TURyDES
Vol 1, Nº 2 (marzo / março 2008)

THOMAS COOK: MARCO DA HISTORIOGRAFIA DOMINANTE NO TURISMO
ENSAIO SOCIOLÓGICO SOBRE O PRECONCEITO AO FENÔMENO TURÍSTICO NA HISTÓRIA

João dos Santos Filho (CV)

 
 


Naturalmente, aqueles que aceitam tacitamente a ideologia dominante como a estrutura objetiva do discurso “racional” e do “erudito” rejeitam como ilegítimas todas as tentativas de identificar as suposições ocultas e os valores implícitos com que está comprometida a ordem dominante. Assim, em nome da “objetividade” e da “ciência”, têm de desqualificar o uso de algumas categorias essenciais do pensamento crítico. (István Mészáros. O poder da ideologia, p.14)

A burguesia só pode existir com a condição de revolucionar incessantemente os instrumentos de produção, por conseguinte, as relações de produção e, com isso, todas as relações sociais. [...]

Impelida pela necessidade de mercados sempre novos, a burguesia invade todo o globo. Necessita estabelecer- se em toda parte, criar vínculos em toda parte.

[...]

Pela exploração do mercado mundial, a burguesia imprime um caráter cosmopolita à produção e ao consumo em todos os países. (Manifesto Comunista. Marx, Engels, p. 12)

Primeiras Indagações

O turismo se constitui em um fenômeno social que é alvo de vários tipos de “preconceitos” dentro e fora da academia, considerado ainda uma temática que desperta pouco interesse para a pesquisa e tida de baixa relevância no campo das ciências humanas*. Apesar de já possuir no interior da academia o status de ciência, em razão dos esforços de vários centros de investigação nacionais e estrangeiros e ter a retaguarda das pós-graduações existentes no país. Ainda é contestado por algumas corporações do ramo do saber que travam por vezes uma luta pouco profissional com os percussores do turismo nacional, tentando desqualifica-los e incorporar o turismo a outras ciências como algo inerente de uma essencialidade técnica.

No cotidiano a temática do turismo sofre do estereotipo de ser entendido como uma atividade destinada exclusivamente à viagens das classes sociais abastadas, esse processo de compreensão elitista que o termo turismo padece mascarando uma realidade social extremamente desigual que colabora para que o mesmo seja visto como inexpressivo no conjunto das políticas públicas formuladas pelo Estado brasileiro e podemos dizer Latino Americano.

Em um período de sua trajetória histórica o turismo surge sinalizado por atos em que o “[...] trabalho [aparece] como pena imposta pela justiça divina e por isso os filhos de Adão e Eva, isto é, a humanidade inteira, pecará novamente se não se submeterem à obrigação de trabalhar.” (CHAUI. 1999 p.10). O trabalho reaparece agora como um instrumento de salvação dos homens no processo capitalista e a preguiça ou o não trabalho como algo reservado aos vagabundos, vadios e ociosos.

A sociedade que luta pelo trabalho como salvação para o homem vai se internalizar no interior da primeira e segunda revolução industrial na Inglaterra como pólo irradiador para o mundo da organização das relações de produção e das forças produtivas capitalistas. È nesse momento que o trabalho e o lazer se caracterizam numa categoria mais completa e complexa, isto é, surge como mercadoria como valor de uso e valor de troca configurando-se como uma necessidade biológica e social que evolui posteriormente como um direito social e político do movimento de trabalhadores.

Na atualidade o fenômeno do turismo ganha espaços na academia e consegue aos poucos se desvencilhar dos preconceitos sociais, políticos e econômicos. Esse último enraizado em parte na literatura existente de base funcionalista em que o destaque de seu discurso resume-se ao empirismo, usando a quantificação para mistificar a realidade social e desenvolver um pensamento conformista e acrítico.

O turismo e lazer devem ser considerados como uma das primeiras necessidades básicas biológicas e sociais que influenciaram na luta pela subsistência do homem, na sua existência [...] de um lado, a produção de meios de existência, de produtos alimentícios, habitação, e instrumentos necessários para tudo isso; de outro lado, a produção do homem mesmo, a continuação da espécie (Engels, 1977: 2).

Na história de qualquer sociedade humana desenvolve-se atividades rituais, religiosas de base lúdicas que são expressas por meio do lazer e posteriormente turismo, independente do estágio de desenvolvimento das relações de produção, essa manifestação pode estar fundida às atividades de trabalho ou separada apresentando estágios diferentes de sua manifestação.

Preliminares Teóricos para uma Reflexão sobre a História do Turismo

Em primeiro lugar, esclarecemos que o nascimento e desenvolvimento de uma ciência do turismo e seu respectivo arcabouço teórico conceitual só podem ser considerados solidificados, quando permitimos que a movimento de reflexão e da dimensão crítica e dialética caminhe rumo ao questionamento de seus pressupostos e axiomas fundamentais. Portanto, o ato de repensar a historiografia universal existente no campo do turismo aparece como uma necessidade fundamental e decisiva dentro da ciência do conhecimento desse fenômeno.

O processo para delimitar o fenômeno turístico no interior da sociedade é possível com o auxilio da interdisciplinaridade com as outras ciências, bem como, o aparecimento de outras epistemologias para a leitura do fenômeno acabou aumentando a produção dos estudos científicos nesse campo, garantindo um embate acadêmico entre diferentes epistemes.

A contribuição teórica para o entendimento do turismo ganha dimensões cientificistas no campo das ciências humanas e favorece a multiplicação de estudos acadêmicos enriquecendo o saber turístico. Contrapondo com a leitura hegemônica existente do turismo que nega o movimento da história, permitindo o questionamento da historiografia. Esse procedimento abre espaço, para que ressurjam as verdadeiras histórias autóctones, sem o perigo de adotarmos uma identidade aceita como universal alheia e estranha a nossa idiossincrasia.

A intenção de procedermos a uma leitura ontológica do fenômeno turístico exige o aporte de uma análise fora dos padrões hegemônicos existentes que ultrapasse as referencias fenomenológicas de base tecnicista. O procedimento para avançar na teoria do conhecimento é o respeito que temos que ter a outros enfoques epistemológicos que fundamentam a existência de uma academia progressista, produtiva, democrática que deve sempre resguardar a busca incansável da verdade cientifica com profundo grau de tolerância diante de outras epistemes, pois é esse procedimento que traz o conhecimento cientifico.

Acreditando que todo conhecimento se encontra a mercê de interesses que ultrapassam muitas vezes os superiores saberes da ciência, pois são produto de objetivações procedentes do amalgama de questões econômicas, políticas e sociais que compõem o quadro das relações dominantes de um determinado período histórico. Cabe a nós duvidarmos de verdades absolutas, aquelas que embarcam no mundo pela visão positivista, por isso há necessidade de buscarmos o entendimento dos fazeres da humanidade como resultado da ação dos homens, produto de sua práxis histórica e social, recolocando Thomas Cook em seu devido lugar na historiografia mundial.

Nesse caso, a história deve ser vista como possível de constantes questionamentos, por parte dos pesquisadores que necessitam exercer a prontidão histórica do novo:

A exigência de rigor científico, indispensável para proteger-se de mitos e fabulações, deve visar a “liberá-los” de tudo aquilo que os deforma e oculta: tornam-se mais precisos os conhecimentos, dá-se a eles uma substância sempre mais rica e objetiva. Tudo isso, longe de reclamar qualquer ”objetividade” da parte do historiador, só pode se realizar através das exigências da luta política. È preciso denunciar em suas raízes políticas as interpretações errôneas e as lacunas voluntárias: elas estão ligadas a práticas de opressão e alienação em benefício do poder e das classes dirigentes.

Cabe a nós estudiosos e pesquisadores do fenômeno turístico ousar a questionar as visões positivistas de base linear, subvertendo a lógica da historiografia fenomenológica existente, buscando recontar a verdadeira história do turismo. E de Thomas Cook que aparece como preso a uma literatura funcional e sempre descritiva com transcrições parecidas das existentes em toda literatura de língua portuguesa sobre turismo.

Os esforços são imensos, pois há setores da academia com dificuldades de fazer questionamento substanciais as bases históricas existentes do fenômeno turístico, sugerindo que impera um sentimento conformista de um relativismo universalista em que a hegemonia do discurso busca resguardar a essencialidade positivista.

A historiografia inglesa, quando há interesse sinaliza a criação de um herói, mesmo que esse personagem tenha sido historicamente, objeto de chacota, desconfiança, preconceito, concorrência ou ameaça às facções no interior da classe dominante e das próprias empresas transportadoras em determinado período da história. Além do que, o papel desempenhado por esse personagem, parece ter sido diminuído por sua atitude de querer popularizar o lazer para as classes de menor renda, pois essa era uma atividade exclusiva das classes abastadas.

Posteriormente recuperado pelo estado inglês por interesses estratégicos da ideologia imperialista capitalista, nesse ponto nós parece que a contribuição do geógrafo e historiador Ycarim Melgaço Barbosa, aponta para essas questões:

Para Cook, o trem permitiria a realização de viagens para milhares de pessoas, acrescentando ainda que fosse uma forma de influenciar a convivência de diferentes tipos de classes sociais, pois podia transportar todo tipo de gente. Cook talvez tivesse sido o único a defender vantagens para a classe trabalhadora.

[...]

As viagens massificadas de Cook começaram a perder sua autenticidade, com grupos numerosos de pessoas – os turistas – visitando sempre os mesmos lugares, aglomerando-se por onde passavam, sendo muitas vezes alvo de críticas por parte das populações autóctones. Um cônsul britânico na Itália publicou um artigo na Blackwood Magazine, em 1865, no qual atacava virulentamente o turismo de grupo: Esse mal novo e crescente que consiste em conduzir 40 ou 50 pessoas, sem distinção de idade ou de sexo, de Londres a Nápoles ida e volta por empreitada (Urbain, 1993:33)

Evidente que a idéia de Estados hegemônicos é uma realidade muito bem estudada pela “Ciência Política” que pode ser percebida na determinação do poder material e simbólico que as relações de produção mais desenvolvidas estão assentadas, mantendo sobre as nações menos desenvolvidas uma processo de subordinação, pois surge uma pressão concreta de impor sua ideologia dominante como padrão do pensamento para a humanidade.

O desconhecimento da existência de diferentes realidades como produto de especificidades econômicas e culturais distintas e próprias, leva os homens a acreditarem em um processo de padronização histórica, esquecendo-se que o mundo é produto de diferentes tipificações materiais que se explicam segundo o estágio de desenvolvimento das relações de produção e forças produtivas. Essa premissa se substancia na lógica da dominação material que vai determinar valores espirituais universais para todas as classes sociais do mundo.

A história do turismo mundial foi escrita por meio de uma lógica determinada no interior das relações de produção que vão privilegiar o Estado Inglês que nesse momento invade o mundo com sua produção de mercadorias, por ser o mais emergente economicamente naquele período histórico e gerando um domínio imperialista do saber universal no campo do turismo. Transmitindo conhecimentos tidos como verdadeiros segundo o desenvolvimento das relações de produção e das forças produtivas que expressam o desenvolvimento econômico e social daquele país para o mundo.

Os movimentos da história entendidos pela luta de classes vão construir modos de produção ao longo da existência da humanidade, facilitando o aparecimento de Estados hegemônicos que vão escrever uma história universal:

Assim, se em Inglaterra se inventar uma máquina que na Índia ou na China, tire o pão a milhares de trabalhadores e altere toda a forma de existência desses impérios, essa descoberta torna-se um facto da história universal.

A magnitude de um Estado nas dimensões de seu poder econômico, político e cultural só podem ser entendidos, por sua autonomia e força material perante os outros. Essa dimensão surge em virtude da produção e circulação da mercadoria, como novamente afirma Marx:

Os pensamentos da classe dominante são também, em todas as épocas, os pensamentos dominantes, ou seja, a classe que tem o poder material dominante numa dada sociedade é também a potência dominante espiritual. A classe que dispõe dos meios de produção material dispõe igualmente dos meios de produção intelectual; de tal modo que o pensamento daqueles a quem são recusados os meios de produção intelectual está submetido igualmente à classe dominante.

Com isso, podemos entender em parte o porquê Thomas Cook aparece de forma hegemônica na literatura universal relativa ao turismo, como o pai dessa atividade organizada. Não negamos a importância de seus feitos, pois os mesmos expressam o poder econômico e político de uma Inglaterra em pleno desenvolvimento das suas forças capitalistas. Como potencia industrial, agrícola, marítima e ferroviária, em que as bases do sistema começam a adquirir maturidade e se faz presente no dia a dia de uma população com grande possibilidade financeira, pois a burguesia, classe media e uma parte do proletariado conquistou certa mobilidade geográfica, podendo freqüentar uma rede hoteleira e gastronômica em expansão, e estalagens de todos os preços e tipos em espaços geográficos diferentes.

Neste caso a Inglaterra estava na frente com um turismo empreendedor*, pois esse país apresenta um desenvolvimento em todas as áreas, onde havia uma população ávida para o consumo do lazer e do turismo, como podemos perceber na descrição dada pelo historiador David Landes:

Os visitantes maravilhavam-se com o alto padrão de vida do inglês: chalés de tijolo, telhados de telha, roupa de lã, sapatos de couro, pão branco (podem-se acompanhar as crescentes rendas da Europa em processo de industrialização pela fronteira do pão branco). Viram mulheres trajando vestidos de algodão estampado e usando chapéu; jovens criadas que se pareciam tanto com as suas patroas que a visita estrangeira ficava na dúvida sobre como dirigir-se à pessoa que vinha abrir-lhe a porta. Viram gente pobre, dizem-nos, mas não misérables; nada de pedintes famintos, de faces encovadas [...]

Com isso, não negamos o valor contemporâneo de Thomas Cook, seu papel no desenvolvimento do turismo num determinado momento da história, o que rejeitamos é a tentativa da historiografia Inglesa em conjunto com parte da historiografia nacional supervalorizar esse personagem como se o fenômeno do turismo fosse natural da Inglaterra. Colocando a história nacional desprovida de qualquer sinalização deste fenômeno, na verdade nós submetemos a adotar e a fazer a leitura da história nacional segundo as idéias dominantes do colonizador.

A base desse processo de dominação no campo das idéias tem suas raízes na evolução do pensamento burguês que como mencionamos não está descolado da realidade social, ou melhor, é produto da mesma, pois os interesses de uma classe são sempre colocados no plano da história mundial. Essa lógica atende aos interesses do Capital que esta sinalizando e monitorando seu percurso para acumulação de mais-valia.

Portanto, a historia universal é produto de uma falsificação induzida por interesses que contribuem com a idéia de manter o status quo das classes que servem à manutenção do sistema econômico, político e social burguês. Com isso quero afirmar que:

Os pensadores desta época têm ao mesmo tempo um senso sutil e robusto da realidade, e seus próprios erros dependem da história mundial, porque são oriundos de ilusões heróicas que correspondem a necessidades históricas.

Essa preocupação em produzir uma história permissível, descritivo e acrítico, em que “o passado deve governar o presente”, atende ao pensamento positivista como elemento filosófico da explicação da realidade e acomoda os interesses do Capital no sentido que a dominação de classes que deve ser preservada pelo conjunto de idéias do passado. Esse processo apresenta um desprezo total pela luta de classes, pois a história para eles são os ensinamentos do passado e não resultado do trabalho vivo, como diria a historiadora Déa Ribeiro Fenelon: “A história é só a voz do passado e o museu das antiguidades”.

Na verdade o que ocorre é que o Estado mantém uma política de controle da realidade que lhe dá autonomia para exercer sua perpetuação no aparelho ideológico e repressor de Estado. E com o aparato instrumental que possui desenvolve uma prática de guardiões do poder do Capital, por meio do cerceamento do pensamento livre e crítico, pois:

O caráter oficial da seleção dos fatos, (nos livros didáticos) o sentido elitista do processo histórico, com o acento sobre a importância da liderança e a insignificância do povo, a total ausência de espírito crítico, a conformação incontestável ao processo histórico dos vencedores, ensina uma história conformista, com promissória, privilegiada, anti-reformista e conservadora.

O caráter seletivo de nossa história produz a redução da memória nacional levando a um processo de esquecimento e negação dos valores de nossa idiossincrasia, induzindo - nos de forma violenta a cultivar preceitos alheios à nossa cultura. Isso reduz nosso nível de politização, pois navegamos em uma história inventada segundo os interesses do Capital, produzindo um comportamento hegemônico de submissão não perceptível, mas presente no cotidiano.

Os interesses nacionais da nação acabam sendo submetidos aos desejos dos países hegemônicos que ditam que tipo de pesquisas devemos realizar e fazem o monitoramento de seus resultados. Esse processo de submissão é atenuado no chamado campo da cooperação econômica no qual o país esta inserido, porem segundo o sociólogo Octavio Ianni em um dos seus clássicos estudos sobre as ciências sociais, comenta o mesmo problema da dependência cientifica:

Conforme verificam todos os que estudam o pensamento Latino-Americano, este sempre esteve fortemente influenciado pelas correntes cientificas e filosóficas européias e norte-americanas. Da mesma maneira que no passado, na atualidade também a produção cientifica e filosófica dos países da América Latina continua a revelar influências acentuadas da produção intelectual norte-americana, francesa, alemã, inglesa etc.

As Relações de Produção na Inglaterra Criaram Thomas Cook

São os homens que produzem as suas representações, as suas idéias, etc.², mas os homens reais, actuantes e tais como foram condicionados por um determinado desenvolvimento das suas forças produtivas e do modo de relações que lhe corresponde, incluindo até as formas mais amplas que estas possam tomar. A consciência nunca pode ser mais do que o Ser consciente; e o Ser dos homens é o seu processo da vida real. (karl Marx. A ideologia Alemã. P.25).

A idéia de locomoção e viagens surge com o aparecimento do homo sapiens, em todos os cantos do planeta há marcas e relatos de encontros entre povos, via cooperação, assimilação, dominação e conflitos. Todos esses encontros deixaram marcas por meio das pinturas rupestres e achados arqueológicos que hoje ajudam a reescrever com maiores detalhes a historia das primeiras civilizações da humanidade.

A existência dessa gama de vestígios e o avanço das técnicas de pesquisa arqueológicas permitem observar vários tipos de povos em estágios diferentes de civilização que compunham e habitavam os diferentes espaços do planeta. Esse mosaico compostos de diferentes grupos sociais vai de certa forma caracterizar aquilo que chamamos de cultura universal e que se constitui no produto máximo de expressão de civilização.

Com o aparecimento de povos com estágios culturais diferentes que refletem o nível de desenvolvimento das suas relações de produção, o processo de dominação vai surgir em diferentes etapas e por diferentes meios. No inicio tudo era resumido no processo de submissão ao trabalho servil, escravo e assalariado, hoje esse movimento é mais sutil não necessariamente necessita de uma força física para intimidar o outro, basta deixar o processo de globalização neoliberal fluir em seus blocos econômicos.

Assim, entendemos que o processo de dominação na história mantém uma lógica de exploração para com o outro, ou seja, o mais desenvolvido mantém o domínio sobre os menos desenvolvidos, como escreveu Karl Marx em seu texto clássico ”O Método da Economia Política”, afirmando:

A sociedade burguesa é a organização histórica mais desenvolvida, mais diferenciada da produção. As categorias que exprimem suas relações, a compreensão de sua própria articulação, permitem penetrar na articulação e nas relações de produção de todas as formas de sociedade desaparecidas, sobre cujas ruínas e elementos se acham edificadas, e cujos vestígios, não ultrapassados ainda, levam de arrastão desenvolvendo tudo que fora antes apenas indicado que toma assim toda a sua significação etc.

A revolução industrial ocorrida na Inglaterra foi resultado de um processo que por condições peculiares de sua história vinha sendo gestada desde que a [...] imigração foi estimulada pela realeza que, em várias ocasiões, sobretudo no inicio do século XIV, se empenhou em fundar, com a ajuda desses iniciadores estrangeiros, uma indústria nacional. . A descoberta das grandes invenções foi um estimulo aos produtos manufaturados, o apoio de estruturas bancarias e o descobrimento da alquimia cientifica no processo de metais e o domínio do vapor como impulsão e o aproveitamento dos conhecimentos de engenheiros franceses, alemães, holandeses, italianos fizeram desse país a Meca dos grandes experimentos e obras que aceleraram o processo de acumulação do Capital.

O processo de desenvolvimento capitalista vai encontrar espaço e as condições ideais para se expandir na Inglaterra, o transporte de passageiros por ferrovias vem servir ao movimento da economia, pois o deslocamento de pessoas e mercadorias traz consigo uma fluidez mercadológica antes não experimentada. Serviços novos aparecem, transferências de capital movimentam trabalho vivo e o trabalho morto, a riqueza apesar de centralizada aparece e manda sua sombra para setores da classe trabalhadora:

A construção de caminhos-de-ferro foi provavelmente o fator mais importante na promoção do progresso econômico europeu nos anos 1830 e 1840. De novo a Grã - Bretanha, onde a primeira linha pública de passageiros (de Stockton a Darlington) se abriu em 1825, foi a pioneira e pôde agir como consultora e fornecedora no estrangeiro.

A economia se diversifica em larga escala, aparece a necessidade de aperfeiçoar as ferrovias para que sejam usadas para de transporte de passageiros com destinos determinados para a prática de viagens de lazer, saúde e negócios, surge então à atividade turística em sua plenitude moderna, alcançando um perfil alocado principalmente ao setor de serviços.

Os pólos de desenvolvimento econômico surgiram, subúrbios se desenvolvem, pois eram redutos de uma classe média que consumia praias e áreas de veraneio e as estradas de ferro acenavam futuras linhas para o transporte de passageiros. A ferrovia significa valorização das terras e imóveis e em um ano a ferrovia havia transportado:

Quarenta e oito milhões de passageiros utilizaram as ferrovias do Reino Unido em um único ano (1845). Homens e mulheres já podiam ser transportados ao longo de três mil milhas de via férrea na Grã-Bretanha (1846).

Thomas Cook, foi na verdade um pioneiro do turismo “moderno”, graças ao desenvolvimento da Inglaterra como a primeira potencia a se industrializar e a praticar as leis de mercado favorecidas por uma população trabalhadora capaz de consumir produtos. Cook cria o turismo de massa ferroviário, com tarifas reduzidas, viagens em grupo, pacote de viagens, fez campanhas publicitárias, promoções para conquistar clientela. Sua ação vai permitir que a classe operária imite os comportamentos da nobreza e passem a freqüentar as praias e os balneários do momento, antes tidos como redutos dos ricos.

Tópicos a serem Pesquisados para Entender o Papel de Thomas Cook na História do Turismo

O personagem que tinha tido um papel, mesmo que não considerado relevante na história de uma nação e posteriormente por diversas razões alcança projeção mundial. Pode ser objeto de um processo de autofagia plena e começa a ser produto de uma história que acaba em alguns momentos incorporando atos artificiais, ou até recuperando sua importância, segundo os interesses das classes dominantes. Nesse sentido, a historiografia de um país pode criar destruir, resgatar e fabricar heróis, segundo sua capacidade expansionista de impor materialmente e simbólicamente sua força de mercado ao mundo.

Portanto, qualquer personagem da história pode muitas vezes ser montado e moldado segundo os interesses do Capital, nesse sentido, não podemos, como afirma Karl Marx, deixar que interesses acima dos homens vivos deixem espaço para aqueles que:

Pretendem, portanto escrever uma história do passado que faça resplandecer com o maior brilho a glória de uma pessoa que não é histórica e daquilo que ela imaginou: não interessa, pois, evocar quaisquer acontecimentos realmente históricos nem sequer as intrusões da política na história. Em compensação, interessa fornecer um escrito que não repouse num estudo sério mas sim em montagens históricas e em ninharias literárias [...]

A luta por uma historiografia nacional autentica e que seja o reflexo dos atos de um povo só podem existir quando realizamos um processo constante de autocrítica da mesma e agregamos a ela novos saberes produto de estudos científicos.

Nesse sentido, podemos passar a refletir algumas questões:

1 – Parte da literatura editada em português existente que faz menção ao personagem Thomas Cook, aparece por meio de pequenos comentários nos inúmeros livros editados, muitas vezes em forma de nota. E com um conjunto de informações repetitivas sem qualquer reflexão que não seja a mera descrição dos dados biográficos desse personagem. Com raras exceções existem obras que caracterizam historicamente Cook ensaiando indagações procedentes. Mesmo com o perigo de cometer alguns equívocos involuntários, podemos destacar algumas obras de autores brasileiros; a) Turismo no Percurso do Tempo. Organizado por Mirian Rejowski; b) História das Viagens e do Turismo de Ycarim Melgaço Barbosa; c) Manual de iniciação ao turismo de Margarita Barreto; d) Aspectos Multidisciplinares da História e Turismo de Haroldo Leitão Camargo. In. Como aprender e como ensinar.

Gostaria de registrar que existem centros brasileiros de pesquisa e investigadores que estão orientando teses, monografias e trabalhos sobre o papel de Thomas Cook na história do turismo, porém na atualidade o que se consegue de dados se restringe a fatos biográficos e descontextualizados do processo histórico que estava ocorrendo na Inglaterra.

2 – A literatura referente à histórica do processo de industrialização da Inglaterra traduzida para o português na qual tive acesso entre as quais as obras do historiador de Eric J. Hobsbawm, Paul Mantoux, Frédéric Mauro, William Otto Henderson e outros que estão mencionados na bibliografia deste trabalho. Não mencionam nem de forma secundária o nome de Thomas CooK, mesmo quando escrevem sobre o desenvolvimento do transporte ferroviário inglês, essa ausência pode significar duas hipóteses; A primeira àquela que considerava que o direito ao lazer e turismo estava reservado a uma nobreza já decadente, porém ainda portadora de recursos financeiros e a uma forte burguesia que se encostava ao estilo de vida aristocrata; A segunda, por Thomas Cook ser um pastor batista que desenvolvia um trabalho de recuperação a alcoólicos ter ousado a programar viagens para as classes sociais populares em localidades tidas como redutos exclusivos dos ricos.

Portanto, a historiografia inglesa pelos fatores arrolados no começo deste texto relega ao esquecimento Thomas Cook, quem sabe por ter criado e desenvolvido um turismo de massa e popular que no fundo subvertia a estratificação social daquela sociedade, pois dava certas condições ao proletariado e a classe media de usufruírem do turismo de montanhas, termal e dos balneários que eram considerados uma terapia medicinal entre a classe dominante.

O turismo na Inglaterra foi resultado de um processo de desenvolvimento histórico, econômico e industrial aliado ao avanço dos meios de transporte marítimo e ferroviário. Porem, o Grand Tour é uma prática que existia desde o século XVI e vai até 1798 com a Revolução Francesa, que permitiu a classe social dominante enviar ao exterior seus filhos com tutores para prepará-los para o comando político da Inglaterra ensinando-os a serem:

Este viaje tenía el objetivo primordial de enseñar a estos jóvenes candidatos los saberes y los logros de los estados europeos modernos, y sobretodo en su parte italiana, el esplendor de las antiguas civilizaciones griega y romana, aunque uno de los fines principales era el de formar un cuerpo de diplomáticos, políticos, abogados y militares bien capacitado. El turismo en ese momento constituía, como se explicará de nuevo más adelante, una ciencia más que una actividad de ocio, un materia más entre las que se debían formar los lords ingleses.

O objetivo da classe dominante com seus filhos da aristocracia e da poderosa burguesia era desenvolver um processo que viesse garantir para as gerações futuras o comando político e econômico do país. Dando a eles a vivencia e oportunidade para conhecer culturas e sistemas políticos mais avançados culturalmente. E em casos específicos o Estado inglês custeava parte dessas viagens para futuros diplomatas, e para aqueles que ocupariam cargos no governo, com isso a Inglaterra fazia uma ponte imaginária com o continente europeu, segundo o escritor Edmund Swinglehurst:

O objetivo era tirar os rapazes de circulação durante aqueles anos inconvenientes que antecediam a idade adulta e educa-los – embora os mais críticos acreditassem que eles não faziam nada além de farrear e contrair sífilis.

Portanto, a atividade turística já era desenvolvida e pertencia exclusivamente às classes aristocratas e a burguesia emergente que avançava com o empreendedorismo de Thomas Cook junto ao transporte ferroviário que se massifica e se populariza, segundo a turismóloga da Universidade de São Paulo professora Mirian Rejowski, baseada em seus estudos e leituras:

[...] Cook começou a tratar as viagens que organizava, porque acreditava que elas abriam a mente e aumentavam a sede pelo conhecimento, no processo de quebra de barreiras de classes e nacionalidades, promovendo a tolerância e a benevolência cristã entre os homens. Também argumentava a favor dos benefícios do contato com a natureza e da recreação. Para ele, todos, ricos e pobres, tinham o direito de viajar, e a ferrovia havia chegado para tornar isso possível.

Se Thomas Cook foi pioneiro do turismo utilizando-se de um pré-trade turístico possível e existente na metade do século XIX, a historiografia inglesa que o havia colocado em um papel secundário recupera-o posteriormente perante a história do turismo. Além do que entendemos que o próprio desenvolvimento desse fenômeno mundial resgata Thomas Cook do esquecimento e o resgata perante a historiografia internacional, essa parece ser a explicação mais plausível para essas dúvidas sobre o personagem.

Com isso, não invalidamos nossas afirmações primeiras da hegemonia que a história inglesa tem sobre as historias nacionais, o que alertamos de forma mais sistemática é que historiadores ingleses minimizam o papel de Thomas Cook e a literatura brasileira sobre turismo, quando o aborda o faz quase sempre com o mesmo discurso, repetitivo, descritivo e até ufanista, mas descontextualizado da abordagem dentro dos parâmetros da economia política.

Comentários e Reflexões para Futuras Investigações

Em primeiro lugar entendemos que o fenômeno turismo já aparece sinalizado na realidade social desde o processo que o homem se organiza para a sua subsistência (caça, pesca e coleta). “A primeira condição de toda história humana é evidentemente a existência de seres humanos vivos” (Marx: 1976. p18). E para desenvolver essas atividades de subsistência e garantir a existência de categorias dadas pela categoria trabalho, a realidade movimenta essas atividades por meio do caráter da relação dialética entre o lúdico, lazer e o trabalho.

O trabalho para ser executado vai depender de rituais mágicos e, portanto não é entendido como castigo ou obrigação, mas sim, como algo livre de qualquer ato de opressão, pelo menos na sociedade igualitária, veja Karl Marx em mais um de seus inúmeros escritos:

[...] é a sociedade que regula a produção geral e me possibilita fazer hoje uma coisa, amanhã outra, caçar de manhã, pescar à tarde, pastorear à noite, fazer crítica depois da refeição, e tudo isto a meu bel-prazer, sem por isso me tornar exclusivamente caçador, pescador ou crítico.

Se trabalho expressa uma condição fundamental para a existência humana, o não trabalho é o outro lado da moeda e, portanto o lazer aparece quando surge o trabalho. O livro de Paul Lafargue: “O direito à Preguiça” é um alerta sobre isso, quando faz aquele relato dramático das condições de vida e da necessidade de diminuir drasticamente o tempo de trabalho das classes trabalhadoras.

O importante é demonstrar que o turismo segundo o desenvolvimento das relações de produção vai sendo sinalizado de formas diferentes porem associativas no decorrer do processo histórico, como fato para um argumento poderoso podemos citar o livro “Popol Vuh” do povo Maya-quiché da Guatemala encontrado pelo Frei dominicano Francisco Ximénez em 1701. O Popol Vuh foi escrito entre 1545 a 1555 segundo o historiador Paulo Suess que organizou o livro A Conquista Espiritual da América Espanhola afirma que. ”POPOL VUH, cujo autor é desconhecido, já leva em conta os estragos da conquista” (Suess: 1992. p. 36).

Apesar de o livro mencionar as alegrias e o modo de vida Quiché mostra também o contato como os espanhóis, quando em um discurso de lamentação afirma:

Así hablaban los reyes mientras ayunaban. Y los pueblos grandes y pequeños les llevaban piedras preciosas, metales, la miel más dulce, pulseras, esmeraldas y plumas azules.

Hubo muchas generaciones de hombres y reyes antes de que vinieran los españoles a nuestra tierra […}.

Esta obra por sua riqueza histórica, apesar de já expressar traços marcantes da dominação espanhola, apresenta um lado magnífico da sociedade Maya - quiché plenamente estratificada voltada para a prática do lazer / cerimonial e do esporte. Perante a história da humanidade o Popol Voh é um dos tesouros mais valiosos que foi salvo dos Autos de Fé que os espanhóis fizeram contra as chamadas idolatrias da civilização Maya. A queima de bibliotecas e de objetos sagrados foi imensa e decorrente dos processos inquisitoriais que os acusavam de coisas pertencentes ao diabo.

O destemunho que esse livro representa para o resgate da história Quiche abre caminhos pra entender os povos pré-colombianos de centro América, em que aparece uma civilização onde o gosto pelo rito, atos cerimoniais religiosos e mágicos começa pelo nascimento do ser, passa pela adolescência prepara a iniciação sexual, a união conjugal e a própria morte. Todas as relações sociais, portanto passam por um processo de leitura de um real montado por atividades lúdicas e de um lazer que vão sinalizar uma forma especifica de turismo naquele período histórico.

Em uma das muitas passagens do livro Popol Voh fica explicito que a sociedade Mayas cultua de forma intensa a integração do homem com a natureza no sentido da vida e da morte, desenvolvendo uma harmonia com os animais, no divertimento lúdico, ritual e na prática do deslocamento (viagens) por isso o império Maya se expandiu pelo continente. É esse ponto que queremos mostrar a sensibilidade de uma nação em que a sua existência funde-se num sincretismo natureza, homem e animal:

Como sentián que el final de sus días estaba próximo, Balam-Quitzé, Balam-Acab y Mahucutah empezaron a despedirse de sus hijos. Iqui-balam no tuvo ningún hijo. Cantaron porque tristeza sentiían en sus corazones cuando se despidieron de sus hijos en la cima del cerro Hacavitz.

- Hijos, nosotros nos vamos y no volveremos; ya se acaban nuestros días, ya hemos cumplido nuestra misión; cuiden sus casas y su pueblo; planten la tierra y recuerden el lugar del que hemos venido. En memoria de nosotros les dejamos este presente. Así les dijeron mientras les entregaban un envoltorio cerrado y cosido. No supieron qué contenía adentro porque nunca abrieron el envoltorio; solamente lo guardaron con mucho cuidado.

Y simplemente desaparecieron nuestros padres y abuelos. No estaban enfermos; no sentían dolor ni agonía. Como sólo desaparecieron, no fueron enterrados por sus mujeres y sus hijos; sólo quemaron copal ante el envoltorio. Así fue el fin de Balam-Quitzé, Balam- Acab, Mahucutah e Iqui- Balam, nuestros primeros padres.

Los hijos no olvidaron los sabios consejos de sus padres. Decidieron un día ir a visitar en el oriente el lugar de dónde habían venido. Tres fueron los que hicieron el viaje: Cocaib, Coacutec y Coajau. Se pusieron en camino; pero antes se despidieron de sus hermanos y parientes:

- Volveremos; no moriremos.

Seguramente pasaron sobre el mar antes de llegar donde el señor Nacxit, monarca del oriente. Nacxit los recibió y les dío las insignias del poder y de la majestad. De allá vienen los insignias del Ahpop Y del Ahpop- Camhá. Les entregaron polvos de diferentes colores, perfumes, flautas, la señal del tigre, del venado, del pájaro, el caracol, plumas de diferentes colores. Todo vino de Tulán, del

Esta referencia contida no interior do livro dos Mayas, demonstra uma sociedade em que o culto aos deuses é o motor de sua história, segundo o escritor colombiano César Valencia Solanilla em um texto na internet comenta:

Los mayas, al igual que los aztecas, tenían un gusto particular por los ritos y las ceremonias, las fiestas, los carnavales y todas estas formas ceremoniales colectivas en que se combinaban la danza, la música y el canto. Periódicamente se representaban piezas de índole religiosa, épica, histórica y burlesca, que sirvieron para mantener viva la memoria cultural de su pasado. La mayoría de estas obras tenían carácter didáctico, pero fueron duramente perseguidas por los españoles, que veían en estas formas artísticas la expresión de la idolatría y la resistencia al poder de la corona. Al parecer existieron muchas pequeñas obras dramáticas, vinculadas con la celebración de las cosechas y la agricultura, como el llamado Festival de los Elotes, que es un canto a la tierra para solicitarle sus favores, o los festivales de celebración del maíz.

Uma segunda questão a ser analisada é que a literatura sobre Thomas Cook existente no Brasil traduzida para o português, com exceção de algumas obras que já mencionei neste trabalho se apresenta de forma limitada nas referencias a esse personagem. Os discursos se restringem a dados bibliográficos pouco contextualizados no processo de desenvolvimento do capitalismo.

O acesso à literatura em inglês não é fácil de ser encontrada como também em espanhol, nossas bibliotecas em termos de obras sobre o fenômeno do turismo e da produção literária latino-americana mantêm ainda grande timidez na busca desses assuntos Essa situação amparada ao fato de que o ensino no Brasil historicamente primeiramente esteve ancorado nas idéias européias e posteriormente norte-americanas, acabou relegando a um papel secundário as visões de latinidade, esquecemos e muitas vezes nós negamos a sermos latinos.

Essa repulsa pelo continente latino-americano nos desvia de nossas raízes étnicas e produz uma literatura brasileira que tentou resgatar essa latinidade esquecida, entre os vários intelectuais contemporâneos que assim procederam podemos citar as obras de Darcy Ribeiro e Octavio Ianni.

Uma última questão a ser mencionada é que a maioria dos professores responsáveis pelas disciplinas especifica do turismo de uma forma ou de outra dão uma ênfase demasiada (forte) a Thomas Cook como o iniciador do turismo no mundo. Essas leituras que são passada aos alunos acabam muitas vezes produzindo as seguintes compreensões:

1- O personagem histórico Thomas Cook, só se tornou conhecido e considerado pela literatura inglesa e mundial quando foi recuperado por via dos estudos sobre o fenômeno turístico que começaram a ser objeto de interesse do capitalismo e dos centros de pesquisa. Por esse motivo, como mencionamos anteriormente no início deste trabalho, os grandes historiadores ingleses conhecidos mundialmente em nenhum momento cita-no. Essa omissão pode vir a ajudar a comprovar que o mesmo desempenhou na história da nação inglesa um papel de pouco destaque para o conjunto das modificações estruturais que estavam ocorrendo na época.

Apesar dessas reflexões e do esforço em querer entender o valor de Thomas Cook para a história do turismo, a compreensão desse personagem no cotidiano do meio acadêmico e estudantil nós leva as seguintes indagações:

A) O turismo começou na Inglaterra com o desenvolvimento do capitalismo;

Pergunta-se: Antes do capitalismo não havia turismo? Será que as categorias mais simples não poderiam estar exprimindo relações subordinadas de um todo mais desenvolvido? Como comenta Karl Marx no “O método da Economia Política”.

A categoria turismo é resultado do desenvolvimento do processo histórico e, portanto sua existência aparece sob diferentes tonalidades e em períodos diversos por meio de manifestações consideradas travestidas em outras categorias que na verdade são expressões derivadas do turismo, isto é, aproximações de um todo mais desenvolvido. Assim com esse entendimento, o turismo não pode ser compreendido como sendo algo que aparece de repente como aqueles que acreditam que esse fenômeno surge com o capitalismo e na Inglaterra.

Ocorreu é que o turismo sempre esteve presente na realidade social, porém sua manifestação durante a história da humanidade surge sob diferentes e aproximadas essencialidades. Com esse pressuposto claro da existência do fenômeno turístico na história da humanidade, a nação que estiver com os meios de produção mais desenvolvida consegue produzir um Thomas Cook que revolucionou na prática e organizou o chamado turismo moderno.

Portanto, apesar da Inglaterra ter saído na frente não foi ela que inventou o turismo e as viagens, pois as mesmas são frutos do surgimento dos homens, por isso a historiografia mundial sobre o turismo deve ser rediscutida perante a história das civilizações Incas, Mayas, Astecas e Guaranis. Vamos deslocar o eixo das discussões sobre a historia do desenvolvimento da humanidade de uma visão eurocentrista para uma outra fundada na volta de nossa latinidade e descobrir que a história da civilização da humanidade é o resultado de todo um processo de etnias, culturas e sistemas que estão dentro de uma determinada “economia política” em que todos os povos latinos devem escrevê-la, pois são os atores da sua civilização, como comenta o historiador cubano Raúl Enrique Gómez Treto:

La historia latinoamericana – y caribeña – se há presentado con inmoderada frecuencia como una historia marginal, periférica, en relación con las historias supuestamente centrales de la humanidad: fundamentalmente con la historia eurocentrista. Es cierto que aún hoy es mucho lo que se ignora de la llamada historia precolombina de América, pero también es mucho lo que vamos desvelando, descubriendo, y que nos fuerza a recomponer y redimensionar en forma más realista, proporcionada e integral nuestra historia regional en relación con la del resto del mundo.

Finalmente registro que a literatura sobre o fenômeno turístico em inglês, francês e até espanhol, existente no Brasil “parece” não ser de fácil acesso para estudiosos e pesquisadores. Além do que nossas editoras apresentam certa timidez mercadológica para traduzir obras importantes nesse campo. Esse fato não deixa de ser também resquícios fortíssimos de uma base de preconceitos para com esse assunto. Bem como, a facilidade de traduzir algumas obras depende do interesse que as editoras estrangeiras dão a alguns escritores específicos.

Com isso concluímos que a hegemonia de dominação de uma historiografia pelas nações mais desenvolvidas a outros países é uma realidade, que permanece na literatura universal. E merece ser refletido com maior profundidade como é o caso de Thomas CooK.

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