TURyDES
Vol 6, Nº 14 (junio/junho 2013)

UMA VIAGEM ÀS QUESTÕES METODOLÓGICAS DO TURISMO

Bruno Martins Augusto Gomes (CV) y Miguel Bahl(CV)

 

INTRODUÇÃO
Uma agência de turismo, apesar do ceticismo dos seus proprietários em relação aos conhecimentos acadêmicos sobre turismo, mas vislumbrando um “segmento” de mercado ainda pouco “explorado”, decidiu organizar um cruzeiro temático voltado para os estudiosos do turismo. O público principal era formado por turismólogos professores, a maioria doutorandos e doutores há menos de uma década, além dos mestres. Foram convidados estudantes de turismo, os quais teriam a oportunidade de conciliar o aprendizado teórico, a prática do turismo e aquilo que “carregam em seu sangue” a “paixão por viajar”.
Ao comercializar o cruzeiro, um funcionário da agência lembrou de outro público muito interessado nos eventos de turismo, os geógrafos. Também foi encaminhado “e-mail marketing” para eles e para os administradores, arquitetos e sociólogos. Filósofos, economistas, museólogos e engenheiros ficaram sabendo desse magnífico cruzeiro por meio da propaganda “boca-a-boca” feita pelos turismólogos, presentes nos mais diversos cursos de pós-graduação stricto-sensu. Alguns interessados no tema bem como palestrantes, por estarem em locais muito distantes, optaram por participar por meio de vídeo conferência.
 A programação envolvia além dos necessários momentos de lazer, visitas técnicas às dependências do navio e aos destinos turísticos por onde este passava para analisar a prática do turismo sob a ótica teórica. Também constava na programação pausas para a reflexão sobre epistemologia do turismo e uma prática esportiva diária, com o intuito de aliviar o stress em função dos vaidosos atritos acadêmicos. Essa atividade tinha o nome de “Epistemologia do Turismo: um bate-bola das estrelas - turismólogos X administradores, economistas, filósofos, geógrafos, sociólogos e outros”. As regras para essa prática foram inspiradas no jogo “Futebol dos Filósofos”, disponível em <http://www.youtube.com/watch?v=eUbSVGCYagM>. Finalmente, para dar as boas-vindas aos viajantes e não “banalizar os costumes” do público presente nessa “experiência turística” foi organizado um debate com estrelas da academia sobre o tema “Questões Metodológicas no Turismo”.
Dessa forma, essa introdução buscou, propositalmente, ser menos rígida com a formalidade metodológica entendendo que é possível adequar meios aos desejos da conversação, também no meio acadêmico, conforme defende McCloskey (1996). Assim, além de tornar o texto mais “hospitaleiro” ao leitor também são destacados aspectos atuais do turismo enquanto área de estudo. Essa descontraída abordagem inicial também intenciona encorajar o leitor a visitar o texto, apesar da temática, quando colocada de maneira formal, gerar uma sensação semelhante à de uma viagem em um “trem fantasma”. Tendo como objetivo comentar sobre as principais abordagens para se pensar a relação entre turismo e ciência, a seguir será apresentado o conteúdo do suposto debate, que mesmo ocorrendo em um “não lugar” físico, procurou ser “autêntico” em relação à cultura dessa “comunidade” científica.
 
AS BASES DAS QUESTÕES METODOLÓGICAS
Demo (1995) introduz a discussão sobre as questões metodológicas abordando o conceito de ciência. Segundo ele é sempre mais fácil dizer o que não seria ciência. De forma simplificada, não são ciência a ideologia e o senso comum. Este é acrítico, imediatista, crédulo e a ideologia é intrinsecamente tendenciosa, pois entende a realidade como gostaria que fosse, dentro de interesses determinados, usando instrumentos científicos.
Se a ciência não é senso comum, nem ideologia, embora com eles conviva intrinsecamente, o que ela é, então?  Para responder essa indagação Demo defende a existência de critérios internos e externos. Os critérios internos são:
Coerência: propriedade lógica, falta de contradição, argumentação bem estruturada. O desdobramento do tema ocorre de modo progressivo, com começo, meio e fim; com dedução lógica de conclusões.
Consistência: significa a capacidade de resistir a argumentações contrárias.
Originalidade: diz respeito à produção inventiva, baseada na pesquisa criativa, e não apenas repetitiva.
Objetivação: é a tentativa nunca completa de descobrir a realidade social assim como é, mais do que como se gostaria que fosse. Ainda que a ideologia seja intrínseca, é fundamental buscar controlá-Ia.
De acordo com o autor, ao analisar a ciência podem ser consideradas ainda as qualidades formal e política. A qualidade formal está relacionada aos ritos acadêmicos usuais: domínio de técnicas de coleta, manuseio e uso de dados; capacidade de manipular bibliografia; realização de etapas consagradas como graduação, mestrado, e doutorado. Embora tudo isso possa resultar no “idiota especializado”, são marcas fundamentais do processo científico. Já o critério externo para Demo significa a opinião dominante da comunidade científica em determinada época e lugar, transparecendo a característica social do conhecimento.
Dando prosseguimento nessa primeira parte sobre o que é a ciência, Chamelrs (1993) se posiciona destacando que para a concepção popular o conhecimento científico é conhecimento provado. As teorias científicas são derivadas de maneira rigorosa da obtenção dos dados da experiência adquiridos por observação e experimento. A ciência é baseada no que se pode ver, ouvir, tocar. Opiniões ou preferências pessoais e suposições especulativas não têm lugar na ciência, pois ela é objetiva. O conhecimento científico é confiável, pois é provado objetivamente.
Essa primeira visão, segundo Chamelrs (1993), tornou-se popular durante e como consequência da Revolução Científica, principalmente durante o século XVII, levada a cabo por grandes cientistas pioneiros como Galileu e Newton. Ele também comenta que o filósofo Francis Bacon sintetizou a atitude científica da época ao colocar que para compreender a natureza, se deve consultar ela própria e não os escritos de Aristóteles.
O autor defende que se analise a ciência considerando as teorias como estruturas – programas de pesquisa. Contrariamente ao mito popular, discorre que Galileu parece ter realizado poucas experiências em mecânica. Muitas das “experiências” a que ele se refere ao articular sua teoria são experiências de pensamento. Mas é bastante compreensível quando se percebe que a experimentação precisa somente poderá ser levada a cabo se tiver uma teoria precisa capaz de produzir previsões sob a forma de afirmações precisas. E ainda, a ciência avançará mais eficientemente se as teorias forem estruturadas deixando claro como elas devem ser desenvolvidas e estendidas. Por fim, comenta que a mecânica de Newton forneceu um programa para os físicos dos séculos XVIII e XIX.
Assim, Chamelrs (1993) destaca a “Metodologia dos Programas de Pesquisa Científica”, de Imre Lakatos, na qual este buscou melhorar o falsificacionissmo popperiano. O programa de pesquisa lakatosiano é uma estrutura que fornece orientação para a pesquisa futura estipulando as suposições básicas subjacentes ao programa, seu núcleo irredutível, que não devem ser rejeitadas ou modificadas. Há também uma pauta geral que indica como pode ser desenvolvido o programa de pesquisa.
Nessa perspectiva, segundo Chalmers, a comparação de programas de pesquisa rivais é mais problemática.  Devem-se julgar os méritos relativos de programas de pesquisa à medida que eles estejam progredindo ou degenerando. Todavia, mais de setenta anos passaram-se antes que a previsão de Copérnico a respeito das fases de Vênus fosse confirmada como correta. Assim, por causa da incerteza do resultado nunca se pode dizer que um programa degenerou. Sempre é possível uma descoberta espetacular, que trará o programa de volta à vida e o colocará numa fase progressiva.
Também numa perspectiva das teorias como estruturas, Chalmers trata dos paradigmas de Kuhn colocando inicialmente que uma característica-chave da teoria deste autor é a ênfase dada ao caráter revolucionário do progresso científico, no qual uma revolução implica o abandono de uma estrutura teórica e sua substituição por outra. E a atividade desorganizada e diversa que precede a formação da ciência torna-se eventualmente estruturada e dirigida quando a comunidade científica atém-se a um único paradigma. Um paradigma é composto de suposições teóricas gerais e de leis e técnicas para a sua aplicação adotadas por uma comunidade científica específica. Os que trabalham dentro de um paradigma, praticam aquilo que Kuhn chama de ciência normal.
Chalmers coloca que segundo Kuhn, os cientistas normais articularão e desenvolverão o paradigma em sua tentativa de explicar e de acomodar o comportamento de alguns aspectos relevantes do mundo real tais como relevados através dos resultados de experiências. Ao fazê-lo experimentarão, inevitavelmente, dificuldades e encontrarão falsificações aparentes. Se dificuldades deste tipo fugirem ao controle, um estado de crise se manifestará. Uma crise é resolvida quando surge um paradigma inteiramente novo que atrai a adesão de um número crescente de cientistas até que eventualmente o paradigma original, problemático, é abandonado. A mudança descontínua constitui uma revolução científica.
Dessa forma, Thomas Kuhn (1992) assume a fala destacando primeiramente o reduzido interesse da pesquisa em produzir grandes novidades. O projeto cujo resultado não coincide com a pequena margem de alternativas é considerado fracassado, de maneira que resultados não coerentes são considerados fatos sem importância, desprovidos de conexão possível com o conhecimento existente.
O autor também questiona por que então os cientistas se dedicam a estes temas. Segundo ele, os mesmo se dedicam, pois resolver o problema é alcançar o antecipado de uma nova maneira e assim aperfeiçoam o alcance do paradigma. E é a solução desse quebra-cabeça outra importante motivação dos cientistas assim como o desejo de ser útil, explorar um novo território, encontrar ordem.
Kuhn coloca também que ao adquirir um paradigma a comunidade científica adquire também um critério para a escolha de problemas, os quais serão considerados como científicos e de solução possível. Os resultados devem ser relacionados sem equívocos com a teoria. Os demais problemas são considerados metafísicos ou de outra disciplina. Dessa forma um paradigma pode afastar alguns problemas importantes, mas que não se enquadram nos conceitos e instrumentos do paradigma.
O autor chama a atenção ainda para uma rede de compromissos conceituais, teóricos, metodológicos e instrumentais entre os cientistas, que é menos dependente de fatores locais e temporais. Dentre esses compromissos é fundamental a necessidade do cientista dedicar-se a compreender o mundo ampliando a precisão e o alcance da ordem. Para isso deve examinar minuciosamente algum aspecto da natureza e se ocorrer a desordem deve refinar suas técnicas de observação e a articulação de teorias.
Kuhn em seguida trata das descobertas, as quais causam mudança de paradigma e depois delas os cientistas conseguem compreender um número maior de fenômenos e explicá-los mais precisamente. E a descoberta apenas é possível, pois algumas crenças e procedimentos aceitos foram descartados e substituídos por outros. Mas as descobertas não são as únicas fontes de mudanças de paradigmas, pois há também a invenção de novas teorias. A emergência de novas teorias é precedida por um período de insegurança profissional decorrente do fracasso na produção de resultados. A partir desse fracasso surge a necessidade de destruição de um paradigma, alterações nos problemas e técnicas das ciências. O fracasso das regras existentes é o prelúdio para as novas regras, seguindo o ciclo fracasso à proliferação de teorias à surgimento de uma nova teoria que efetivamente responde à crise. 
Então Kuhn expõe que as mudanças de paradigma levam os cientistas a verem o mundo de uma maneira diferente, se reeducarem. Após a revolução o que era um pato para os cientistas passa a ser um coelho, pois aquilo que um homem vê depende daquilo que ele olha e do que sua experiência visual prévia o ensinou a ver. Embora o mundo não mude com uma mudança de paradigma, depois dela o cientista trabalha em um mundo diferente. O cientista que abraça um novo paradigma é como um homem que usa lentes inversoras, os dados que eram vistos antes passam ser percebidos com detalhes diferentes.
Segundo Kuhn, após uma revolução científica, muitas manipulações e medições antigas tornam-se irrelevantes e são substituídas por outras. Mas a linguagem e os instrumentos do cientista continuam sendo os mesmos. Por isso a ciência pós-revolucionária inclui manipulações, instrumentos e descrições da ciência pré-revolucionária, de maneira que a antiga manipulação no seu novo papel produzirá resultados diferentes. 
Friedman (1981) assume o discurso tratando do processo de construção de uma teoria, especialmente dos problemas metodológicos. Ao abordar a economia trata da "ciência positiva”, ou seja, aquela independente de qualquer posição ética particular ou de juízos normativos. Ela lida com "o que é", e não com "o que deve ser”, trazendo generalizações úteis para predizer as conseqüências de uma mudança. Assim, uma teoria deve ser julgada pelo seu poder preditivo para a classe de fenômenos que se pretende explicar. Mas as influências perturbadoras são constantes durante o desenvolvimento de qualquer pesquisa, em maior ou menor grau. Como a economia trata de relações entre seres humanos e o pesquisador compõe o assunto investigado, a sua objetividade é menor que a das ciências físicas.
Para Friedman a teoria desenvolvida por uma ciência positiva é uma linguagem gerando métodos sistemáticos e organizados de raciocínio, com hipóteses que abstraem características essenciais de uma realidade complexa. Mas para isso deve responder às seguintes indagações: as categorias estão definidas clara e precisamente? Elas são exaustivas? Sabe-se o lugar de cada conceito particular? O sistema de títulos e subtítulos possibilita encontrar rapidamente o que se busca? Os temas semelhantes estão agrupados? Assim, a lógica formal pode mostrar se uma linguagem é completa e consistente, ou seja, se suas proposições estão certas ou equivocadas.
Segundo Friedman, uma teoria é mais simples quanto menor for o conhecimento inicial necessário para fazer uma previsão. E é mais fértil quanto mais precisa for a predição resultante, quanto maior for o campo de abrangência de suas previsões futuras e quanto maior forem as instruções que trouxer para investigações futuras. Ele também defende que o processo de construção de uma teoria dificilmente parte do nada. A etapa inicial sempre requer a comparação das primeiras hipóteses com a observação. A hipótese ou a teoria buscam afirmar que certas forças são e outras não, importantes para uma classe de fenômenos que pretendem explicar, ao mesmo tempo que especifica a maneira que estas forças atuam.
O autor ressalta finalmente que a capacidade de decidir o que deve ser descartado ou não, a capacidade de identificar os fenômenos observáveis e as partes do modelo, é algo que não pode ensinar-se. Aprende-se pela experiência e pela orientação no meio científico, não por meio da memória. Neste ponto o amador se separa do profissional em todas as ciências e é neste ponto que se distingue o maluco do cientista.
Em seguida, Popper (2006) assume a apresentação, mas trazendo não seus conceitos sobre falsificacionismo, e sim entendimentos sobre a ciência que possibilitem um mundo melhor. Segundo ele as teorias científicas mais bem demonstradas são apenas conjecturas, hipóteses bem sucedidas. A ciência é a busca da verdade e é plenamente possível que muitas teorias sejam verdadeiras. No entanto jamais se pode estar certo disso. A ciência também é uma atividade crítica. Critica-se para encontrar erros, eliminá-los e assim se aproximar da verdade. Uma nova hipótese deve explicar todas as coisas que a hipótese antiga explicou, evitar alguns erros desta e explicar coisas que a velha hipótese não foi capaz de explicar.
Para o autor o caminho para descobrir e eliminar os erros é pelo racionalismo crítico, ou seja, a crítica às teorias e conjecturas dos outros e pela crítica às próprias teorias e tentativas de soluções especulativas. Popper também não recomenda a preocupação com as fontes originárias das conjecturas de cada um. Há muitas fontes possíveis e não se tem clareza de todas elas. Caso alguém se interesse pelo problema solucionado por outro investigador, deve tentar critica-lo objetivamente.

Popper expõe que toda solução de um problema cria problemas novos, não solucionados. Esses problemas são mais interessantes quanto mais difícil foi o problema original e mais ousada a tentativa de solução. Com cada problema solucionado são descobertos novos problemas e a crença de estar sobre solo firme e seguro, cede ao entendimento de que tudo é inseguro e instável. Assim, as ciências sociais como as outras ciências são bem sucedidas ou fracassadas na exata proporção do significado ou interesse dos problemas que tratam e da honestidade, retidão e simplicidade com que esses problemas são atacados. O ponto de partida é sempre o problema, ressaltando que as observações só conduzem a problemas quando elas contradizem as expectativas do pesquisador. Nesse sentido o método consiste em experimentar tentativas de solução para os problemas, devendo essas soluções ser criticadas. Se uma solução não é aberta à crítica ela é excluída como não-científica. Se estiver aberta, tenta-se refutá-la, caso isto ocorra propõe-se uma nova solução.

Dessa forma, como defende Popper, nas ciências sociais a objetividade científica é difícil de ser atingida, pois objetividade significa ser livre de juízo de valor, o que é raro para o cientista social. E ainda, um cientista objetivo, livre de valores não é o cientista ideal, pois sem paixão nada é possível, muito menos a ciência pura. Por fim, a verdade não é único valor. Relevância, interesse, fecundidade, simplicidade, precisão também são valores científicos importantes.

Para aquecer o debate Morin (2000) assume o discurso fazendo uma primeira consideração de que na construção do conhecimento é comum a exclusão do elemento humano, das paixões, das dores, das alegrias, e a adoção da racionalização só conhece o cálculo. Ignora-se, portanto o indivíduo, seu corpo, seus sentimentos. Por isso é importante nessa construção do conhecimento se pautar na complexidade, especialmente humana.  
De acordo com o autor deve-se também eliminar a busca pela certeza, pela previsão. Existem determinantes, mas o futuro é sempre aberto. Essa visão é fundamental, porque quando se inicia a construção do conhecimento não se sabe a qual resultado chegará. Será utilizado um método, investigar um objeto, mas não necessariamente se chegará ao resultado adequado. É importante não querer adequar o resultado às intenções. É fundamental entender a importância do desvio, pois o que parece algo errado é na verdade um caminho para a evolução.
Morin (2007) argumenta que para enfrentar essa incerteza é importante também adotar não um programa de ações, mas um cenário de ação, um cenário que se adapta aos acasos, contratempos e oportunidades. Assim, apenas ocorrerá desenvolvimento se existir uma autonomia individual. Não é salutar querer que o indivíduo siga sempre o mesmo caminho ou que as análises sigam sempre os mesmos resultados, porque dessa forma não se alcança o desenvolvimento. Este requer participação e autonomia que por sua vez exigem o convívio, o entendimento das pluralidades, o antagonismo, o entendimento do diferente, o permanecer em comunidade.
Outro desafio para a construção do conhecimento, de acordo com o autor, é a compreensão. Apesar da comunicação aproximar o planeta, comunicação não necessariamente implica em compreensão. Aspectos como indiferença, egocentrismo, possessões por ideias e arrogância limitam a compreensão porque o indivíduo acredita na maior qualidade das suas ideias e não se abre às descobertas dos outros pesquisadores.

QUESTÕES METODOLÓGICAS NO TURISMO
Trazendo a discussão das questões metodológicas e epistemológicas para o turismo, primeiramente têm-se as ponderações de Panosso Netto (2005). Para este a aplicação da epistemologia nos estudos turísticos é importante uma vez que auxilia na explicação do fenômeno turístico e ao mesmo tempo fornece bases científicas seguras para os pesquisadores do turismo. Ao citar John Tribe ele acrescenta a estes argumentos dois motivos básicos: primeiro, ajuda na validação do conhecimento produzido nessa área; segundo, auxilia a delimitar o campo do turismo, ou seja, onde ele começa e onde termina.
Em relação à produção do conhecimento, Panosso Netto distingue os autores que tratam do turismo em três grupos: Há um grupo otimista que acredita que pela produção científica existente o turismo já pode ser considerado ciência. Outro grupo, também otimista, porém cauteloso, acredita que o turismo está a caminho de se tornar ciência, mas para isso a pesquisa na área deve ser intensificada (o objeto e o método têm de ser claramente definidos). E há o grupo que percebe o turismo como atividade humana estudada pelas mais diversas disciplinas científicas e que não é e nunca será ciência.
Todavia, ele ressalta que muitos autores que hoje estudam e trabalham com o turismo não tiveram sua formação primeira em cursos de graduação em turismo, mas em outras áreas. Esse fato é um dos limitadores das abordagens do turismo, pois os estudiosos tendem a reduzir a explicação do turismo a uma dessas áreas. Cada um partirá dos pressupostos e paradigmas de sua ciência de formação. Assim os estudiosos não se entenderão e produzirão abordagens diferentes para problemas iguais.
Trazendo a discussão dos paradigmas para o turismo, Panosso Netto coloca que a visão sistêmica é um paradigma no turismo. Mas ainda não é uma teoria que congregue seus pesquisadores em uma mesma metodologia de estudos. Prova dessa afirmação são as novas abordagens que inúmeros autores propõem ao turismo recentemente.
Panosso Netto identifica três grupos básicos de autores que procuram explicar teoricamente o turismo, ressaltando que a linha divisória entre uma propositura e outra é tênue. O primeiro grupo de autores (Fuster, Hunziker, Krapf, Burkart, Medlik) é identificado como pré-paradigmático, visto que foram os primeiros a sugerir uma análise teórica do turismo, apesar de não terem conseguido criar uma escola de pensamento. Entre essa fase e a fase paradigmática há transição entre teorias, na qual Wahab e Cuervo introduziram a proposta de análise do turismo a partir da teoria dos sistemas. Então se tem a fase paradigmática na qual o paradigma Sistema do Turismo se difunde, tendo como principais autores, Leiper, Beni e Sessa. Entre essa fase e a terceira há também uma fase de transição na qual autores como Martinez, Krippendorf e Molina, apesar de se basearem na Teoria Geral dos Sistemas, já apresentam propostas mais avançadas. Finalmente, segundo Panosso Netto, a terceira fase teórica, denominada Novas Abordagens, diferencia-se das demais, pois autores como Jafari e Tribe apresentam abordagens diversificadas e inovadoras do turismo, reformulando a aplicação da Teoria Geral dos Sistemas ao turismo e colocando o homem no centro da discussão do turismo entre esta fase e a terceira.
Diante do exposto, cabe ressaltar as definições do turismo sob a ótica do conhecimento, apresentadas por Panosso Netto ao citar Jafari, Krippendorf e Tribe. De acordo com ele para Jafari o turismo é o estudo do homem longe de seu habitat usual, da indústria que responde a suas necessidades, e dos impactos que ambos, têm no meio ambiente sociocultural, econômico e físico da localidade receptora. O autor também apresenta o entendimento de Krippendorf, sociólogo preocupado com o comportamento humano, para o qual o turismo é um sistema envolto por questões cotidianas (trabalho, moradia e lazer) e composto pelos subsistemas sociocultural (sociedade e seus valores), econômico (economia e sua estrutura), ecológico (ambiente e recursos), político (Estado e sua política). Menciona que Tribe, por sua vez, propõe que o turismo seja estudado como dois campos de estudo: aspectos comerciais do turismo - leis, gestão e marketing turístico; e aspectos não comerciais do turismo - percepções turísticas, capacidade de carga, impactos sociais e ambientais. Ele propõe um modelo para compreender a produção do conhecimento em turismo no qual as disciplinas para serem aplicadas aos estudos dos aspectos comerciais e não comerciais do turismo passam por um refinamento, produzindo o conhecimento do turismo.
Em seguida João dos Santos Filho (2005) assume o debate sobre as questões metodológicas no turismo destacando que o Brasil, nesses últimos anos, conseguiu desenvolver um arcabouço teórico e filosófico que o coloca como um dos maiores produtores de literatura científica sobre o turismo da América Latina, no mesmo patamar do México. Todavia, a produção literária existente sobre o fenômeno turístico explicita que aqueles que se debruçaram em analisá-lo de forma científica, o fizeram no campo da vertente idealista, optando por definir o turismo como algo decorrente do sistema econômico capitalista, enxergando o fenômeno como produto do mundo moderno e desprezando sua historicidade processual. As bases teóricas que sustentam esta visão atendem aos pressupostos do neopositivismo por considerar a realidade compreensível por meio de estruturas explicativas estanques e não históricas
Segundo o autor a corrente que trabalha a sustentabilidade no turismo entende a sociedade como possível de ser compreendida segundo as noções de equilíbrio, harmonia, funcionalidade dadas pelo pensamento funcionalista e pautadas na visão positivista. Essa corrente entende que a existência histórica é fenomenológica, portanto cada objeto se explica por si mesmo, ocultando as contradições num desprezo total pela história.
Para Santos Filho é por meio da lógica do capitalismo submisso ao capital que se deve entender a história do fenômeno turístico. Cabe ao turismo compreender o fenômeno do lazer naquilo que Marx deixou de legado. Assim destaca que o trabalho como necessidade surge trazendo consigo o não-trabalho. Essa situação vai exigir que as atividades de não trabalho se expressem durante o desenvolvimento do processo históricos em formas diferentes, seja pelo ócio, seja finalmente pelo turismo.
Entender o fenômeno turístico nessa perspectiva teórica, de acordo com o autor, leva a uma ampliação da compreensão do seu campo epistemológico. Por isso ele parte do pressuposto de que o turismo em sua concepção histórica surge desde o aparecimento da mercadoria, quando o trabalho aparece como uma necessidade individual e não mais como coletiva.
Dessa forma, Santos Filho defende que os estudos existentes para explicar o fenômeno turístico, em sua quase totalidade, partem sempre do capitalismo enquanto elemento explicativo para o aparecimento do turismo. Mas esquecem de mencionar que há uma anterioridade, a qual o neopositivismo faz questão de ocultar, o capital. Esse entendimento empobrece a compreensão da realidade e oculta as verdadeiras bases ontológicas do fenômeno, mostrando-o somente a partir da concepção neopositivista. Por isso o capital e a categoria trabalho devem ser os iniciadores para o entendimento de qualquer estudo do fenômeno turístico.
Após esta exposição de Santos Filho, Maureen Ayikoru (2009) expõe seus comentários ressaltando de imediato que a produção de conhecimento sobre o turismo, até recentemente lutava por conseguir identidade dentro da academia.  No entanto, há agora um considerável corpo de obras que abordam a problemática do turismo e a produção de conhecimento, de forma que está exibindo sinais de maturação. Assim, a autora relata a existência de três situações relacionadas a essas mudanças. A primeira concentra-se nos métodos (divisão qualitativa e quantitativa), a segunda se relaciona às bases paradigmáticas de inquérito do turismo e o terceiro envolve uma leitura desconstrutiva dos discursos da produção de conhecimento sobre o turismo. Esta terceira situação incita cada vez mais a academia do turismo a refletir sobre: a metodologia escolhida, o tipo de questão de pesquisa; os fundamentos e preconceitos que o investigador traz para a pesquisa (gênero, raça, classe, etnia, nacionalidade, ideologia).
De acordo com Ayikoru estas questões têm relação com a natureza da realidade (questões ontológicas), a natureza da relação entre o conhecedor e o conhecido (questões epistemológicas) e, com a maneira como o investigador vai alcançar conhecimento do mundo (questões metodológicas). E embora os estudos existentes mostrem uma familiaridade com os recursos intelectuais é necessário ter uma mente inquiridora que permanece consciente das afirmações ontológicas e epistemológicas no processo de produção de conhecimento.
Nesse sentido, como expositora seguinte tem-se Marutschka Moesch (2013), para a qual o saber de turismo não é linear. Não há evolução, mas revolução, progredindo por reformulações, por refusões em seu corpo teórico, por retificações de seus princípios básicos. Utilizando Piaget (1983) ela trata dos problemas relativos às ciências em geral e apresenta propostas para a epistemologia do Turismo.
De acordo com Moesch em turismo se deveria integrar o sujeito (turista e seus fluxos) à sociedade/comunidade (encontro turístico) e o espaço turístico. Segundo a autora o turismo nasceu e se desenvolveu com o capitalismo. A cada avanço capitalista, há um avanço do turismo, e a cada crise do capitalismo ocorrem novas refusões no turismo. A partir de 1960, o turismo expandiu como atividade de lazer, envolvendo milhões de pessoas e transformando-se em fenômeno econômico.
Nesse cenário, de acordo com a autora, existem profundos questionamentos sobre a episteme turismo, com divergências sobre o fato dele ser ciência e sobre o que venha a ser seu objeto científico. Há uma posição que considera o turismo uma indústria, ou seja, uma clara abordagem econômica. A segunda posição defende o turismo como um fenômeno, entendido na forma kantiana, ou seja, o mundo como é experenciado.  A terceira posição privilegia o objeto da ciência do turismo, não o fato científico em si mesmo. Para esta última, o objeto da ciência do turismo é algo produzido na história humana, devendo ser compreendido na sua processualidade, portanto de forma dialética e interdisciplinar.
Na compressão da autora, o real do turismo é uma amálgama na qual tempo, espaço, diversão, economia, tecnologia, imaginário, comunicação, diversão e ideologia são partes de um fenômeno pós-moderno, em que o protagonista é o sujeito, seja como produtor ou consumidor da prática social turística. Não nega-se a contingência material do turismo em sua expressão econômica, mas ela ocorre historicamente, em espaços e tempos diferenciados, cultural e tecnologicamente construídos, a partir de um sujeito biológico.
Conforme defende Moesch, o turismo como uma "ciência social" tem condições de se autojustificar cientificamente a partir de uma teorização própria. Ele pode ser percebido e estudado como ciência social autônoma, tendo como objeto o nomadismo, o deslocamento, o encontro. O problema turístico deve ser estudado em sistemas, considerando a complexa trama de elementos e interações vinculados ao turismo. Por isso, o sistema turístico, como o SISTUR de Mário Beni (composto pelos subsistemas cultural, ambiental, social e econômico), deve ser compreendido como aberto, orgânico, complexo.
Assim, Moesch defende que o Turismo é um campo de práticas histórico-sociais, que pressupõem o deslocamento do(s) sujeito(s), em tempos e espaços produzidos de forma objetiva, possibilitador de afastamentos simbólicos do cotidiano, coberto de subjetividades, portanto, explicitadores de uma estética diante da busca do prazer. Uma epistemologia do Turismo envolve cuidados teóricos, advindos de um entendimento complexo sobre uma prática social que se dissemina de forma diferenciada, a partir de subjetividades infinitamente diversas e de vivências múltiplas dos sujeitos que as praticam, em um mundo que se globaliza.
Para fechar o debate entre aqueles que trataram sobre o turismo Nieves (2012) traz algumas críticas a alguns destes estudiosos expondo primeiramente a ideia de Jafari (2001) que o conhecimento do turismo é científico principalmente devido ao crescimento da pesquisa e pós-graduação nesta área, em muitas partes do mundo. No entanto, segundo Nieves, em nenhum momento Jafari reflete sobre o que os filósofos chamam de demarcação da ciência. Não é possível garantir a cientificidade do turismo apenas em função de um famoso pesquisador ou um organismo reconhecido, nacional ou internacional. O valor intelectual de um discurso não depende de quem o diz (o sujeito ou instituição), mas das suas contribuições para o conhecimento científico (conteúdo).
Nieves defende que grande parte do conhecimento gerado pela pesquisa do turismo é raciocínio subjetivo: pontos de vista e crenças, ou soluções possíveis (expectativas) para problemas concretos, com pouco interesse teórico. Por isso não houve responsabilidade intelectual e seriedade no discurso acadêmico do turismo. Alguns ensaios carecem de importância para a produção científica, devido à simplicidade de sua análise e a superficialidade das suas conclusões.
O autor comenta ainda que há a ausência da crítica no trabalho de Panosso Netto (2008) ao comentar as teorias de turismo, de autores como: Jafari, Fuster, Leiper, Beni, Sessa, Tribe, Boullón e Molina. Nessa abordagem os referidos autores não foram questionados em relação à falta de rigor teórico e metodológico, confusão e tolices de propostas, contradições em discursos com os princípios da ciência e abuso da expressão científica, sem considerar o seu significado filosófico. E ainda, os autores expressam uma vaga ideia ou um completo desconhecimento dos pressupostos epistemológicos em que se baseiam.
Nieves entende que os contratempos no turismo podem ser explicados em parte pela ignorância científica e epistemológica, mas também pela irresponsabilidade ética de muitos de seus especialistas. A imperfeição do saber que utilizam e a ingenuidade com que observam a realidade os impede de elaborar estratégias próprias e factíveis de desenvolvimento.
 Segundo o referido autor o meio acadêmico do turismo não tem atitude científica por uma razão simples: porque sequer sabe o que é essa coisa chamada ciência e como ela é produzida. Numerosos acadêmicos que escrevem sobre turismo não são investigadores, possivelmente sejam bons professores ou bons consultores. Normalmente são muito pragmáticos e não são bons pensadores, visto que raramente aspiram a usar as ferramentas teóricas e metodológicas da ciência, porque acreditam que não têm relação com o seu desempenho profissional.
Para Nieves é verdade que ocorreram progressos no conhecimento do turismo, dado os esforços de alguns estudiosos, mas é necessário que a capacidade crítica seja conduzida a partir da educação, principalmente através da promoção de bons hábitos de leitura voltada para a aprendizagem de conhecimento abstrato (teórico) e do pensamento complexo.
Finalmente, no intuito de fechar essa viagem pelas questões metodológicas do turismo foi reservado para o final a exposição das ideias de McCloskey (1996). Assim almeja-se, como em muitos eventos científicos, presentear os participantes, ao final do encontro, com uma exposição instigante. Esta, como uma caixa de indagações a ser levada para casa e desvendada, fomentará discussões e construções teóricas ao longo do período que passará até o próximo encontro entre aqueles interessados no tema que o evento abordou.
Então McCloskey inicia sua apresentação expondo que o modernismo tem vários significados, mas ela o define como o resultado da penetração do positivismo no pensamento atual da metodologia científica. Nessa perspectiva apenas é considerado conhecimento real o conhecimento científico. De acordo com a autora, a fé modernista consolida-se a partir da decadência da fé religiosa e se manifesta na fala, especialmente daqueles do meio acadêmico por meio de expressões como somente uma opinião, somente teologia, seja objetivo, não é científico por isso não tem importância. Para o modernismo a ciência é matemática, separada do valor, da beleza, da bondade, de todas as quantidades não mensuráveis e tem pouco interesse por tradições culturais, desconsiderando a ética e é irreflexiva quanto ao método.
Assim, a seguir é apresentada uma lista de dez mandamentos elaborados por McCloskey pensando o modernismo na economia, mas que nesse momento contribuem para a reflexão sobre as diferentes abordagens anteriores sobre as questões metodológicas, inclusive no turismo. Mandamentos do pensamento moderno:

McCloskey indaga que se as pessoas forem à biblioteca convencidos por estes princípios do pensamento moderno quais estragos serão feitos? Ela defende que o modernismo se adapta mal à complexidade. Os metodólogos epistemológicos defendem o experimento como um princípio fundamental para definir o que é conhecimento científico. Todavia, desprezam assim a reflexão mais subjetiva. Toda metodologia limitada por regras, como ocorre no modernismo, é restrita: as restrições restringem. Segundo a autora, como colocado por Einstein, quem tentar transformar-se em juiz no campo da verdade e do conhecimento naufragará pela ira dos deuses. Nesse sentido, coloca que as destruições da ciência e da filosofia feitas Paul Feyerabend (ciência como empreendimento anárquico, pois assim é mais humanitária e estimula mais o progresso do que suas alternativas que apregoam lei e ordem) e Richard Rorty (a epistemologia desde Platão é uma aposta intelectual que não teve êxito) deixam os metodólogos paralisados.
A autora expõe que a metodologia assume uma postura de detentora do poder de ordenar aos cientistas o que devem fazer em seu trabalho. Apesar de apresentar uma “caixa de ferramentas” explica mal como escrever em prosa científica. Mas acima desse conjunto de ferramentas, estão as normas de conversação da civilização, as quais menciona que são denominadas por Habermas como Sprachethik. Sem essas normas, expostas a seguir, não é possível uma boa vida intelectual: não mentir; prestar atenção; não burlar; cooperar; não gritar; deixar que os outros falem; ser imparcial; explicar quando lhe perguntam; não recorrer à violência ou à conspiração em ajuda às suas ideias.
Assim, no entendimento de McCloskey a boa ciência é boa conversação, ou seja, o que distingue um discurso não é uma metodologia particular, mas sim a busca sincera e inteligente de contribuir para uma conversação e não para uma oração. Por isso ela propõe a retórica como uma maneira melhor de entender a ciência, visto que ela tratará da conversação e não da verdade, diferente do que faz o modernismo. Para tanto é necessário compreender a retórica não como uma fala vazia, uma busca por convencer alguém de uma opinião preconcebida, mas sim a arte de descobrir crenças justificáveis e de melhorá-las em um discurso compartilhado. A retórica é a exploração do pensamento pela conversação.
McCloskey expõe que defende a retórica de Aristóteles, de Cívero e de Quintiliano, desqualificada perante a lógica, na filosofia do século XVII e crucificada na cruz cartesiana, mas que agora se levanta dentre os mortos, especialmente a partir dos trabalhos de I. A. Richards e Kenneth Burk (ambos na literatura, durante a primeira metade do século XX) e na filosofia por John Dewey, Ludwing Wittgenstein, Popper, Kuhn e Imre Lakatos. Segundo McCloskey citando Rorty, a busca dos fundamentos do conhecimento por Descartes, Locke, Hume, Kant, Russell e Carnap foi o triunfo da busca da certeza sobre a busca da sabedoria. E ainda, há uma neurose em fazer a vida humana se ajustar à metodologia, a qual não descreve bem nem a física do século XVII. Assim, restabelecer a retórica é restabelecer um conhecimento mais amplo e mais sensato.
Dessa forma, para ela, as ciências, inclusive, as matemáticas, não são ciência, são retórica. Citando Morris Kline, McCloskey defende que não existe um critério universalmente aceitável, de maneira que um corpo de conhecimento infalível e universalmente aceito, como a matemática de 1800, é uma ilusão. A retórica é uma maneira de examinar os discursos e melhorá-lo, descobrir métodos que permitam abrir-se a outros discursos, e assim conversar mais educadamente com as outras conversações da humanidade.
Para McCloskey utilizar a linguagem é um ato social e necessita que se preste atenção às pessoas presentes quando se fala. Aquele que fala deseja influenciar os que lhe ouvem. Assim, a retórica é uma adequação dos meios aos desejos da conversação. É a economia da linguagem, ou seja, adequar meios escassos ao desejo de ser ouvido.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Frente ao exposto compreendem-se as teorias como conversações originadas no intelecto humano a partir do social com o intuito de superar teorias passadas que foram insuficientes para dar uma explicação adequada ao comportamento de algum aspecto do mundo. Estas teorias estão sujeitas à crítica e à refutação. O método por sua vez diz respeito aos fundamentos das tentativas de solução para os problemas. Nesse processo, relevância, precisão, autocrítica, humildade, ética, complexidade são essenciais à pesquisa e ao pesquisador.

Defende-se que o turismo possui um corpo considerável de estudos bem estruturado, elaborado a partir de pesquisas criativas, e que gradativamente busca reduzir o efeito do senso comum, o qual, portanto, já resiste a argumentações contrárias. Um número crescente de pesquisadores do turismo, especialmente a partir dos anos 2000, dominam as técnicas de coleta, manuseio de dados, possuem capacidade de manipular bibliografia e conhecimento de teorias bem como realizaram o consagrado caminho da graduação ao doutorado, formando-se como investigadores com conhecimento científico e reconhecidos por estudiosos de diversas outras áreas.
Discorda-se de que o turismo tem sua ontologia ligada ao não-trabalho, apesar da lógica do capitalismo submisso ao capital auxiliar no entendimento do turismo. Compartilha-se da compreensão de que o turismo tem como objeto a compreensão do deslocamento do ser humano e por isso não se limita aos últimos séculos, visto que esta força interior sempre esteve junto do ser humano.
Como categorias em torno desse deslocamento, há séculos, têm-se: o estar em viagem (percurso e estadia fora do local de origem) e os meios que proporcionam essa experiência; o encontro e suas implicações ligadas à hospitalidade; e a relação com o espaço e seus efeitos. Esses problemas, que testam a habilidade daqueles que se dedicam a investigar o turismo, estão intrinsecamente ligados aos hábitos, interesses e ideias de cada época. Eles também se inserem num contexto complexo característico de qualquer condição em que o ser humano esteja envolvido. Cabe ainda a observação de que a partir do século XX o turismo necessariamente se vincula aos aspectos econômicos, sem, contudo se limitar a estes.
Nesse sentido aceita-se o paradigma sistêmico para o estudo do turismo desde que se tenha lucidez sobre a complexidade do mesmo. A partir dessa concepção é necessário que, em função de limitações humanas, cada pesquisador se detenha a alguns aspectos do turismo. Mas sempre tendo em mente que o seu objeto de estudo é apenas uma minúscula parte de um todo maior e mais complexo.
Dessa forma, compreende-se que as investigações sobre o turismo estão formando suas estruturas. Com a crescente aproximação entre os pesquisadores de diferentes partes do planeta os conceitos e receitas de como desenvolver pesquisas estão se consolidando. Os avanços da tecnologia a partir do final do século XX possibilitaram que esta conversação se torne mais veloz e intensa. Porém ela ainda não é maior em função das limitações de idioma, carência de leitura (especialmente epistemológica) e pelo caráter interdisciplinar intrínseco ao turismo. A interdisciplinaridade apesar de possibilitar a construção de uma compreensão mais completa do turismo, cria barreiras ao entendimento entre os investigadores da área e consequentemente dificulta a formação de redes de conversação sobre o turismo que compartilhem compromissos teóricos e metodológicos entre os mesmos.
Nesse sentido, considerando o desejo dos investigadores do turismo de serem ouvidos não apenas no meio acadêmico, mas também entre os gestores públicos e privados, pode-se dizer que a maneira como falam os investigadores geram efeitos, todavia menores que o desejado. Entre os gestores há uma resistência (como ilustrado pela história apresentada no início deste texto). Mas não se atendo ao nível de formação e aos interesses destes gestores (características que os pesquisadores do turismo têm pouca influência), é importante ressaltar como a fala dos pesquisadores é difícil de ser entendida fora do meio acadêmico. Os investigadores usam terminologias específicas da academia e principalmente, trabalham com uma perspectiva mais ampla de turismo. Para aqueles que estão vivendo a pressão do lucro ou do voto torna-se custoso dar atenção para assuntos que considerem as diversas facetas do turismo e em ainda em uma perspectiva de longo prazo.
Apesar da fartura de estudiosos que se dedicam a investigar o turismo, têm-se resultados pouco atentos à retórica e que, portanto, pouco conversam com a recorrente prática do turismo baseada no senso comum. Por isso, entende-se que o avanço nas discussões sobre as questões metodológicas no turismo necessariamente passa pela retórica visando construir alternativas para que os investigadores do turismo convençam a si mesmos e aos que estão na prática sobre a validez de suas ideias.
Assim, o navio atraca no porto para que cada investigador do turismo, após essa experiência, siga o seu caminho em terra. Mas com a expectativa de que a farão com a lembrança dos altos e baixos que suas certezas sofreram ao visitarem o mar do conhecimento embarcado nessas conversações com preocupações metodológicas menos restritivas.

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Endereço Eletrônico: <http://www.youtube.com/watch?v=eUbSVGCYagM>. Acesso 20/1/2013.

Recibido: 22/04/2013
Aceptado: 01/06/2013
Publicado: Junio 2013


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