivas dinâmicas.

A competitividade dinâmica consiste, segundo Haddad, na busca do nível de excelência que permita ampliar o efeito diferencial de uma organização, de um setor produtivo e de uma região, independente de se estar operando com atividades de crescimento mais lento ou mais dinâmico, no âmbito nacional ou internacional.

Para Haddad (2001), os fundamentos da competitividade moderna residem no desenvolvimento científico e tecnológico incorporado nas organizações públicas e privadas.

Neste sentido, a sustentabilidade de um cluster produtivo tem muito mais a ver com a qualidade do capital humano e intelectual que comanda cada uma das suas atividades, do que com eventos efêmeros de natureza macroeconômica (apreciação ou desvalorização cambial) ou de políticas regionais (sistemas de incentivos em regime de guerra fiscal) que podem gerar competitividades espúrias. (HADDAD, 2001, p. 50).

Haddad analisa que o desenvolvimento regional deve envolver os conceitos de “endogenia regional” e de “sustentabilidade ambiental”.

A endogenia é um componente básico da formação da capacidade de organização social da região e nasce como uma reação aos modelos de desenvolvimento regional que colocam ênfase maior na atração e na negociação de recursos externos como condição suficiente para a promoção do crescimento econômico de áreas específicas. Em um processo de desenvolvimento endógeno, a ênfase maior está na mobilização de recursos latentes na região, privilegiando-se o esforço, de dentro para fora, na promoção do desenvolvimento da região. (HADDAD, 2001, p. 49).

No processo de desenvolvimento em bases endógenas, continuando com a análise de Haddad, as empresas incentivadas são de pequeno e médio porte, conformando um espaço – os arranjos produtivos locais ou clusters, onde novos empreendedores passam a ter condições de, agrupados, se inserir de modo competitivo na moderna economia de mercado.

Por outro lado, o conceito de desenvolvimento sustentável, além do aspecto global de sua manutenção no tempo, apresenta quatro dimensões mais relevantes: a) econômica (relativa à capacidade de sustentação econômica dos empreendimentos); b) social (relativa à capacidade de incorporação das populações marginalizadas); c) ambiental (relativa à necessidade de conservação dos recursos naturais e da capacidade produtiva da base física); e d) política (relativa à estabilidade dos processos decisórios e às políticas de desenvolvimento), [grifo nosso]. (HADDAD, 2001, p. 51).

Tomando aportação de Boisier, Haddad (2001) menciona que a idéia central e a força do processo de desenvolvimento regional, reside na capacidade de organização social e política da região, que constitui-se no fator endógeno por excelência e no elemento crucial para transformar o crescimento econômico em “estados” de desenvolvimento. Esta interpretação remete à noção de capital social, de capitais intangíveis em geral, como pode ser visto no (Quadro 2.3).

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