DELOS: Desarrollo Local Sostenible
Vol 7, Nº 19 (Febrero 2014)


ETNOCONHECIMENTO DE PLANTAS MEDICINAIS E RITUALÍSTICO DA COMUNIDADE SÃO FRANCISCO NO CAREIRO DA VÁRZEA - AMAZONAS - BRASIL

 



Francisca de Jesus Pimentel da Silva (CV)
Therezinha de Jesus Fraxe (CV)
tcheska_22@hotmail.com
Universidade Federal do Amazonas


 



Resumo

As plantas medicinais têm na sua utilização uma grande importância popular e com o objetivo de compreender esse significado o presente trabalho caminha na interfase da cultura, saúde e ciências, abordando o etnoconhecimento da comunidade São Francisco do Careiro da Várzea no Amazonas, pois conhecendo comunidades tradicionais que aprenderam a sobreviver com natureza, e registrar seus aspectos sociais e éticos, possibilitará a utilizar uma visão interdisciplinar, relacionando o mundo material, simbólico e social os quais foram estabelecidos por esse povo pela cultura com o meio. O desvelamento do objeto de estudo parte da análise dos discursos descritos no Livro Cultura Cabloca-Ribeirinha Mitos, lendas e transculturalidade de Therezinha Fraxe 2ª edição. A análise obtida nos permite afirmar que a Comunidade São Francisco estar ligada intimamente ao uso de Plantas Medicinais, assim é possível ter uma base dos conhecimentos dos tradicionais, através de seus relatos obtidos durante um longo período de convivência que Therezinha Fraxe teve nessa comunidade. Dessa forma, foi plausível conhecer as plantas medicinais mais utilizadas, verificando suas indicações terapêuticas e procedência, destacando também a discussão sobre a prática desse conhecimento popular em relação à ciência sobressaindo o valor do conhecimento empírico agregado principalmente aos grandes conhecedores dessa prática, os rezadeiros, os benzedeiros e os curandeiros e suas histórias de vida.

Palavras-chave: comunidades tradicionais - plantas medicinais - Amazônia.

ABSTRACT

Medicinal plants have their utility in a wide popular and important in order to understand the significance that this work goes in interphase culture, health and sciences, addressing the community ethnoknowledge San Francisco Careiro in the Lowland Amazon because knowing traditional communities who have learned to survive with nature, and register their social and ethical aspects, allow to use a multidisciplinary approach, relating the material world, symbolic and social which were established by these people with the culture medium. The unveiling of the object of study is the analysis of discourse described in Book Culture Cabloca-Riverside Myths, legends and transculturality of Therezinha Fraxe 2nd edition. The analysis obtained allows us to say that the San Francisco Community to be closely linked to the use of medicinal plants, so you can have a traditional knowledge basic, through their reports obtained over a long period of coexistence that had Therezinha Fraxe this community. Thus, it was possible to know the medicinal plants used more by checking their therapeutic indications and origin, highlighting also the discussion on the popular knowledge's practice about science excelling value of empirical knowledge mainly to connoisseurs of this practice, the rezadeiros, benzedeiros and the healers and their life stories.

Key words: traditional communities - medicinal plants - Amazon.

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  1. INTRODUÇÃO

A pesquisa com plantas medicinais consiste em um estudo que compreende a interpretação do conhecimento, do significado cultural e dos usos tradicionais de elementos da flora (CABALLERO, 1979). Nesse contexto, destaca-se o papel das comunidades que cultivam espécies vegetais, possuindo o hábito de utilizá-las com finalidade terapêutica. Assim a relação homem-natureza considera-se de extrema importância para o entendimento de como as comunidades locais percebem o meio a sua volta, bem como interagem com o mesmo (AMOROZO, 2007).
A utilização de plantas medicinais é uma das mais antigas práticas empregadas para tratamento de enfermidades humanas. Muito do que se sabe hoje a respeito de tratamentos com plantas provém do conhecimento popular, o que permite definir segundo Posey (1992), que o conhecimento popular seja um acúmulo de práticas adquiridas por determinada sociedade ao longo do tempo, como resultado de seus valores, de suas crenças, de suas descobertas e de suas vivências experimentadas. Os resultados de todas essas experiências compõem o acervo cultural dessa sociedade. É um sistema integrado de crenças e práticas características de grupos culturais diferentes, que além de fornecer informações gerais, despontam o conhecimento especializado sobre remédios e rituais (POSEY, 1992), definindo o conjunto de saberes e saber fazer a respeito do mundo natural e sobrenatural, transmitido oralmente, de geração em geração (DIEGUES; ANDRELLO & NUNES, 2001).
As populações locais, em geral, possuem uma proximidade muito grande com o meio a sua volta. Isto ocorre, dentre outros motivos, pela necessidade de explorar do meio, recursos que serão utilizados para as mais variadas finalidades. Essas populações possuem geralmente um alto conhecimento sobre o ambiente (AMOROZO, 2002). Esse saber local se destaca com relação ao tratamento de diferentes males que perturbam/afetam o ser humano os quais são geralmente evidenciados em conversas com as pessoas mais idosas tais como os raizeiros, parteiras e benzedeiras que por um motivo ou outro, carregam consigo essas preciosas informações, recebidas dos ancestrais (GUARIM NETO, 2006).
A recuperação dessas informações é altamente necessária, tendo em vista que elas servem de subsídio para o conhecimento do potencial medicinal da flora e, no caso específico, da região amazônica, pois ao analisar vários trabalhos sobre os etnoconhecimentos de comunidades tradicionais da Amazônia, Diegues & Arruda (2001), concluíram que essas populações construíram ao longo das gerações, um conjunto considerável de conhecimentos e práticas sobre o mundo natural fundamental para sua sobrevivência na floresta e á beira dos rios e lagos.
Albuquerque & Andrade (2002) comenta que uma vez perdido, o conhecimento advindo do conhecimento popular se torna irrecuperável. Do mesmo modo Guarim Neto; Moraes (2003) adverte que os recursos naturais, se extintos, não mais se encontrarão disponíveis às futuras gerações. Assim, o “Saber Local”, contextualizado cultural e ambientalmente, está cada vez mais chamando a atenção de pesquisadores de distintas áreas (AMOROZO, 2002). Portanto, uma das formas de realizar esse registro é através do relato oral, como anteriormente mencionado, o que se torna a maior fonte de dados e transmissão de conhecimentos de uma geração para outra e, por conseguinte esses ensinamentos e tradições são preservados e transmitidos por meio de rituais, músicas, orações e conversas (MARQUETTI & SILVA, 2008).
Dessa forma as observações populares do uso de plantas medicinais ajudam na exposição dos seus valores, sistematizando os usos terapêuticos de diversas espécies através da observação do uso das mesmas. Alguns autores argumentam que esse conhecimento pode complementar o conhecimento científico ao fornecer experiências práticas pela vivência nos ecossistemas e, por imediato, responder a mudanças neste próprio ambiente (BERKES et al., 1998; HANAZAKI, 2002).
Sendo assim, considerando sua relevância, o etnoconhecimento ou conhecimento popular, vulgarmente conhecido como senso comum, não deve ser desvalorizado, pois apesar de ser limitada sua veracidade tende ser objetivo e racional por estar ligado à percepção e a ação e por ser uma forma simples, porém coerente e instintivo de se conhecer com o contato direto do ser humano. Esse conhecimento contorna um saber diário, com características sensitivas e subjetivas e esse conhecer de como as pessoas utilizam os recursos naturais é de grande valor a construção do conhecimento científico (ALBUQUERQUE & ANDRADE, 2002).
Dessa forma, tendo em vista a importância do conhecimento popular especialmente na Amazônia, este estudo fundamenta-se numa contribuição a valorização desse conhecimento exporta no Capítulo 2 “A comunidade São Francisco e o Mercado Adolfo Lisboa: Usos e Desusos das Plantas Medicinais” do Livro Cultura Cabocla-Ribeirinha Mitos, lendas e transculturalidade 2ª edição de Therezinha Fraxe, destacando o significado e uso de plantas medicinais através do registro de relatos dos moradores da comunidade São Francisco no Careiro da Várzea, Amazonas.

  1. MATERIAL E METÓDOS

2.1 Descrição da proposta
Foi conduzido um estudo exploratório e descritivo fundamentado na 2ª edição do Livro Cultura Cabloca-Ribeirinha Mitos, lendas e transculturalidade de Therezinha Fraxe. As metodologias utilizadas para a elaboração do presente trabalho foram às pesquisas bibliográficas, os dados e as entrevistas contidos no livro relatados pela escritora no capitulo 2 sobre “A comunidade São Francisco” no Careiro da Várzea, Amazonas. De posse dessas informações, procura-se refletir sobre a valorização do saber popular de plantas medicinais, no contexto do etnoconhecimento na dialética da fundamentação e preservação do conhecimento ribeirinho amazônico.

2.2 Área de estudo
O estudo foi realizado na Comunidade São Francisco (latitude: 03º 06’ 51,42’’ S e longitude: 59 º 51’ 06,16’’) localizada na Costa da Terra Nova, Distrito de Careiro da Várzea que pertence à Microrregião de Manaus no estado do Amazonas, a comunidade fica localizado a margem esquerda do rio Solimões, Médio Amazonas, distante aproximadamente 145 km em linha reta da capital (Figura 1).

         FIGURA 1. Ilha do Careiro da Várzea. Fonte: Folha Manaus - E - MI - 579.

A costa da Terra nova, esta localizada na porção ocidental da ilha do Careiro, a noroeste do Município do Careiro da Várzea /AM, domínio da unidade geomorfológica depósitos de inundações, formando verdadeiros terraços, onde sua restinga somente é transbordada nas enchentes que apresentam cotas superiores a 28,30 m (Fraxe, 2011). Na parte frontal da comunidade, observa-se um grande acumulo de sedimento, surgindo assim, outras terras, daí a denominação “costa da terra nova”. Nesta área, durante a vazante do rio, são utilizadas para o cultivo de culturas de ciclo curto. No período da cheia, estas terras ficam submersas, aparecendo somente as casa e sítios sobre a restinga.
A produção agrícola é a principal atividade econômica das famílias da São Francisco. A unidade familiar permite o envolvimento no processo produtivo que, consequentemente, torna-se responsável pela subsistência e geração de renda das famílias (FRAXE, 2011).  A autora ressalta que a população local se dedica ao cultivo de ciclos curtos, como, milho, feijão, hortaliças (coentro, chicória, cebolinha). Os legumes e hortaliças disponíveis na comunidade são cultivados, principalmente, no período do verão, que compreende o período de agosto a dezembro.

3 RESULTADOS E DISCUSSÃO
3.1 Conhecimento em relação às plantas medicinais
Os relatos descritos sucintamente por Therezinha Fraxe demonstra o grande período de convivência com os morados da comunidade de São Francisco, os quais demonstram seu modo particular de ver o mundo. A autora descreve um infinito conhecimento e métodos populares de tratamento de doenças através de plantas medicinais. Durante as longas conversas com moradores de São Francisco, o assunto doença curas e remédios infalivelmente vinham à baila (FRAXE, 2011).
Com referência ao uso das plantas medicinais citadas pelos entrevistados, foi possível descrever nomes de plantas e numerosos métodos de tratamento (Tabela 1).  Fraxe, (2011) ainda registrou os meios de evitar as doenças. Esse número de indicações se torna expressivo, pois apesar dos avanços tecnológicos e o desenvolvimento, o conhecimento e as informações sobre as plantas medicinais na comunidade não se deixam ultrapassar continuando assim presente na cultura desse povo.

TABELA 1- PLANTAS MEDICINAIS UTILIZADAS PELOS CABOCLOS-RIBEIRINHOS DA COSTA DA TERRA NOVA –CAREIRA DA VÁRZEA/AM.


ESPÉCIES

PARTE(S) DA PLANTA

O QUE CURA

Uma parte da planta, para curar uma só doença

AZEITONA

CASCA

Hemorródias

BICO-DE-ANUM

LEITE

Diarréia

BURUTI

RAIZ

Inflamações

CAIMBE

LEITE

Hemorródias

CAJUAÇU

CIPÓ

Diarréia

CIPÓ-JABUTÁ

CIPÓ

Diarréia

CIPO-NEMA

CIPÓ

Defumação (espanta inseto)

COPAÍBA-CURIARANA

CASCA

Dores de fígado

ENVIRA

CASCA

Defumação (espanta inseto)

IPADU

CASCA

Diarréia

JACAREÚBA

CASCA

Tosse

JUTAÍ

CASCA

Tosse

MACUCU

CASCA

Diarréia

MARIMARI

CASCA

Tosse

MARUPÁ

BATATA

Diarréia

MATA-PASTO

FOLHA

Vermes

MUIRATINGA

LEITE

Emplastro

MULATEIRO

CASCA

Diarréia

MURURÉ

CASCA

Reumatisto

OITCHI

CASCA

Inflamações

PARREIRA-DO-MATO

FOLHA

Picada de cobra

PUXURI

CASCA

Dores de estômango

SABUGUEIRO

FOLHA

Ferimentos

SARABATUCU

SUMO

Diarréia

SERINGA-DE-BARRIGA

CASCA

Diabetes

SOCOCÓ

CASCA

Diarréia

TARUMÃ

FOLHA

Depurativo

TAXI-BRANCO

CASCA

Hemorróidas

VASSOURINHA

RAIZ

Gripe

Uma parte da planta, para currar uma ou mais doenças

AÇAI

RAIZ

Inflamações e criar força no sangue (anemia)

ACARÁ-UAÇU

CASCA

Hemorróidas e diarréia

APUÍ

LEITE

Rasgadura (ferimentos) e emplastro

ARAÇA

CASCA

Dores de intestino, diarréia e hemorróidas

CAJÁ

CASCA

Inflamações, ferimentos, diarréia e dores de estomango

CAJURAMA

CASCA

Dores de barriga, hemorróidas e diarréia

CARAPANAUBA

CASCA

Dores de fígado, diarréia, baques, curuba (sarna), feridas no úteros, desmentidura (deslocamento, luxação), anticoncepcional, úlcera, malária, tosse e amarelão

CATAUARI

CASCA

Picada de cobra e rematismo

INGÁ

CASCA

Diarréia e dores de estômago

MARIMARI-SARSO

ÓLEO DA SEMENTE

Tosse, gripe e rouquidão

MUCURACÁ

FOLHA

Queimadura na cabeça e constipação

MUNGUBA

CASCA

Reumatismo, picada arranha, dores de fígado e baques

MURICI

CASCA

Tosse e diarréia

PARACANAÚBA

CASCA

Dores de estômago e fígado, infecção no instestino, inflamações de mulheres (dores no útero)

PARACUUBA

CASCA

Dores de estômango e fígado

PAU-D’ARCO

CASCA

Dores de rins, fígado e câncer (tumores)

PIRANHEIRA

CASCA

Dores de fígado, rins e estômango, ferimentos, diarréia, cicatrização, curuba, (sarna) e inflamações

SACACA

FOLHA

Dores de fígado, rins e estõmago

TAXI

CASCA

Diarréia e hemorróidas

Várias partes da mesma planta, para curar uma ou mais doenças

ANDIROBA

ÓLEO, CASCA E CASCA DA SEMENTE

Reumatismo, tosse, gripe, baque, antiiflamatório, cicatrizante e repelente de insetos

CAMACINHA

VIAGEM E BUCHA

Sinusite, dores de cabeça, gripe, baque e aborto

CASTANHA-DA-AMAZÔNIA

CASCA E FOLHA

Coceira, tiriça (anemia). Diarréia, inflamação e dores de garganta

CAXINGUBA

CASCA, FOLHA E RAIZ

Hepatite, dores de fígado e gripe

COPAÍBA

ÓLEO, CASCA DA SEMENTE E SUMO

Ferimentos, hemorragias, dores de fígado e barriga, doenças do ar (tuberculose), febre, doenças venéras, antiflamatório cicatrizante e contraceptivo

EMBÁUBA

CASCA E FOLHA

Pressão arterial

ERVA-DE-PASSARINHO

VARGEM E BUCHA

Inflamações

FAVA

CASCA E VAGEM

Empinge e coceira

JABUTI-MITA

CASCA-CIPÓ

Diarréia e dores de barriga

JUCÁ

VAGEM E BUCHA

Baques, tuberculose e câncer

LIMÃORANA

CASCA E LEITE

Inflamações, tumores e rasgadura

OEIRANA

ENTRE CASCA E FOLHA

Diarréia e diabetes

SUCUUBA

CASCA, LEITE E FOLHAS

Rasgadura, baque, tumores, inflamações no intestino e fígado, tosse, emplastar garganta, desmintidura (deslocamento, luxaçã) ferimentos, prevenção de natalidade, inflamação de mulher e câncer (tumores)

UCUUBA

CASCA E LEITE

Rasgadura, inflamações, vermes e febre

UXI

CASCA E SEMENTE

Febre, dores de fígado, diarréia, tosse, inflamação e contraceptivo

Fonte: Dados de pesquisa de campo.

A astúcia dos morados entrevistados em relação às plantas medicinais revela maneiras distintas de obtê-las. A mais evidente é a presença do cultivo no quintal da própria casa, porém, muito ainda se usa a obtenção dessas plantas no ambiente natural, tais como na mata. De tal modo Fraxe, (2011) narra que no quintal de quase todas as casas da Costa da Terra Nova, há um caixote sobre varas, denominado jirau e no quais várias dessas plantas são cultivadas. Quanto às partes da planta mais usada para produção dos remédios caseiros são evidenciados o uso de cascas, raízes e folhas, as quais são conservadas em sacos plásticos armazenando-as para posteriormente serem usadas.
Com relação à origem do conhecimento e utilização das plantas se dá de forma prática e dinâmica que envolve um processo de aprendizagem e transmissão seguindo a limiar de pais, avós, padrinhos ou de próprias experiências repassando-o de geração para geração.

3.2 Relação doença e cura através das plantas medicinais
Segundo Fraxe, (2011) conceito que os moradores de São Francisco fazem da doença é de certo modo duplo e acreditam em causas naturais e não naturais. Essa classificação determina que o tratamento para as doenças de causas naturais, tais como sarampo e papeira é através de remédios caseiros a base de plantas medicinais. Enquanto, os de causas não naturais como Quebranto, ventre caído e mau olhado acreditam que seja enviada pelos perigosos espíritos da selva e do rio, ou mesmo que seja resultado de um castigo imposto por algum santo e seu tratamento consiste em orações associadas também a plantas medicinais. O tratamento dessas doenças é orientado por pessoas muitas vezes por especialistas, os conhecidos curandeiros, benzedeiras e rezedeiras que usam de fórmulas mágicas a base plantas medicinais para curarem as inúmeras variedades dessas doenças.
Com relação aos remédios receitados por essas pessoas, tornam-se corriqueiros e podem ser indicados também por qualquer um que tenha o conhecimento. Observa-se que as mulheres são mais frequentes em conhecer os nomes e o uso dessas plantas. Uma característica evidenciada é que quase todas as famílias de São Francisco possuem vidros de remédios caseiros em casa para eventual uso.
  Esse universo do saber popular das plantas medicinais do caboclo-ribeirinho de São Francisco é ricamente relatado no trabalho de Fraxe (2011). É retrata receitas para as práticas de cura ou manutenção do bem estar à saúde desse povo usada em diversas combinações, mas que geralmente são preparadas e usadas em forma de chá, furmigações (produzem uma fumaça considerada curativa) ou banhos. Nem todos esses remédios são específicos contra doenças, mas muitos deles podem ser tomados como preventivos ou como fortificantes para determinados fins.

“As folhas do manjeiricão aromáticos são usadas para chá que se toma contra o resfriado comum ou a tosse. O suco da casca do ‘pracaxi’, misturado com um pouco de d’agua, coado através de um pedaço de pano e deixado do lado de fora, à noite para apanhar sereno, é um poderoso emético utilizado no tratamento de vermes intestinais. Para preparar um purgante forte, apanhe nove sementes de piãozeiro, corte-as ao meio, jogue fora a pele que as envolve, amasse metade de cada semente e extraia o suco que deve ser ingerido com uma pequena xícara de café. Para os olhos inflamados, rale a raiz do ‘japui’ e misture-a com leite materno – ou caso não disponha deste, com clara de um ovo, - colocando a mistura sobre os olhos. O reumatismo pode ser tratado por meio de ‘um banho’ quente ao sol durante três dias e ao sereno durante três noites.” (Fraxe, 2011 p. 217).

Fraxe (2011) garante que esses métodos terapêuticos e remédios utilizados pelos moradores de São Francisco são solidamente fundamentados em fatos observados; outras, porém, baseia-se em conceitos mágicos e sobrenaturais. Contudo, boa parte tem base cientifica, enquanto outros são prejudiciais para o doente, mas de qualquer modo quer sejam bons e mau à luz da medicina científica moderna o fato é que a população conseguiu sobreviver no ambiente amazônico por vários séculos.

3.3 A relação ciência e uso popular através das plantas medicinais
Fraxe (2011) deixa claro que a maioria dos moradores São Francisco recorre às plantas medicinais, aos curandeiros nativos e às formulas sobre naturais antes de apelarem para a ciência e seja por motivos econômicos, pela distância ou simplesmente pela falta de fé na ciência, a medicina moderna representa um ultimo recurso.
O conflito entre as tradições populares e a ciência é inevitável, porém ambos têm muito a contribuir pela possibilidade de aproximação médica com os remédios utilizados empiricamente e que podem vir a dar respostas a interrogações de pesquisadores que procuram a cura de diferentes doenças, pois entre vários contextos esses princípios utilizados a base de plantas medicinais que contam com um uso centenário, poderá permitir justificar sua eficácia em estudos de laboratório, os quais são indispensáveis para poder descartar a toxicidade dos mesmos.
Porém, Fraxe (2011) destaca que os novos métodos, técnicas e conceitos fundamentados na ciência só serão plenamente aceitos quando as teorias científicas de sua motivação forem integradas na concepção universal de um povo. Alguns métodos poderão ser aceitos mecanicamente como práticos, especialmente quando forem incutidos na população por algum fator externo. As pessoas poderão auferir grandes benefícios de tais inovações, mas, sem que compreendam por si mesmas a base de tais atividades, é pouco provável que continuem a adotá-las, uma vez removida a pressão exterior.

  1. CONSIDERAÇÕES FINAIS

O etnoconhecimento expressa um locus epistêmicoconstituído pelas expressões-sentidos - formação, aprendizado, transmissão e perpetuação (SANTOS, 2008). Isso permite reconhecer o expressivo acervo de saberes da comunidade São Francisco referente ao uso de plantas medicinais, comunidade esta que configura espaço de relação entre homem, meio e crença representando a singularidade da cultura do ribeirinho da Amazônia.
O registro das ricas informações da comunidade São Francisco se torna importante para valorização dos processos utilizados na terapêutica popular e as suas mais variadas formas de uso, plantas as quais são cultivadas outras coletadas no entorno da comunidade, ou trocadas, destacando assim a preferência dos moradores a medicina tradicional. A transmissão e o aprendizado desse conhecimento acontecem no dia-a-dia em processos dinâmicos, porém, o câmbio cultural principalmente rádio e televisão e pelas relações de contato externas têm sido a causa para que muitos elementos dessa medicina tradicional fiquem comprometidos.
É imprescindível destacar que a prática desse conhecimento que estar presente na comunidade precisar da melhor compreensão, no diz respeito à execução de projetos na área de saúde pública adaptando à realidade sociocultural, edificando laços entre o saber cientifico e o popular permitindo a prática adequada e a produção do conhecimento, investigando, documentando, e principalmente, restaurando através de pesquisas que deem suporte para que isso não se perca com o tempo.
 Assim a comunidade São Francisco do Careiro da Várzea possui um papel fundamental na conservação do saber popular das plantas medicinais, sendo necessário que haja o registro e decodificação desse etnoconhecimento para que sejam utilizados simultaneamente com estudos mais consistentes.

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