Revista: Turydes Revista Turismo y Desarrollo. ISSN 1988-5261


TURISMO VOLUNTÁRIO EM PORTUGAL: A SOLIDARIEDADE COMO FATOR DE DESLOCAÇÃO

Autores e infomación del artículo

Ana Barbosa

Paulo Carvalho

Universidade de Coimbra, Portugal

a_rubarbosa@hotmail.com

Resumo: A oportunidade de estudar o Turismo Voluntário surgiu da necessidade em explorar segmentações turísticas inovadoras, envolvendo temáticas como: Turismo Cultural, Trabalho Comunitário, Turismo Ativo e de Nicho, entre outras, as quais revelam o interesse do turista em querer ajudar, tendo igualmente a oportunidade de interagir com a comunidade local, e contribuir para o desenvolvimento desta e para o seu desenvolvimento pessoal. Para além de uma análise do Volunturista no Mundo, foi também realizada um estudo exploratório sobre o Turismo Voluntário em Portugal, visto que esta vertente se encontra atualmente em crescimento, o qual inclui exemplos concretos e propostas de ação que poderão ser desenvolvidas num futuro próximo.

Palavras-chave: Turismo Voluntário, Volunturista, Comunidade, Solidariedade, Sustentabilidade, Portugal.

Abstract: The opportunity to study Volunteer Tourism emerged from the need to explore innovative tourism segmentations, involving topics such as: Cultural Tourism, Community Work, Active and Niche Tourism, among others, which reveal the current need of the tourist in wanting to help, also taking the opportunity to interact with the local community, and contribute to the development of this and for their personal development. In addition to an analysis of Voluntourists in the World, an exploratory study on Volunteer Tourism in Portugal was also conducted, since this is a currently growing branch, which includes concrete examples and proposals for action that may be developed in the near future.
Key-words: Volunteer Tourism; Voluntourist; Community; Solidarity; Sustainability; Portugal. 



Para citar este artículo puede uitlizar el siguiente formato:

Ana Barbosa y Paulo Carvalho (2015): “Turismo voluntário em Portugal: a solidariedade como fator de deslocação”, Revista Turydes: Turismo y Desarrollo, n. 19 (diciembre 2015). En línea: http://www.eumed.net/rev/turydes/19/solidariedade.html


1. Introdução
Mais do que uma análise a uma recente forma de praticar turismo, este estudo mostra como o turista está a desenvolver as suas motivações em prol dos mais necessitados. Mas para compreender o sentido do voluntariado, é preciso entender primeiro o que é o turismo, e de que forma é que este se relaciona com a oportunidade de ajudar os outros. 
Existem entidades e estudiosos que estabelecem ideologias para tentar criar aquela que será a definição mais completa para turismo. No entanto, a problemática está em mostrar a dinâmica desta atividade, visto que se lhe aplica cada vez mais conhecimentos e práticas, nomeadamente: Voluntariado (Volunturismo), Morte e/ou Sofrimento (Turismo Negro), Genealogia (Turismo de Memória), Inclusão (Turismo Acessível), entre outros.
De acordo com esta perspetiva, é cada vez mais comum descobrirmos novos segmentos turísticos que surgem de recentes interesses de um determinado público-alvo. Assim surgiu a ideia de abordar um tipo de turismo que é pouco divulgado junto das grandes massas ou potenciais clientes, nomeadamente jovens com interesse em adquirir novas competências, e adultos em final de carreira – Turismo Voluntário.
Este tipo de turismo distingue-se das práticas turísticas mais comuns, pois nasceu da necessidade do turista em querer ajudar o próximo, integrando-se na sua comunidade, portanto, é possível perceber que o turista exige autenticidade, e mais do que tudo isto, que a experiência turística possa contribuir para o seu desenvolvimento individual e trazer vantagens para a comunidade recetora, sentindo-se útil. A isto associa-se os gastos económicos do turista, que sabe perfeitamente em que está a investir para além das suas próprias competências pessoais. É igualmente importante acrescentar que a curiosidade está intrinsecamente associada a esta segmentação turística, pois o “despertar da adrenalina” começa quando o turista viaja para um território totalmente diferente daquele a que está habituado, abdicando da sua área de conforto, criando laços com a comunidade local, chegando a sentir-se parte integrante da mesma, e por isso percebe as suas dificuldades – não se trata apenas de um negócio, mas de uma partilha pessoal da qual, habitualmente, o turista nunca se esquece e utiliza como referência para uma experiência singular.
Para além da análise a esta segmentação turística, constata-se quais são as motivações dos praticantes de Turismo Voluntário, tendo sempre em consideração que estas práticas estão fortemente ligadas à personalidade e à vivência que as pessoas têm antes de realizar estas atividades de cariz solidário.
Mesmo com a já abrangente existência de entidades que apostam nestas práticas, é importante salientar que as pessoas ainda não conhecem a terminologia adequada, desconhecendo até que praticam turismo, além de voluntariado. É fundamental que estudiosos do turismo (e outros interessados) aprofundem a investigação sobre a importância da inclusão de atividades voluntárias no contexto turístico (Molinero e Mujic, 2009), assim como estimulem a publicitação desta segmentação, para que gere benefícios a vários níveis, mas também para que consiga mudar a mentalidade das pessoas, ensinando-as a ver o auxílio de comunidades igualmente como uma atividade de lazer e de aquisição de competências – pode ser enriquecedor ajudar. 
No que concerne aos objetivos nucleares deste estudo destacamos os seguintes: conhecer a génese e desenvolvimento do Turismo Voluntário; identificar a existência de público-alvo que mostre interesse por este segmento turístico; dar a conhecer novas atrações turísticas nacionais e internacionais, no âmbito do Turismo Voluntário. 
Em relação à metodologia aplicada, esta investigação possui um âmbito descritivo e exploratório. Numa primeira etapa realizou-se uma revisão bibliográfica de forma a reunir a informação necessária para compreender a evolução do Turismo Voluntário como prática inovadora na esfera internacional e principalmente em Portugal. De seguida esta pesquisa alargou-se a websites relacionados com a temática em estudo, o que contribuiu para aprofundar o seu conhecimento. A terceira fase passou por realizar algumas deslocações a associações que se enquadravam no perfil de entidades a serem estudadas, salientando-se o contacto com a Associação de Defesa dos Direitos Humanos, sediada em Cascais, que permitiu fixar diversas conclusões sobre o real funcionamento do volunturismo. Ainda nesta etapa, foram fundamentais os documentos oficiais apresentados pela instituição que cedeu regras estabelecidas aos voluntários, origem e forma de promoção da instituição, entre outros.

2. Enquadramento teórico-conceptual
2.1. Turismo e voluntariado 
Para melhor conhecer o conceito de Turismo Voluntário, há que analisar primeiro a sua origem, incluindo a ligação que existe entre o turismo e o voluntariado, e de que forma este nicho pode ser explorado.
O Turismo Cultural tem vindo a diversificar-se, gerando múltiplas segmentações turísticas cada vez mais originais e específicas a um público-alvo. Assim, é cada vez mais comum associar diversas atividades como turismo cultural, desde a visita a um edifício histórico até à busca por espaços associados à morte, como é o caso de cemitérios. Richards (2009:1) menciona esta realidade, ao referir uma definição utilizada pela Organização Mundial do Turismo (OMT), a saber: “movimentos de pessoas em busca de motivações essencialmente culturais, tais como excursões de estudo, teatralizações e excursões culturais, viagens para festivais e outros eventos culturais, visitas a localidades e monumentos, viagens para estudar a natureza, folclore ou arte e peregrinações”. 
Com estes avanços do Turismo Cultural, surgem segmentos direcionados para a sustentabilidade, daí a importância da Carta Europeia de Turismo Sustentável que tem como objetivo principal “(…) o desenvolvimento sustentável da região, de modo a permitir responder às necessidades económicas, sociais e ambientais das gerações presentes, sem comprometer as das gerações futuras” (conforme texto disponível no sítio online do Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas, Portugal, 2014). Para uma melhor compreensão, a estratégia da mesma inclui quatro objetivos fundamentais, a saber: conservação e valorização do património; desenvolvimento social e económico; preservação e melhoramento da qualidade de vida dos habitantes locais; gestão dos fluxos de visitantes e aumento da qualidade da oferta turística.
Este Turismo Sustentável foca-se na utilização dos recursos naturais, principalmente devido à sua possível extinção, considerando que o Homem ainda não faz um aproveitamento sustentável dos mesmos. Mas com este crescimento de preocupação, surge também no turismo, o interesse em experiências sustentáveis para as comunidades acolhedoras, mas que além dos impactos positivos ainda consigam ser lucrativas para as entidades que as desenvolvem.
O Turismo Voluntário é também um Turismo de Nicho, visto estar ainda em exploração e direcionado para um público-alvo muito específico. No entanto, é um tipo de turismo heterogéneo, pois qualquer atividade de volunturismo não pode ser repetida em qualquer parte do mundo, isto é, ajudar crianças no Quénia não é o mesmo que ajudar crianças no Brasil. Já em catástrofes naturais ou conflitos armados, por mais vezes que uma pessoa se voluntarie a intervir, nunca encontrará um cenário totalmente idêntico ao anterior.
Trata-se também de um Turismo Ativo, ou seja, um turismo que não se baseia em ficar apenas a apreciar a cultura, mas em intervir nela. Os volunturistas deslocam-se porque querem fazer a diferença, não tendo como objetivo deixar as coisas como estão, como um turista que se desloca a um museu. Assim, o que mais atrai este turista é poder alterar o destino para onde vai, porém, é importante que existam regras para que o turista saiba o que deve ou não fazer, visto que a sua intervenção poderá também ter impactos negativos e não somente positivos. 
Voluntariado é “um conjunto de ações de interesse social e comunitário, realizadas de forma desinteressada por pessoas, no âmbito de projetos, programas e outras formas de intervenção ao serviço dos indivíduos das famílias e da comunidade, desenvolvidos sem fins lucrativos por entidades públicas ou privadas” (Lei nº 71/98 – Lei de Bases do Voluntariado). Ainda de acordo com este citado quadro normativo português, o Voluntário é “o indivíduo que de forma livre, desinteressada e responsável se compromete, de acordo com as suas aptidões próprias e no seu tempo livre, a realizar ações de voluntariado no âmbito de uma organização promotora”. 
 Assim, para a conceptualização do Turismo Voluntário importa fazer uma fusão dos conceitos anteriormente analisados: Turismo Cultural, Turismo Sustentável, Turismo de Nicho, Turismo Ativo e Voluntariado. Isto porque o Turismo Voluntário tem uma ligação a novas culturas a partir do momento em que as ajuda e pretende realizar atividades sustentáveis, o que configura um nicho do Turismo Cultural e Sustentável; o voluntário quer intervir ativamente, daí o Turismo Ativo; é um altruísta pelo seu interesse ser integrar-se em espaços sem as condições oferecidas pela maior parte dos destinos, pois não quer limitar-se a relaxar, mas a sentir-se útil.
Uma das definições desta segmentação turística foi também elaborada pela Organização de Turismo das Caraíbas: “(…) refere-se a viagens realizadas a destinos, com o propósito de prestar assistência às comunidades locais, providenciando serviços que ajudam no dia-a-dia, ou ajudar em áreas de desastre. Esta forma de turismo expandiu-se nos últimos anos, desde viagens morosas que envolvem trabalho de construção, desenvolvimento comunitário, e/ou conservação, até contributos de um ou dois dias, tais como limpar lixo enquanto num passeio.” (www.onecaribbean.org, 2014).
 No entanto, existem autores que distinguem os turistas voluntários dos volunturistas, pois estes últimos têm como foco principal as férias e só depois o voluntariado (Wearing, 2001, cit. in Wearing & Grabowsi, 2011:153). Desta forma, Wearing (2001:1) refere que o turista voluntário é aquele que “se voluntaria, numa forma organizada para fazer férias que possam envolver ajuda ou alívio à pobreza material de alguns grupos da sociedade, ou restauro de certos ambientes, ou pesquisa sobre aspetos da sociedade ou ambiente”.
Por outro lado, o termo “turismo baseado na comunidade” surgiu quando Louis-Antoine Dernoi, em 1988, reconheceu a existência de uma segmentação turística que fomentava a comunicação intercultural e a compreensão entre anfitriões e convidados (Wearing & Grabowsi, 2011:154).
De igual modo, importa recordar as palavras de Vommaro (2008:240), a respeito da investigação de Xavier Zunigo apresentada na obra “Volontaires chez Mère Teresa. Auprès des plus pauvres d’entre les pauvres” (2003), que reconhece tratar-se “(…) de una forma de viaje particular: o “turismo humanitario” en Calcuta, India, donde año a año miles de jóvenes, en su mayoría provenientes de los países ricos del mundo, llegan para realizar tareas de ayuda en los centros caritativos de la Orden de las Misioneras de la Caridad, fundada por la Madre Teresa en 1950”.
É com interesse nestas comunidades ou ambientes desajustados daquilo que é habitualmente considerado socialmente aceitável que surge o voluntariado como resposta a assuntos sociais e ambientais, mas também como resposta a desastres naturais, como é o caso do Furacão Katrina (com mais de 1.800 mortos em agosto de 2005), de desastres humanos relacionados com atentados terroristas como a queda das Torres Gémeas (com cerca de 3 mil mortos em setembro de 2001), ou situações de desmembramento político de que é exemplo a antiga Jugoslávia, e que provocou também externalidades negativas no setor turístico – a este respeito, Klicek e Breda (2010), através do estudo de caso de campos de trabalho internacionais, promovidos pelo Centro de Voluntariado de Vojvodina, analisaram o contributo (decisivo) das atividades de voluntariado para o desenvolvimento do turismo na Sérvia.
 Estes acontecimentos precisam de projetos humanitários, e é aqui que as organizações voluntárias traçam diversos planos com o propósito de servir as comunidades afetadas. É principalmente no caso dos países em vias de desenvolvimento (PVD), que as organizações intervêm no âmbito da educação, da recuperação ambiental, crescimento da economia, desenvolvimento de projetos de restauração e preservação da identidade e autenticidade da cultura. 
Apesar do surgimento de projetos e de existirem cada vez mais espaços que se dedicam a este tipo de turismo, o tamanho do mercado global é ainda muito incerto, sendo que os autores apresentam dimensões quantitativas divergentes, embora sustentem um crescimento constante. A Organização de Turismo das Caraíbas estima cerca de 250 mil visitantes por ano – referindo que 65 mil (um quarto do total) são americanos que viajam para o estrangeiro com o objetivo de realizar férias em volunturismo. Outros dados desta afluência referem que esta segmentação turística estima atrair 1.6 milhões de turistas voluntários por ano, com um valor superior a 832 milhões de libras (TRAM, 2008, cit. in Wearing & Grabowsi, 2011:149). 

2.2 Problemas e potencialidades do Turismo Voluntário
Os benefícios associados a esta prática são muitos, quer sejam para as comunidades, para as organizações sociais e para os voluntários, por isso deve ser estimulada. Assim, importa salientar:
– Potencialidades para a comunidade: desenvolvimento de projetos locais que permitam o crescimento da comunidade; contacto com outras culturas e realidades; aumento do comércio local; prática de um turismo mais justo e igualitário.
– Potencialidades para as organizações sociais: divulgação e promoção da organização e dos seus projetos; aumento da dimensão da intervenção social; angariação de fundos para os projetos.
– Potencialidades para os voluntários: aquisição de conhecimentos (aperfeiçoamento de novas competências); gratificação de “fazer o bem sem olhar a quem”; construção de uma sociedade mais justa. (InComunidade, http://www.rotassolidarias.org, 2014).
No entanto, o Turismo Voluntário apresenta também aspetos negativos que devem ser considerados aquando a sua realização, de forma a evitá-los, designadamente: deterioramento de espaços únicos; efeito nocivo da Globalização: perda de identidade (influências dos países emissores sobre os recetores); comercialização destes destinos; descuido das necessidades locais por excesso de interesse económico; diminui o crescimento de oportunidades de trabalho devido à existência de trabalho voluntário; progressiva debilidade das atividades de comércio tradicional; impacto ambiental gerado pelos voos de longa distância (http://onecaribbean.org/, 2014).

2.3 Perfis e motivações do turista voluntário
De acordo com Tomazos (2009: 29) “It has been suggested that volunteering is a manifestation of cooperation and reciprocal altruism (…). Esta reciprocidade implica que a expetativa de que o ator vai receber algum tipo de benefício em algum momento no futuro é central para o ato do voluntariado.
Segundo Wearing & Grabowski (2011:151) o visitante mais característico dos países em vias de desenvolvimento é o jovem ocidental, sendo que muitos destes viajantes encontram-se numa missão de autodescoberta e busca da realidade ainda desconhecida, com impulsos pouco altruístas – enquadra-se no perfil do consumidor Gap-Year.
Os consumidores Baby-Boomers constituem um dos maiores grupos de viajantes voluntários, sendo alvo de múltiplas organizações (Bakker & Lamoureux, 2008, cit. in Wearing & Grabowski, 2011:152). Já Brown & Lehto (2005) realçam que o grupo etário mais velho não tem necessariamente motivações egoístas, visto que os seus estímulos passam pela imersão cultural, a criação de novas amizades, entre outras. No entanto, como mencionado anteriormente, visto que esta é uma segmentação em constante crescimento, ainda não existe concordância entre os autores sobre os diferentes perfis de consumidores, sendo de salientar que Stoddart & Rogerson (2004, cit. in Wearing & Grabowski, 2011:152) foram mais pormenorizados nas suas investigações destes consumidores, estabelecendo quatro perfis demográficos, incluindo: jovens voluntários (entre os 20 e 29 anos); voluntários de meia-idade (entre os 30 e 40 anos); pré-reformados (entre os 50 e 59 anos); idosos (60 e mais anos). 
As motivações do turista voluntário são extremamente diversificadas, estando também associadas às suas vivências. Na atualidade os padrões de mobilidade são mais complexos, visto que as pessoas tendem a ser mais suscetíveis a ações solidárias e de voluntariado, tendo em conta que exigem cada vez mais um contacto único, personalizado e próximo, quase fazendo parte da comunidade visitada. No entanto, podemos ligar estas motivações à globalização, pois é esta que permite que se tenha conhecimento de outras sociedades, e da diferença que existe entre aquilo que se adquire com facilidade sem lhe dar valor, e aquilo que se pensava fazer parte de um passado longínquo, mas que continua a ser uma realidade. 
De entre outros contributos relevantes, salienta-se o trabalho de Callanan & Thomas (2005) – cit. in Wearing & Grabowsi (2011:150) – que, para além de analisar os critérios principais para a realização da viagem, agrupa as motivações em função do seu praticante, o que permite destrinçar três níveis de turista voluntário, a saber: superficial, intermédio e profundo.
 
3. Componente Empírica
3.1 Contexto internacional: destinos de eleição; entidades e eventos de referência
O Homem tem sido ensinado a ser mais altruísta, e a forma mais simples destes ensinamentos passa pelas redes de comunicação que facilitam a difusão de informação, seja ela por imagens, vídeos ou textos que demonstram aquilo que algumas sociedades ainda sofrem no século XXI. É ao aprenderem a olhar mais para as necessidades dos outros que as pessoas ganham mais interesse em ajudar e aproveitam estas iniciativas para contactar diretamente com outras identidades culturais, tendo a possibilidade de conhecer novas pessoas e culturas, ensinando assim o que conhecem e absorvendo também aquilo que distingue a comunidade recetora dos seus visitantes. 
No âmbito do Turismo Voluntário, são as ações de pequena dimensão que fazem toda a diferença, ou seja, ao conhecer uma determinada região e auxiliá-la no seu desenvolvimento, contribui-se também para o desenvolvimento em sentido global, beneficiando-o, mesmo que de uma forma indireta e a longo prazo.
A Organização do Turismo das Caraíbas menciona como principais destinos competidores aqueles que estão localizados em África e na Ásia: Burkina Faso, Camboja, Lesoto, Nepal e Tanzânia. Já a informação prestada no sítio da internet Voluntários Online (http://blog.voluntariosonline.org.br/voluntourism-voluntariado-e-turismo/), refere os maiores recetores de turistas voluntários como sendo: América Latina (Peru, Cuba, Honduras, Bolívia, Equador, El Salvador, Nicarágua, Brasil, México e Guatemala); África (Mali, Senegal, Tanzânia e Marrocos); Ásia (China, Camboja, Taiwan e Índia).
De um modo geral estes países caracterizam-se por situações de pobreza, mas alguns destinos estão associados a catástrofes naturais, ou na pior das hipóteses, conflitos e guerras. 
São diversas as entidades envolvidas no Turismo Voluntário, no entanto, esta segmentação não se cinge às missões ocorridas noutros países, mas também à realização de eventos que estimulam esta prática. Um caso recente desta prática, estimulada por um evento com impacto mundial, foi a FIFA World Cup (que decorreu no Brasil em meados de 2014), e sobre o qual se conseguiu a seguinte notícia: “O Ministro do Turismo do Brasil reuniu-se com o secretário-geral da OMT [Organização Mundial do Turismo] para negociar a realização de uma edição brasileira do curso «Turismo e Cooperação Internacional para o Desenvolvimento». O objectivo é aumentar a equipa brasileira de voluntários da OMT. No país, esses profissionais vão preparar voluntários multiplicadores aptos a recrutar, formar e selecionar voluntários locais que atuem na Copa do Mundo e nos Jogos Olímpicos no Brasil.” (Notícia de 11 janeiro 2012, no Ministério do Turismo). 
Algumas entidades mundialmente reconhecidas pelas atividades que desempenham nesta segmentação turística são: Creative Corners, The Global Arts Project (http://www.creative-corners.com/); I-TO-I (http://www.i-to-i.com/); Go Differently (http://www.godifferently.com/voluntourism.html); Voluntourism (http://www.voluntourism.org/).

3.2 Portugal: exemplos práticos de entidades/atividades
Em Portugal podemos referir também algumas entidades envolvidas nesta segmentação turística, quer pelas atividades únicas desempenhadas, quer pelo altruísmo de algumas das iniciativas. 
A InComunidade é uma cooperativa de solidariedade social, sem fins lucrativos, sediada no Porto desde março de 2012. Ambiciona contribuir para a promoção da dignidade humana em todas as suas vertentes, garantindo o desenvolvimento de comunidades mais solidárias.
Tem como visão “Ser uma Rede de Turismo Solidário, nacional e internacional, que trabalha em prol das organizações sociais, reconhecida por contribuir para a promoção da consciência social através da prática e voluntariado e de turismo étnico e responsável” (www.incomunidade.org).
O seu objetivo principal passa pelo “Desenvolvimento de projetos sociais em cooperação e em rede que contribuam para a sustentabilidade, para o empreendedorismo e para a responsabilidade social das organizações, das pessoas e comunidades” (www.incomunidade.org).
Um dos programas de intervenção comunitária da InComunidade é o “Rotas Solidárias” – desenvolvido com a finalidade de associar o trabalho voluntário, a solidariedade e o turismo responsável. Estes programas de turismo voluntário possibilitam aos grupos de turistas voluntários “a experiência de conviver com culturas diferentes, usufruir de encantos naturais, históricos e culturais e de, simultaneamente contribuir para o crescimento de uma comunidade, pela prática de voluntariado relevante em organizações sociais” (www.incomunidade.org). Os objetivos deste programa são os seguintes: participar na construção de uma sociedade mais sustentável, estimulando a interação social enquanto fator de combate à exclusão social; dinamizar a atividade económica, de forma transparente e ética, permitindo o desenvolvimento da economia local; desenvolver projetos locais que permitam o crescimento da comunidade, a curto, médio e longo prazo; divulgar as organizações sociais e os seus projectos e atividades; incentivar a prática de um turismo ético, responsável e solidário, quer ao nível nacional que internacional. 
Uma das atividades recentemente desenvolvidas (março de 2014) consistiu em juntar um grupo de jovens voluntários de nacionalidade espanhola e francesa, que investiram na limpeza do Rio Tinto e desenvolveram atividades de ocupação de tempos livres com pessoas com paralisia cerebral. Estas atividades decorreram no âmbito dos programas de turismo voluntário e foram desenvolvidas em parceria com a Quercus Porto e com a Associação de Paralisia Cerebral do Porto. 
Outra Organização Não Governamental portuguesa, privada, independente, apolítica e sem fins lucrativos é a AMI (Assistência Médica Internacional). Foi fundada (em dezembro de 1984) pelo médico Fernando Nobre, assumindo-se como uma organização humanitária inovadora no país, com o objetivo de intervir rapidamente em situações de crise e emergência e a combater o subdesenvolvimento, a fome, a pobreza, a exclusão social, e as sequelas de guerra em qualquer parte do Mundo, conforme informação disponível no site desta organização (http://www.ami.org.pt/).
De acordo com Campaniço (2010), a AMI foi pioneira na aplicação de projetos desta natureza em Portugal e, portanto, está na génese da chegada do Turismo de Voluntariado a Portugal.
Com o Homem no centro de todas as suas preocupações, a AMI criou quinze equipamentos sociais em Portugal e já atuou em dezenas de países por todo o Mundo, para onde enviou toneladas de ajuda (medicamentos e equipamento médico, alimentos, roupas, viaturas, geradores, entre outros) e centenas de voluntários. 
A visão da AMI passa por “atenuar as desigualdades e o sofrimento no Mundo (…) Criar um mundo mais sustentável, mais harmonioso, mais inclusivo, mais tolerante, menos indiferente, menos violento” (http://www.ami.org.pt/, 2014).   
Depois de ter cumprido o seu primeiro objectivo – prestar assistência aos países de língua oficial portuguesa – a AMI levou a presença humanitária portuguesa a todo o Mundo. Desde 1984 que intervém em 2 vertentes – nacional e internacional – e alargou o seu âmbito de ação da saúde física à saúde social e ambiental. Com isto, os 4 pilares nos quais assenta a atuação da AMI são: Assistência Médica, Ação Social e Ambiental e Alertar Consciências. 
A AMI tem ainda missões com Equipas Expatriadas:
– Missões de Emergência: pretendem dar resposta a situações de catástrofe (de origem natural ou provocadas pelo Homem, nomeadamente originadas por guerras ou conflitos); este tipo de intervenção pode durar algumas semanas, meses ou estender-se até 1 ano de intervenção no terreno.
– Missões de Desenvolvimento: pretendem dar resposta a problemas sociais e económicos de carácter estrutural; têm como objectivo “combater as dificuldades de forma sustentável e duradoura, através de um esforço conjunto de ajuda dos países desenvolvidos aos PVD”; (…) estas missões podem demorar anos ou décadas (alternando a equipa) (…) ”. (http://www.ami.org.pt/, 2014).   
 Para além destas organizações, existem também agências de viagens que promovem por todo o mundo estas novas segmentações, como é o caso da Top Atlântico, Viagens e Turismo S. A. Esta surgiu em 2003, fruto da fusão entre a Top Tours e a Space Travel, e foi recentemente (em outubro de 2014) integrada na Springwater, após a aquisição da Espírito Santo Viagens por esta última empresa de capital de risco sedeada em Genebra.
No campo de ação do Turismo Voluntário, a agência apresentou, em 2012, um panfleto de viagens de voluntariado e aventura (com preços que variavam entre os 1.999€ e 2.649€), disponibilizando os seguintes destinos: África, Ásia e América Latina. Estas viagens tinham durabilidade entre 1 a 12 semanas, incluindo atividades como: cuidar de crias de leões ou tigres; aprender música e danças tradicionais; trabalhar numa comunidade rural; visitar projetos de solidariedade; dar contributos para a preservação ambiental de reservas ecológicas.
Por sua vez, a Sol Sem Fronteiras é uma Organização Não Governamental para o Desenvolvimento nascida em 1993. Tem como objectivo “promover os ideais da fraternidade e solidariedade entre povos, particularmente entre jovens de países diferentes” (http://www.solsef.org/, 2014). Solsef, também assim denominada, é uma associação de inspiração cristã, “de jovens para jovens, que age de forma responsável e objectiva, apostando em projetos relevantes e promovendo a solidariedade de forma criativa e irreverente além-fronteiras.
O objetivo da organização assenta em 3 grandes áreas de atuação, a saber:
– Projetos de Cooperação e Desenvolvimento: atividades concretas que promovem o desenvolvimento sustentável das populações em locais desfavorecidos nos PVD;
– Voluntariado: experiência de intercâmbio entre jovens e a vivência de cooperação em PVD;
– Educação para o Desenvolvimento: sensibilização pública para os desafios do desenvolvimento local, nacional e internacional (http://www.solsef.org, 2014).
Há diversas formas de exercer voluntariado na Sol Sem Fronteiras – existe a possibilidade de integrar projectos de voluntariado internacional, com desenvolvimento de trabalho de cooperação em PVD, ou em Portugal. 
 Todas estas, e muitas outras organizações que aqui não foram mencionadas, interessam-se pelo Turismo Voluntário e procuram espelhar esse interesse na comunidade onde se integram. No entanto, todas têm formas de atuar distintas: a InComunidade investe em atividades, ambientais e sociais, sendo requisitada por estrangeiros como referia a notícia previamente citada; já a AMI é uma organização com foco internacional, no entanto, só podem ser voluntárias, pessoas que se relacionem com a área da saúde; a Top Atlântico é uma agência, e por isso foca-se nesta segmentação como em tantas outras; a organização Sol Sem Fronteiras tem um cariz religioso, no entanto, desenvolve outros projetos além do voluntariado. 

3.3 Volunturismo na ADDHU
A Associação de Defesa dos Direitos Humanos (ADDHU) é uma Organização Não Governamental para o Desenvolvimento. Promove projetos de Educação para os Direitos Humanos, Cooperação para o Desenvolvimento e Ajuda Humanitária a nível nacional e internacional, nomeadamente no Quénia (atualmente o destino do Nepal está condicionado), onde presta assistência a crianças órfãs e vulneráveis, famílias e comunidades desfavorecidas que vivem em situação de pobreza extrema, melhorando as suas condições de vida e promovendo o seu desenvolvimento (http://www.addhu.org/).
Esta organização foi fundada em 2006, quando a professora universitária Laura Vasconcellos fez uma viagem à Birmânia e a população apelou: “sê a nossa voz lá fora”. Assim se desenvolveu a ideia para que nascesse a ADDHU. Hoje, esta organização planeia todas as suas ações e intervenções numa perspetiva de empowerment das populações, de forma a que o seu desenvolvimento seja duradouro e sustentável, fazendo com que “as comunidades sejam auto-suficientes e caminhem por si só”(http://www.addhu.org/, 2014). 
A missão da ADDHU consiste em dar assistências a crianças e famílias necessitadas; fomentar o desenvolvimento sustentável das comunidades que são apoiadas; promover a consciência da cidadania global no seio da população portuguesa.
Após a realização de uma viagem à sede da ADDHU em Cascais e de uma entrevista à sua representante máxima, foi possível perceber melhor o funcionamento desta organização. Segundo algumas informações fornecidas por Laura Vasconcellos, em abril de 2014 estavam alojadas 23 crianças na “casa de acolhimento” do Quénia, e que são ajudadas por voluntários. Muitos destes jovens não se relacionam com as famílias (órfãos ou abandonados), e outros são apoiados pela organização com a autorização das suas famílias, visto que estas não têm forma de lhes dar aquilo que seria próprio para as suas idades.
Para além de apoios, a Presidente refere ainda a necessidade de aceitar voluntários capazes de desempenhar estas tarefas, pois a imagem que elaboram inicialmente é mais simplista, porém, Laura Vasconcellos menciona todos os prós e contras destas viagens, pois pretende perceber se a pessoa estará realmente preparada para lidar com um mundo novo, e sem o conforto a que se está habituado. O voluntário terá de abdicar do seu conforto para conseguir construí-lo na comunidade que o acolhe. Um exemplo salientado foi a curiosidade por parte de um jovem de nacionalidade brasileira que tinha interesse em tornar-se voluntário, tendo-se deslocado a Portugal para realizar uma entrevista (obrigatória para a admissão numa missão no estrangeiro), e eventualmente viajar para o destino pretendido.
A imagem transmitida na entrevista foi de total transparência, sendo este um dos valores da ADDHU, visto prestarem contas (no sítio online oficial) aos membros, parceiros, doadores e ao público em geral, para que todos possam ter conhecimento dos investimentos que são feitos pela organização nas comunidades apoiadas. A responsabilidade é também outro dos valores, pois os projectos implementados pela organização são economicamente viáveis e socialmente justos. A ADDHU garante justiça na sua intervenção, visto que protege os Direitos Humanos. Não existe qualquer ligação política ou religiosa. A solidariedade é uma das palavras que distingue esta organização, pois leva ajuda ao Nepal, ao Quénia, aos emigrantes portugueses e a cidadãos residentes em Portugal. Finalmente, a ADDHU tem respeito pela Dignidade Humana e pelos Direitos Humanos, uma vez que as suas ações não têm barreiras discriminatórias, ajudando todos de igual forma. 
Já muitos projetos foram desenvolvidos para financiar a vivência das crianças e famílias apoiadas, entre os quais: peças de teatro, exposições de fotografia, ciclo de concertos temáticos, entre outros. 
Em relação aos destinos no contexto das ações da ADDHU salienta-se o Quénia – situado na África Oriental. Este país contava em 2007 com cerca de 56% da população em situação de extrema pobreza (relatório das Nações Unidas). É em Nairobi que os voluntários permanecem, nomeadamente no maior bairro de lata de África (Kibera). A contribuição do voluntário para a realização desta viagem funciona consoante o tempo de permanência, nunca incluindo as despesas de deslocação (estas ficam a cargo do voluntário): 500€ (2 semanas); 750€ (1 mês); 1000€ (2 meses); 1250€ (3 meses).
  A ADDHU chegou ao Quénia em 2007 estabelecendo as seguintes prioridades: providenciar alimentação, educação e cuidados de saúde às crianças dos bairros de lata de Nairobi, nomeadamente órfãos vítimas da Sida e crianças seropositivas; envio de voluntários para as áreas com maior necessidade, como orfanatos, escolas e centros médicos; realização de campanhas de prevenção e informação sobre doenças como o HIV e ainda campanhas de combate contra a mutilação genital feminina; providenciar, sobretudo às jovens das regiões mais carenciadas, produtos de higiene feminina, alertando também para a importância dos cuidados de higiene; estudar as possibilidades de aproveitamento sustentável dos recursos naturais, em especial a água, escassa em algumas regiões, bem como financiar a construção de furos de água em regiões rurais remotas.
Mas a ajuda não passa somente pelas missões no estrangeiro, existe a possibilidade de apadrinhar uma destas crianças ou famílias apoiadas pela ADDHU, auxiliando com fundos que revertem para a sua educação e desenvolvimento pessoal. Para quem não tem possibilidade de se deslocar mas tem interesses altruístas, terá aqui uma solução que permite realizar as suas expetativas, e poderá ter contacto constante sobre a situação da criança ou família apadrinhados. 
Existem assim diversas formas de ajudar para além das Missões no Estrangeiro e de apadrinhar uma criança (Programa de Apadrinhamento Wanalea), e fazer com que a Declaração Universal dos Direitos Humanos não seja apenas uma utopia, mas sim uma realidade, nomeadamente: uma pessoa pode torna-se sócia da ADHU preenchendo um formulário e realizando o pagamento de uma quota anual de 20€; contribuir para o Programa Alimentar Escolar, assegurando a alimentação de uma criança de um bairro de lata através do programa Alimente uma Criança, com a quantia mensal de 10€; é ainda possível oferecer Dádivas de Esperança, ou seja, ajudar a quebrar o ciclo de pobreza com a oferta de uma vaca ou uma cabra a uma família de uma comunidade rural, dar um cobertor ou financiar a aquisição de material e livros escolares para uma criança, entre outros; fazer donativos à organização para que esta possa investir no dia-a-dia das comunidades. 
 Durante a entrevista (mencionada anteriormente) foi cedido um documento com algumas informações sobre o voluntariado, designadamente aquelas que deverão ser as tarefas e responsabilidades do voluntário durante as missões: aulas de português; apoio escolar e nos trabalhos de casa e leitura; educação para a cidadania e os direitos humanos; educação para a saúde e a higiene: ensino de hábitos de segurança; atividades desportivas; teatro e dramatização; música e dança; jardinagem; tarefas domésticas; cozinha; trabalhos manuais e de atividades artísticas; ajudar a preparar as crianças e coordenar/supervisionar todas as atividades: vestir, lavar os dentes e as mãos, tomar banho, servir as refeições, ensinar as crianças a comer, pegar em talheres, vestir os pijamas, deitar as crianças, etc.; disciplina e boa conduta: ensinar hábitos de boa conduta e valores de respeito, tolerância, responsabilidade, amizade, solidariedade e partilha. 
O trabalho dos voluntários não deve reduzir-se a brincadeiras e jogos com as crianças. Os voluntários devem ajudar a garantir o bom funcionamento do Centro, assistindo os colaboradores locais e o staff do Centro nas suas actividades diárias, e participando activamente nas mesmas. O trabalho de voluntariado é extremamente gratificante mas também é duro e nem sempre divertido e exige muita dedicação, espírito de missão e, por vezes, muita paciência. O voluntário deve ajudar naquilo que for necessário, desde realizar tarefas domésticas como lavar louça ou roupa, a pintar uma parede ou ajudar a por cimento num buraco. “No orfanato as crianças esperavam-nos, alinhadas, cantando com vozes doces e afinadas. Vivi com eles por uns dias. No fundo, mais uma órfã muito bem recebida naquele orfanato situado no Quénia, numa zona rural, espelhando o retracto de uma África pura.” (Testemunho de Rita Campos, primeira voluntária da ADDHU no Quénia). 
 
3.4 Rock in Rio Solidário 
Para além das já referidas organizações que apostam nas missões nacionais e internacionais, existem outras formas de praticar Turismo Voluntário. Um relevante caso de sucesso em Portugal é o festival de música Rock in Rio, idealizado e realizado pelo brasileiro Roberto Medina em 1985, estando já na 14ª edição (Rock in Rio Lisboa 2014).
No entanto, não se trata apenas de um festival de música, mas sim de um projeto que possibilita a sustentabilidade de diversos destinos envolvidos, utilizando parte das receitas para instituições de solidariedade e outros. Assim, mais do que um evento musical, tornou-se completo e abrangente ao abordar temas como a sustentabilidade e responsabilidade social e ambiental. Assumiu o compromisso de consciencializar as pessoas que, com pequenas atitudes no dia-a-dia, dá para fazer do mundo um lugar melhor. 
“O festival concretiza o projecto social de duas maneiras. Uma consiste em despertar a consciência de cada pessoa, mostrando que todos são responsáveis por tornar o mundo um lugar melhor para viver. A segunda é a angariação de fundos e a sua atribuição a organizações nacionais e internacionais que apoiam crianças carenciadas.” (http://www.audacia.org, 2014). 
 O Rock in Rio tornou-se um “veículo de comunicação de emoções e causas”, que utiliza a música como linguagem universal, visto que esta tem o poder de reunir pessoas. Foi a partir da terceira edição (Rock in Rio Brasil 2001) que o festival consolidou o projeto “Por um Mundo Melhor”, que “nasceu para usar a força do festival para motivar as pessoas” a procurar uma vida melhor. Isto deu-se com um movimento inédito – 98 milhões de pessoas (incluindo 3.522 estações de rádio e de televisão) uniram-se em torno de um gesto simples: 3 minutos de silêncio, todos reunidos por um mundo melhor. Foi nesta edição que parte da receita do festival foi utilizada em projetos sociais. Parte dos lucros já se destinaram a: plantação de 93 mil árvores; construção de uma escola (Tanzânia); construção de um Centro de Saúde no Maranhão (Brasil); educação de 3.200 jovens no ensino básico (Rio de Janeiro); instalação de 760 painéis solares em 38 escolas (Portugal); instalação em ONG de 14 salas sensoriais para melhorar a qualidade de vida de milhares de crianças portadoras de necessidades especiais (Portugal); doação de mais de 2.200 instrumentos para cerca de 150 instituições sem fins lucrativos; construção de 10 salas de música em escolas de comunidades pacificadas (Rio de Janeiro) – conforme informação disponível no sítio online do evento: http://rockinrio.com/rio/porummundomelhor/.
Outras formas de sustentabilidade são utilizadas, como o caso do evento modernizar-se a nível de materiais usados devido aos impactos ambientais das suas ações, tentando reduzir a emissão de CO2. Ainda focando o aspecto ambiental, o festival fornece também um manual para as empresas que trabalham no evento para que práticas sustentáveis façam parte da rotina dos seus fornecedores e parceiros. 
“Muito mais que um evento musical, tornou-se completo e abrangente ao abordar temas como sustentabilidade e responsabilidade socioambiental. E assumiu o compromisso de consciencializar as pessoas que, com pequenas atitudes no dia-a-dia, dá para fazer do mundo um lugar melhor.” (http://rockinrio.com/rio/rock-in-rio/historia/). 
 Após o lançamento do Plano de Sustentabilidade (conformidade com a norma internacional ISSO 20121 Sistemas de Gestão Sustentável para Eventos), foi realizado um compromisso para compreender plenamente o impacto e identificar maneiras de minimizar os efeitos negativos e maximizar os legados positivos ambientais, sociais e económicos do evento.
Existe cada vez mais a convicção de que é possível ajudar ou participar desinteressadamente em projetos e causas que transcendem claramente a individualidade de cada um. No Rock in Rio foi também contemplada a participação do voluntariado, visto ser uma força ativa da sociedade, congregadora de sinergias. Os voluntários (400 em 2014) do evento puderam inscrever-se no sítio online, prestando apoio em domínios como, por exemplo, a acreditação; a gestão de público; a assessoria de imprensa; a área VIP; as áreas de entretenimento da Cidade do Rock (como o Palco Mundo, o Palco Vodafone, a Electrónica, Rock Street Dance, entre outros). 
Este projeto desenvolveu-se no âmbito do evento Rock in Rio Lisboa 2014, onde participaram cerca de 400 voluntários. “Desde 2004, ano da primeira edição portuguesa, recebemos voluntários que são uma ajuda fundamental na realização do Rock in Rio porque melhoram a capacidade e qualidade de entrega do evento ao público. O Projecto de Voluntariado desenvolvido em Lisboa tem vindo a revelar-se um sucesso cada vez maior, comprovado pelo aumento do nº de inscrições a cada edição, e tem servido de modelo a futuras inscrições.” (conforme refere Roberta Medina, Presidente Executiva do Rock in Rio – texto disponível no sítio online http://rockinriolisboa.sapo.pt/blog/inscricoes-abertas-para-o-voluntariado-no-rock-in-rio-lisboa-2014/).
Este evento enquadra-se com o Turismo Voluntário, pois existem grandes movimentos de pessoas por todo o mundo com o objetivo de participar deste festival. Muitos dos seus visitantes sabem a influência que a sua adesão ao festival tem, e cada vez mais se juntam a este evento, não apenas pelos concertos em si, mas pela oportunidade de viajar para um novo país, conhecer novas pessoas, e aproveitar aquilo que estas regiões podem oferecer. 

3.5 Propostas para valorização e desenvolvimento 
Para que o Turismo Voluntário cresça, é necessário em primeiro lugar que as pessoas percebam que existe mais para além daquilo que conhecem, ou seja, comunidades desfavorecidas que não são auto-sustentáveis, existem catástrofes que são imprevisíveis e impossíveis de contrariar, conflitos, e muitos outros problemas que deverão ser apaziguados se possível, ou então, as pessoas devem ser ensinadas e preparadas a lidar com as situações.
Quando falamos de turismo, falamos também de lazer, e isso é possível no Turismo Voluntário a partir do momento em que se criam atividades que estimulam o turista em diferentes aspetos, entre as quais: criação de eventos solidários; promoção de destinos para a prática de Volunturismo; auxílio das comunidades mais próximas (evitar impactos negativos ambientais). 
 Portugal, visto que não consegue, felizmente, atingir a mesma atratividade dos destinos de PVD, deverá apostar na criação de eventos solidários. Quando falamos destes eventos, fazemos referência à necessidade de dialogar com algumas entidades turísticas de renome no mercado, para que possam desempenhar as suas atividades, anualmente, durante uma semana, gratuitamente, e aquilo que conseguirem angariar com este projeto seja maioritariamente revertido para ações de solidariedade. 

4. Conclusão 
O voluntariado assume uma importância cada vez mais relevante no contexto do crescimento da atividade turística e dos seus efeitos positivos para o desenvolvimento individual do turista, e para o desenvolvimento do binómio comunidade/território recetor(a).
A participação em atividades altruístas no decurso de uma experiência turística ou a inclusão do voluntariado no turismo configura também um domínio de valor estratégico na perspetiva da investigação turística contemporânea.
Após a revisão de literatura especializada e o contacto com algumas entidades que desenvolvem ou promovem atividades de Turismo Voluntário, foi possível caracterizar este segmento de forma mais pormenorizada, designadamente em função das ligações com outras tipologias de turismo. 
Portugal assume-se cada vez mais como um dos emissores de turistas voluntários, mas também existem diversas entidades portuguesas a apostar nesta segmentação. Assim, considerando que a atividade turística assumiu uma dimensão global, se o Turismo Voluntário for planeado e implementado de forma correta, poderá trazer igualmente benefícios a todos os envolvidos nestas práticas.
É ainda importante ressalvar as dificuldades inerentes a um estudo desta natureza, sobretudo no que concerne à escolha das organizações a investigar, pois algumas não consideravam enquadrar-se na temática; outra dificuldade foi a impossibilidade de uma análise aprofundada do perfil do turista voluntário tendo como exemplo a ADDHU, pois apesar da realização de um inquérito por questionário, as respostas obtidas foram em número reduzido o que não permitiu considerar os dados fidedignos.  

Referências citadas e consultadas (acedido entre 17/02/2014 e 31/01/2015) 

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Organização do Turismo das Caraíbas – http://www.onecaribbean.org/ 
Destinos Receptores – http://blog.voluntariosonline.org.br/ 
http://coopnuevohorizonte.org/en/solidarity-tourism/ 
http://www.publituris.pt


Recibido: 04/11/2015 Aceptado: 20/12/2015 Publicado: Diciembre de 2015

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