TURyDES
Vol 6, Nº 15 (diciembre/dezembro 2013)

A INFLUÊNCIA DA ALAMEDA BRÜSTLEIN NA PAISAGEM TURÍSTICA DE JOINVILLE (SC – BRASIL)

Romualdo Theophanes de FRANÇA JR. (CV) y Cristiane SILVA (CV)

INTRODUÇÃO

É como atividade eminentemente social que o turismo tem marcado setores da economia e da vida cotidiana das pessoas. Os interesses na atividade turística são os mais diversos, pode-se citar como exemplos, destes, as entradas de divisas para um país, o status das Cidades e de seus administradores, a disputa por fatias de recursos orçamentários, a criação de empresas especializadas, os benefícios fiscais, a requalificação dos espaços, entre outros fartamente apontados em atuais artigos desenvolvidos pela academia.  A disponibilidade de atrativos turísticos é igualmente diversificada, dos quais cita-se, somente, os de lazer, ecológicos, eventos, culturais, paisagísticos e esportes. Portanto, por si estes já representam boa parte da vida e dos recursos turísticos possíveis de uma localidade.
O planejamento da paisagem apresenta-se como uma ferramenta indispensável à compreensão e a sistematização da atividade turística nas comunidades receptoras e emissoras. Neste sentido, trabalhos em pesquisa que contemplem esta linha e temática são de relevância para a atividade turística, onde visa elaborar metodologias de ação para a mesma. Na especificidade da temática, estudar as culturas locais e suas formas de apropriação, responsáveis, por parte do turismo figura como imprescindível para a verificação das possibilidades e limitações do turismo na área em questão, ainda que em termos teóricos (SOARES; CARDOZO, 2008).
O propósito deste estudo desenvolve-se para analisar a paisagem urbana do entorno da Alameda Brüstlein no Município de Joinville - SC, e a sua potencialidade para integrar-se ao desenvolvimento do turismo local.  
Para tanto, inicia-se pela abordagem teórica, vislumbrando elucidar eventuais dúvidas e demonstrar o vasto entendimento bibliográfico sobre paisagem urbana e sua influência sobre o turismo, planejamento e gestão na atividade turística, valoração social da região empreendida, território e atrativos turísticos, sustentabilidade da atividade entre outros aspectos correlacionados.
Segue-se permeando pelo método descritivo, em abordagem analítica, descrevendo os elementos da paisagem urbana em seus aspectos visuais, traçando paralelos relacionados a cultura, a história, as características geográficas, entre outros enfoques de valores objetivos.  
Registra-se, aliás, que se utilizou o método dedutivo, uma vez que se partiu de uma investigação não específica, razão pela qual, se estabeleceu uma formulação geral e, consequentemente, apresentou-se as partes desse fenômeno, como forma de fundamentar as considerações gerais, destacando os pontos mais importantes obtidos no decorrer da pesquisa.

1 A PAISAGEM URBANA E O TURISMO

Como uma das atividades econômicas mundial de maior crescimento, o turismo tem na vertente urbana uma forte possibilidade de atração multiplicadora das economias locais. A recriação da imagem urbana, muitas vezes, despertam para fixação de políticas de governos e representam investimentos com a aplicação de grande volume de recursos públicos. Para tal, tanto a iniciativa privada como os governos, nas esferas federal, estadual e municipal, buscam no planejamento e gestão da paisagem um forte elemento do planejamento e gestão turística das localidades.
Quando o objetivo da localidade é o desenvolvimento através do turismo, seu planejamento deve ser apropriado às potencialidades; deve, no sentido normativo, observar, valorizar e conservar os traços culturais locais, presentes tanto nas paisagens quanto no patrimônio construído e nos aspectos imateriais (BESSA; BENEDICTO; ALVARES; TEIXEIRA, 2008).
Os lugares turísticos são escolhidos e admirados por suas paisagens. Neles os panoramas da natureza e a visão do homem e sua cultura inseridos no território são prazeres a ser desfrutados e, na maioria das vezes constituem o motivo condutor do viajante. Admiradas como cenários, as paisagens são testemunhos visuais de elementos estéticos e simbólicos construídos historicamente e que, quando identificados e apropriados pelo viajante, despertam um renovado interesse no lugar visitado (SILVA, 2004).
Com base no entendimento de Oliveira (1999), a paisagem representa um sistema geográfico formado pela influência dos processos naturais e das atividades antrópica, configurado na escala da percepção humana. Partindo desta base conceitual, pode-se afirmar que a paisagem é uma função dos fundamentos da cultura, da história e do espaço geográfico, natural e construído, no domínio das dinâmicas sociais que criam e transformam as formas.
Para Roberto Boullón (1990) a paisagem urbana representa o conjunto de elementos naturais e artificiais que constituem uma cidade; o que implica na caracterização da paisagem urbana por meio da superposição das áreas edificadas, espaços públicos abertos, paisagismos e monumentos no sítio geográfico local, registrando a atividade do ser humano no ambiente natural.
Fica implícita, no contexto, a interpretação e percepção individual que a paisagem urbana pode causar ao homem e, consequentemente tornar-se um atrativo turístico vinculado à cultura e história local. No contexto de suas pesquisas, Castrogiovanni (2002) entende que a paisagem é uma realidade cultural, pois não é somente trabalho humano, mas também objeto de observações, inclusive consumo. Se a cultura desempenha um papel de filtro variável de um para outro indivíduo e de um para outro grupo social, fica caracterizado que a paisagem urbana se constitui em instrumento para ser vivido e vivenciado, por turistas e por residentes.
Não se afirma, aqui, que a paisagem seja exclusiva forma de atração turística, mas que possui muito valor no contexto de outros fatores, uma vez que a visão turística depende da visão de cada observador. A paisagem está diretamente ligada a ideia de espaço, é constantemente refeita de acordo com os padrões locais de produção, da sociedade, da cultura, com fatores geográficos e tem importante papel no direcionamento turístico (YÁZIGI, 2002).
          Para que a paisagem turística consiga dar conta das motivações dos visitantes que as contemplam ou as utilizam, necessário é que se realize estudos para o pleno conhecimento dos elementos que as compõem (CASTROGIOVANNI, 2001).
Tais estudos são fundamentais para que se possa realizar o planejamento e gestão da paisagem urbana, pois diante da força da paisagem na escolha do destino turístico, muitas localidades criam, restauram, reorganizam, revitalizam ou requalificam as paisagens urbanas, transformando-as em destacado atrativo à atividade turística. Implementar requer responsabilidade, pois significa pôr em prática um projeto, programa ou plano, por meio da organização e planejamento das ações concretas a serem executadas.
A discussão sobre o planejamento e gestão do turismo tende a caminhar na busca de uma visão integrada e mais completa que recebe maior ênfase na teoria sistêmica, que vê o sistema tanto na sua totalidade quanto nas suas relações, e a busca pela sustentabilidade está relacionada a todos os seus elementos: naturais, humanos, sociais, econômicos, políticos-ideológicos, filosóficos, tangíveis e intangíveis, fixos e fluxos, forma e função (Anjos et al, 2005).
Os aspectos e princípios da teoria sistêmica e do desenvolvimento sustentável devem estar presentes no planejamento da paisagem, com base na conservação do ambiente, natural e construído, nos valores culturais e na melhoria da qualidade de vida das comunidades.
Tanto o processo de planejamento como a gestão da paisagem urbana depende diretamente do interesse do poder público, da vontade política, e de trazer a comunidade residente para o processo de desenvolvimento da atividade turística, distribuindo de forma mais equilibrada os resultados positivos.
Por política pública de turismo pode-se compreender o direcionamento dado pelo governo federal, estadual, municipal ou regional para o desenvolvimento da atividade turística, após ter consultado os representantes do setor turístico e da sociedade (LOHMANN; PANOSSO NETO, 2008).
A política de turismo deve ser estruturada levando-se em consideração que deve nortear-se por três grandes condicionamentos: o cultural, o social e o econômico (BENNI, 2002). Fica latente, portanto, que a essas condicionantes deve ser agregado o ambiente e, por sua extensão a paisagem urbana.

2 METODOLOGIA DA PESQUISA

Trata-se de uma pesquisa qualitativa, de caráter exploratório que busca na análise descritiva a principal abordagem para compreensão e avaliação da Alameda Brüstlein, a Rua das Palmeiras, como parte integrante e influente na paisagem turística do município de Joinville.
 É uma pesquisa empírica, que se caracteriza como um estudo de caso, onde foram descritos os elementos da paisagem edificada, relacionando-a com os aspectos históricos e culturais de sua formação, as características geográficas da região e o ambiente natural em que a cidade está inserida.
Os dados secundários foram obtidos por pesquisa e análise de documentos disponibilizados pelas instituições responsáveis pela gestão da atividade turística e pelo planejamento urbano do município, com destaque para a Companhia Municipal de Promoção Turística - PROMOTUR e para o Instituto de Planejamento e Pesquisa Urbana Sustentável de Joinville - IPPUJ, além de revistas e relatórios institucionais.
Com a documentação pesquisada foi possível caracterizar o sistema turístico de Joinville, fazendo um breve relato de sua história social, cultural e econômica, bem como a origem e importância da tradicional Alameda Brüstlein - Rua das Palmeiras, no centro da cidade.
Reconhecendo a preponderância da paisagem na atratividade turística, a avaliação procurou identificar as potencialidades da paisagem edificada enquanto recurso para o desenvolvimento do turismo.
Para direcionar a pesquisa buscou-se a proposta de observação direta da paisagem com base nas categorias de Roberto Boullón (2002), diagnosticando: topografia, forma urbana, configuração das ruas com seus tipos de pavimentação, o tratamento paisagístico, padrão construtivo das edificações e seus estilos arquitetônicos, entre outros. No que se refere ao significado dessas áreas gravitacionais, abrangendo logradouros e marcos considerados atrativos turísticos do entorno, tomou-se como referencial teórico a proposta de Lynch (1997).
Ao trabalhar os fundamentos acima se identificou quais os elementos que configuram a paisagem do local, resultando no desenvolvimento de um sistema de informações que pode inferir na atratividade ou mesmo na potencialidade enquanto recurso turístico do município de Joinville, como ferramenta de análise dos vínculos gerados entre o objeto e a ação.
A melhor forma de determinarmos um espaço turístico é recorrermos ao método empírico, por meio do qual podemos observar a distribuição territorial dos atrativos turísticos e do empreendimento, a fim de detectarmos os agrupamentos e as concentrações que saltam a vista (BOULLÓN, 2002).
Considerando que a paisagem é captada pelo turista de forma seriada, armazenada em sua memória e avaliada conforme seus valores, a análise deve atentar para as motivações dos visitantes, buscando agregar valor à sua atratividade, sem a descaracterização de sua originalidade, assim como seu significado para a comunidade local (OLIVEIRA; FERNANDES; STACH, 2007).

3 O SISTEMA TURÍSTICO LOCAL

A fundação do município foi registrada no ano de 1851, com a chegada dos primeiros imigrantes alemães, suíços e noruegueses; mas os sítios arqueológicos encontrados demonstram que até o século XVII o município esteve habitado por tribos índigenas.  No ano de 1852, esta colônia, chamada em um princípio Colônia Dona Francisca, mudou de nome para Joinville em homenagem ao filho do rei francês Louis Phillipe, Fraçois Ferdinand Phillipe.
A partir da sua criação e graças à beleza natural onde se localiza Joinville foi especialmente adornada por seus colonizadores, os quais trouxeram o amor pelo meio ambiente e pela jardinagem. Suas ruas, praças e edifícios estão ricamente decorados com cuidadosos jardins, repletos de plantas e de flores coloridas (GÖRRESEN, 2006).
No início a população de Joinville pertenceu ao município de São Francisco do Sul, mas em 1866 conseguiu se emancipar politicamente e fundou-se o atual município de Joinville. Na década de 1930 começaram a surgir as indústrias e anos mais tarde, no ano de 1940, se converteu no centro industrial mais importante de todo o Estado de Santa Catarina.
No final do século XX surgiram os primeiros movimentos turísticos, sustentados na ecologia, na cultura e nos negócios. Toda a área em que se localiza o município de Joinville é conhecida por seu maravilhoso entorno natural, cheio de amplas zonas verdes, áreas de proteção ambiental, mar, rios e lagos, e seu rico patrimônio arquitetônico e cultural, com templos, teatros, museus, bibliotecas e universidades (GÖRRESEN, 2006).
Com a finalidade de planejar, estabelecer e coordenar as ações voltadas a formulação da política municipal de turismo, foi criado o Conselho Municipal de Turismo, sob a coordenação da Secretaria Municipal de Turismo, com representantes das principais entidades e segmentos, através da Lei nº 3.169, de 21 de julho de 1995.
Na busca de reorganizar o setor, no ambito da administração pública municipal, foi extinta a Secretaria Municipal de Turismo e criada a Companhia Municipal de Promoção Turística de Joinville e Região - PROMOTUR, por intermédio da Lei nº 3.561 de 29 de setembro de 1997, inclusive adequando as entidades representativas na formação do Conselho Municipal de Turismo. No mesmo ano foi formalizado o Convention & Visitors Bureau com forte participação empresarial.
No setor de turismo, com dados da PROMOTUR de 2009, o município recebeu 295.638 turistas com índice de permanência em hotéis de 2,14 dias. O mesmo relatório indica que enquanto o turismo de eventos vem apresentando gradativa redução percentual, o turismo rural permanece estável inclusive provocando um pequeno aumento da população rural.

4 CARACTERIZAÇÃO DO MUNICÍPIO DE JOINVILLE

Localizada na região nordeste de Santa Catarina, no cruzamento das coordenadas 26º 18’ 05” de latitude sul e 48º50’ 30” de latitude oeste, ocupa uma de área total de 1.134,03 quilômetros quadrados.
O relevo do município se desenvolve sobre terrenos cristalinos da Serra do Mar e uma área de sedimentação costeira. A parte oeste estende-se até os contrafortes da Serra do Mar, marginados em sentido leste por planícies de sedimentação costeira. Destaque para as serras do Quiriri, Rio Bonito, Rio do Julio, do Salto, Volta grande e Queimada, atingindo neste ultimo ponto 1.325 metros de altitude. As regiões de planície são caracterizadas pelos processos sedimentares Aluvionais nas mais interioranas e marinhas na linha costeira, onde ocorrem os mangues, justamente onde se desenvolve a ocupação humana (área agricultável e urbana), com altitude variando de 0 a 20 metros. Nos morros isolados destaque para o morro da Boa Vista na área urbana, com altura de 220 metros (FRANÇA JUNIOR, 2003).
O clima da região é do tipo úmido a superúmido, com temperatura média anual de 22,66º e índice de precipitação anual média de 136,22 milímetros. A umidade relativa do ar é alta, variando em 78,35%. Os ventos ocorrem com maior frequência das direções leste e nordeste, e em menor frequência das direções sudoeste, sudeste e sul (IPPUJ, 2010).
A vegetação pode ser classificada, de forma geral, como Floresta Ombrófila Densa, de domínio da Floresta Atlântica e, portanto caracteriza-se pela biodiversidade das espécies, formando uma vegetação densa e exuberante (altura superior a 30 metros). No seu interior formam-se outras espécies, adaptadas a iluminação difusa, como o palmiteiro, as bromélias e orquídeas (FUNDEMA, 2009).
De acordo com o Atlas Ambiental da Região de Joinville (2000), a hidrografia de Joinville apresenta seu sistema organizado predominantemente na vertente Atlântica da Serra do Mar, cujos rios se caracterizam por pequena extensão e grande vazão.   
Situada em ponto estratégico de acesso ao MERCOSUL, os principais acessos rodoviários de Joinville são caracterizados a partir da BR 101. A malha viária municipal conta com 1.705,20 quilômetros, onde 208,80 quilômetros são estradas vicinais e 1.496,40 quilômetros vias urbanas. A partir da área central o sistema viário apresenta-se na forma radial de penetração aos bairros.  A cidade é servida, também por ligações diretas com os municípios de Guaramirim, São Bento do Sul, Araquari e São Francisco do Sul, através de rodovias estaduais.
O ramal ferroviário ligando Joinville ao porto de São Francisco do Sul é caracterizado pelo transporte de cargas; mas, da sua inauguração em 1906 até o ano de 1991 atendeu com muita propriedade o transporte de passageiros.
Denominado Lauro Carneiro de Loyola, o aeroporto de Joinville está localizado a 13 quilômetros do centro da cidade, contando com área construída de 4.000 metros quadrados, e pista medindo 1.640 metros de comprimento, é destinado à aviação doméstica, com capacidade para atender 500.000 passageiros por ano.
O rio Cachoeira que antigamente cumpriu importante papel no transporte de cargas, vem sendo preparado para servir como hidrovia para transporte de passageiros entre o centro de Joinville e o centro de São Francisco do Sul. No setor turístico, o canal entre o bairro espinheiros e a Baia da Babitonga, proporciona agradável passeio marítimo, além de fazer a conexão portuária com os portos de Itapoá e São Francisco do Sul.
O regime urbanístico de uso, ocupação e parcelamento do solo é caracterizado pelo sistema de zoneamento, abrangendo os 35 bairros da cidade e os 4 distritos, onde a descontinuidade do tecido urbano é bem característico. A rede viária proporciona boa integração entre os bairros e os distritos, apresentando-se como principal fator de suas delimitações, permitindo inclusive a centralização de cada bairro e distrito (IPPUJ, 2010).
O conjunto de edificações e espaços livres permite observar as características formais do território. As áreas próximas ao mar e a serra são as áreas menos densas e sem verticalização, onde os espaços livres são extensos apresentando forte vazio urbano. Na área central, encontramos a maior densidade com forte tendência à verticalização, onde os espaços livres já se limitam pelas áreas públicas de lazer.
A história cultural e artística de Joinville data já dos primeiros imigrantes e, pode ser observada na memória edificada com destaque para: Alameda Brüstlein, Cemitério dos Imigrantes, Pórtico e Moinho no acesso pela rua XV de novembro, Estação Ferroviária, Casas de Enxaimel, Mercado Público, Mirante, Gruta da Imaculada Conceição, Arquivo Histórico, Galeria Municipal de Artes Victor Kursancew, Centreventos “Cau Hansen”, Estrada Bonita, Recanto Jativoca, Parque Zoobotânico, Museu da Bicicleta, Museu da Fundição, Museu “Casa Fritz Alt”, Museu Arqueológico de Sambaqui, Parque Ecológico Morro do Finder, Museu Nacional de Imigração e Colonização, Orquidário Boa Vista, Museu Nacional do Bombeiro, Sede da Sociedade Lírica, Museu da Indústria, Complexo Cultural Antarctica, Museu de Arte Ottokar Doerffel, Igreja da Paz, Catedral Diocesana, Sede da Sociedade Harmonia Lyra, Teatro Juarez Machado, Escola do Teatro Bolshoi no Brasil e diversas praças (CUNHA; BASTIAN, 2009).
A cidade de Joinville é conhecida como Cidade dos Príncipes. Mas não foram de berço nobre, nem tiveram uma vida de faustos e riquezas os imigrantes que para cá vieram na metade do século 19, criando suas raízes e dando início à que hoje é considerada a maior cidade de Santa Catarina (GÖRRESEN, 2006).
Projetada para ser uma colônia agrícola, rapidamente veio a se transformar em um centro social, econômico, político e administrativo. Dentre os primeiros imigrantes já se encontravam alguns capitalistas, empregadores, artesãos, oficiais e acadêmicos, homens cultos e inteligentes, senhoras e senhores que provocaram profunda repercussão na colônia. O fator humano foi preponderante nessa mudança; a presença de pessoas de origem não agrícola, o assentamento em minifúndios, a mão de obra qualificada e um mercado consumidor para produtos manufaturados favoreceram o desenvolvimento industrial (GEHLEN, 2011).   
O censo 2010 realizado pelo IBGE registrou a população de Joinville com 515.250 habitantes, representando uma taxa de crescimento anual de 1,6%, mantendo o status de cidade mais populosa de Santa Catarina, aonde a população urbana chegou a 96,59%, superando a média de urbanização no estado que é de 78,7%. Apresenta índice de desenvolvimento humano (IDH) de 0,857.   

5 A ALAMEDA BRÜSTLEIN - RUA DAS PALMEIRAS
 
Idealizada pelo engenheiro Francês Fréderic Brüstlein, que a época era o representante e procurador do príncipe François Ferdinand d’Orléans (também chamado de príncipe de Joinville), a Alameda Brüstlein, mais conhecida como Rua das Palmeiras, foi concebida para ornamentar o jardim de entrada do, então, Palácio dos Príncipes. As mudas da palmeira imperial, conhecida como “palma mater”, vieram do Rio de Janeiro no ano de 1867, cujas sementes tinham sido plantadas por Dom João VI no Jardim Botânico. Cultivadas com muito cuidado, foram transplantadas para a Alameda em 1873, quando tinham aproximadamente um metro de altura (IPPUJ, 2010).

Também no ano de 1867 o engenheiro Brüstlein projetou e iniciou a construção do Palácio dos Príncipes, cuja conclusão se deu em 1870, quando passou a abrigar a administração da colônia Dona Francisca. Foi a primeira edificação não litorânea tombada em Santa Catarina, em 1939, pelo Patrimônio Histórico Nacional - SPHAN. Tornou-se Museu Nacional de Imigração e Colonização por intermédio da Lei Federal nº 3.188, de 02 de julho de 1957, abrigando e expondo vários objetos que relembram a época da colonização (PROMOTUR, 2009).

O local rapidamente se fez atração entre os moradores e, como um ícone de Joinville, a Rua das Palmeiras se transformou na imagem mais conhecida, não só na cidade como também em todo o País, e inclusive no exterior.
Em 1973, a Alameda Brüstlein, que anteriormente recebia tráfego normal de veículos, foi transformada em boulevard com projeto do artista Juarez Machado, e provocou uma ampliação de seu uso, principalmente para passeios, visitas, feiras e admiração. No ano de 2000 recebeu 36 novas plantas, cultivadas com sementes tiradas das palmeiras originais; algumas passaram a substituir as que estavam sofridas pela ação do tempo e, as outras foram intercaladas entre as que já existiam, criando um novo visual. A exuberância das palmeiras imperiais impressiona e, desde 1982, as árvores pertencem ao Patrimônio Histórico Nacional (IPPUJ, 2010).
A Alameda Brüstlein é um dos cartões postais de Joinville, está situada no centro da cidade setor predominantemente comercial, em frente ao Palácio dos Príncipes, em área de topografia plana, entre a Rua do Príncipe e a Rua Rio Branco, ambas com pavimentação asfáltica, tráfego veicular em sentido único, formando um sistema binário. A Rua do Príncipe possui pista de rolamento em duas faixas de 3,00 metros, com áreas de estacionamento de 2,00 metros nos dois lados da rua, totalizando uma calha de 10,00 metros de largura. A Rua Rio Branco tem pista de rolamento com duas faixas de 3,50 metros, com áreas para estacionamento de 2,00 metros nos dois lados da rua, formando uma calha total de 11,00 metros de largura. Ambas as ruas são servidas de passeio para pedestres, nos dois lados de cada uma, com largura de 1,80 metros onde o meio fio faz desnível, que varia entre 3 e 12 centímetros, em relação a pista de rolamento veicular; não há padronização no revestimento dos passeios e a conservação é muito ruim, inclusive as raízes das árvores que afloram não recebem podas e acabam por danifica-lo criando sobressaltos, situação que nos momentos de observação percebeu-se a dificuldade enfrentada pelos transeuntes, especialmente para as pessoas mais idosas.
Já a Alameda possui acesso veicular exclusivo aos imóveis lindeiros, com duas pistas de rolamento de 4,00 metros de largura, pavimentadas em paralelepípedos e, separadas por um jardim central de 13,00 metros onde estão plantadas as palmeiras imperiais, nas duas bordas em toda sua extensão, totalizando 21,00 metros de largura. Pedestres e ciclistas dividem espaço nos corredores de veículos. Imagina-se que os jardins centrais tenham sido concebidos para que os visitantes passeiem e convivam sobre ele, mas a cobertura vegetal bem desgastada e a drenagem deficiente só permite fazê-lo em dias de clima seco e, ainda assim, limitado para pessoas que não tenham dificuldade de acessibilidade, visto que o desnível entre os dois setores do jardim central é considerável, variando entre 8 e 20 centímetros, sem qualquer dispositivo específico do tipo rampa.
O jardim central não possui mobiliário urbano que permita aos seus visitantes um maior conforto para descanso e contemplação, sequer encontrou-se uma lixeira. Não há iluminação dedicada a visitas no horário noturno. As ruas que contornam o jardim central estão com seu sistema de drenagem pluvial completamente obstruído, deixando-as suscetíveis a alagamentos tanto nos dias de chuva quanto nos dias de maré alta do Rio Cachoeira. A paisagem também composta por flores e pelo obelisco da princesa Dona Francisca, é carente de limpeza e melhor manuseio de jardinagem.
Ao verificar o projeto concebido pelo artista Juarez Machado (1973) e compará-lo com a condição atual, evidenciou-se que muitos dos dispositivos previstos para a convivência no local ou não foram implantados ou ao longo dos anos não sofreram a necessária manutenção e substituição.

As edificações da área em que a Alameda está inserida, em grande parte, mantêm as características originais trazidas pelos colonizadores da cidade, caracterizando a época em que foram construídas. Toda região central integra boa arborização, com praças floridas e calçadas espaçosas, cuja deficiência está na falta de acessibilidade, no deficiente serviço de conservação e na ausência de manutenção.
Rodeada por galerias de lojas, construções embargadas, prédios com má conservação e edificações depredadas se encontra o símbolo do que um dia foi o poderio e glamour da época imperial e o orgulho de convivência nas décadas de 1970 a 1990. Observa-se, claramente, que as construções foram comprimindo a Alameda Brüstlein, onde o barulho do trânsito, a existência de pedintes e drogados, a aglomeração de pessoas nas calçadas e a presença de excessiva quantidade de vendedores ambulantes fazem com que hábitos corriqueiros desviem a atenção das pessoas do local.
Considerando que cada vez mais as áreas centrais das cidades deixam de ser locais de moradia, com o avanço dos estabelecimentos de comércio e serviço, cresce sensivelmente o risco de degradação pela falta de vigilância dos residentes, o que é perceptível no presente estudo de caso, pois pela condição verificada a fiscalização de posturas e de obras, bem como a segurança pública, é deficitária ou ineficiente.

Como importante símbolo paisagístico de Joinville, a Alameda Brüstlein, a tradicional Rua das Palmeiras, é um destacado espaço de memória e visitação do município, principalmente pela sua beleza cênica. Tal fato foi comprovado durante os levantamentos e avaliações realizadas, bem como nas bibliografias consultadas, pois se percebeu uma boa movimentação de pessoas contemplando e fotografando o local e, ainda, entrando no Museu Nacional de Imigração e Colonização, como também nos registros históricos do município.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A análise atestou o significado desta paisagem para os residentes e o seu potencial de atratividade para os visitantes, não só por sua singularidade, mas também por sua identidade com a história e cultura da cidade de Joinville. 
A paisagem urbana, com destaque para a área estudada, possui símbolos que permitem descobrir a cidade, sua história, sua cultura e seus costumes, e que são de fácil interpretação pelos turistas.
A Alameda Brüstlein passa hoje por uma fase que inspira cuidados. O local não oferece dispositivos que façam com que as pessoas não apenas circulem pela Alameda, mas também permaneçam realizando alguma atividade, convivendo e interagindo com as tradições do município. É necessário instalar sinalização, iluminação, passarelas, rampas, bancos e lixeiras, trazendo no mobiliário a influência cultural presente na cidade; transformando, dessa maneira a rua em uma área cosmopolita, embelezando o espaço, deixando-o mais agradável e seguro para a convivência, onde os moradores se identifiquem e os turistas se impressionem.
A ideia é a de requalificar, além da Alameda, todo o entorno, partindo do cenário provocado pela Rua das Palmeiras, reorganizando as atividades de serviço e comércio, revitalizando os espaços públicos, adequando as áreas de circulação de pedestres com base na acessibilidade, inserindo serviços de manutenção e conservação continuada, e atraindo investimentos para as áreas contíguas.
No que tange a requalificação do entorno a tarefa é mais complicada ainda, pelo fato de os imóveis pertencerem a particulares e a capacidade de interferência do poder público, nesses casos, é limitada. Mas é preciso tentar, encontrando programas de incentivo e adequação de zoneamento que permita a recuperação e reocupação do espaço, fazendo com que a paisagem não perca a oportunidade de se transformar, de forma mais agradável e versátil, em um forte atrativo turístico.
Há por parte do poder público um envolvimento para manter os eventos turísticos existentes, especialmente os ligados aos setores cultural, artístico e de negócios, mas pouco ou quase nada é realizado para integração da paisagem edificada aos roteiros dos visitantes.
Joinville conhecida como a Cidade das Flores, dos Príncipes, das Bicicletas, Manchester Catarinense e polo Industrial Nacional, detém um patrimônio histórico, cultural, artístico, possuindo belezas naturais e edificadas, compondo uma paisagem turística bastante favorável ao seu desenvolvimento, o que foi observado e caracterizado nos estudos realizados através da Rua das Palmeiras, que inevitavelmente se expande para toda área central.
Portanto, a pesquisa destaca que a imponência da antiga e histórica Alameda Brüstlein permanece e, de forma democrática, provoca forte influência na paisagem urbana, que, por conseguinte, pode agregar maior valor ao produto turístico da cidade, desde que haja vontade política de integrá-la como tal.

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