Contribuciones a las Ciencias Sociales
Octubre 2014

ALGUNS APONTAMENTOS EM RELAÇÃO AO TRÁFICO DE DROGAS NA FRONTEIRA: CORUMBÁ/BRASIL – PUERTO QUIJARRO/BOLÍVIA



Giovanni França Oliveira (CV)
vivendo5000@gmail.com
Universidade Federal de Mato Grosso do Sul



Resumo

Este artigo pretende compreender algumas das dinâmicas específicas do comércio fronteiriço de drogas na fronteira Brasil-Bolívia e os processos de integração informal, decorrentes da cidade de Corumbá/ Ladário (Brasil) – Puerto Quijarro/ Puerto Suárez (Bolívia). Além disso, buscar-se-á entender esses processos a partir da visão dos atores sociais envolvidos neste tipo de comércio na cidade de Corumbá, que se configura não apenas como um ponto de passagem do comércio internacional de drogas (sobretudo da cocaína e da pasta base), mas também como um mercado consumidor dessas substâncias ilícitas.

Palavras chaves: Fronteira, Corumbá, Tráfico de drogas, Redes ilegais, Bocas de fumo.

ALGUNAS NOTAS EN RELACIÓN CON EL TRÁFICO DE DROGAS EN LA FRONTERA: CORUMBÁ/BRASIL – PUERTO QUIJARRO/ BOLIVIA

Resumen
En este artículo se pretende comprender algunas de las dinámicas específicas del comercio transfronterizo de drogas en el Brasil-Bolivia y los procesos de integración informal que resulta en la ciudad de Corumbá/Ladário(Brasil)-PuertoQuijarro/PuertoSuárez(Bolivia). Además, se tratará de comprender estos procesos desde la perspectiva de los actores sociales involucrados en este comercio en la ciudad de Corumbá, que constituye no sólo como un punto de tránsito para el tráfico internacional de drogas (especialmente cocaína y pasta base), sino también como un mercado de consumo de estas sustancias.

Palabras claves: Frontera, Corumbá, Trafico de drogas, Redes ilegales, Bocas de fumo.

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Para citar este artículo puede utilizar el siguiente formato:
França Oliveira, G.: "Alguns apontamentos em relação ao tráfico de drogas na fronteira: Corumbá/Brasil – Puerto Quijarro/Bolívia", en Contribuciones a las Ciencias Sociales, Octubre 2014, www.eumed.net/rev/cccss/30/drogas.html

INTRODUÇÃO
Na região oeste do Estado de Mato Grosso do Sul fronteira com a Bolívia, localiza-se a cidade de Corumbá. Com uma extensão territorial de 64.962,720 quilômetros quadrados com uma população total de aproximadamente 107.347 pessoas (IBGE, 2013). Próximo a Corumbá ainda do lado brasileiro da fronteira a sete quilômetros, localiza-se a cidade vizinha de Ladário. Corumbá faz fronteira com a cidade boliviana de Puerto Quijarro situada na província de Germán Busch no leste do Departamento de Santa Cruz /Bolívia, e um pouco mais a diante de Puerto Quijarro está localizada a cidade de Puerto Suarez capital da província.

Apesar de cada uma destas cidades de fronteira ter processos históricos específicos, a aproximação entre elas, ocorre de fato, a partir da construção da antiga ferrovia Noroeste-Brasil, impulsionando a integração entre essas cidades na primeira metade do século XX (OLIVEIRA, 1998).
Logo na segunda metade do século XX, os investimentos do banco mundial na Bolívia impulsionaram vários setores produtivos daquele país, principalmente o setor agrário (plantações de soja) contribuindo com o setor exportador boliviano, repercutindo diretamente na fronteira, aumentado o fluxo de capital e de pessoas.  Outro ponto importante são os investimentos e a dinamização da economia local transfronteiriça.
Importante frisar que estes investimentos financiados pelo Banco Mundial tiveram consequências importantes nas politicas contra o narcotráfico na Bolívia e nos países andinos. Inseridas nesses incentivos a produção, estava politica de criminalização da folha de coca na Bolívia e nos países andinos, criminalização impulsionada pela politica da guerra contras a drogas dos Estados Unidos na década de 1980.
Cabe ressaltar os estudos de Olmo (1989, 1991, 1994) tece importante análise da conjuntura das relações internacionais que se posicionam contrárias à produção, venda e consumo de drogas ilícitas no mundo. Confronta informações de duas convenções e nota mudanças radicais nas politicas internacionais de enfrentamento ao uso de drogas. Enquanto a convenção de 1961, o foco principal das politicas estatais era a proteção à saúde individual, na convenção das nações unidas de 1988 o discurso das drogas havia mudado para o comprometimento da segurança nacional, alterando radicalmente as formas de tratamento da questão, a partir de então o termo “o problema das drogas”, é substituído pelo “problema do narcotráfico”, agora com a mais alta prioridade, afetando diretamente os países da América Central e do Sul, à internacionalização da política interna estadunidense de combate as drogas, que ficou conhecida nos anos 80 como a “guerra contra as drogas” estava concluída (OLMO, 1991). Devido a essas convenções foram criadas e aprimoradas diversas legislações para o enfrentamento (ao narcotráfico) refletindo há hegemonia( Politica e Militar) estadunidense no continente.
“CICAD se constituyó formalmente el mes de noviembre de 1986, durante la reunión de la Asamblea de la OEA, en ciudad de Guatemala. En la misma, se aprobóla Declaración de Guatemala: Alianza de las Américas contra el narcotráfico, La cual proclama: «Declarar al narcotráfico como un crimen de amplio alcance internacional que debe ser combatido por todos los Estados miembros a fin de lograr su total erradicación del continente” (OLMO 1991, p.107)
Á Comissão Interamericana para Controle e Abuso de Drogas (CICAD) tinha como proposta de ação o desenvolvimento jurídico, prestava assistência aos países membros de OEA (organização dos estados americanos) com finalidade de adequarem as leis dos seus respectivos países às propostas desenvolvidas, coma finalidade de padronizar as leis antidrogas na América Latina.
A criação da CICAD foi apenas uma das medidas adotadas pela OEA em relação ao combate ao narcotráfico nos anos de 1980. Medidas polemicas foram implementadas, como financiamentos estadunidenses aos países historicamente plantadores de coca, para erradicação da folha, investimentos no setor de inteligência nos órgãos de segurança e defesa ( reestruturação das forças militares e policiais para lutarem contra os narcotraficantes). Operações como Blast Furnace, Snowcap,são exemplos de atuações estadunidenses em países como Bolívia e Peru e mais drasticamente a intervenção militar no Panamá onde depuseram o presidente do país (OLMO 1989).
Essas ações estão relacionadas à ampliação na produção de cocaína, que tinham como destino abastecer os grandes mercados consumidores nos EUA e na Europa e o mercado consumidor em expansão a América Latina a partir da década de 1980.  Sendo assim, esse aumento vertiginoso no consumo de cocaína pelo mundo foi acompanhado pelo crescimento de poder dos grandes cartéis da droga nos países produtores (principalmente na Colômbia).  Neste período, para abastecer tais mercados ampliam-se as redes ilegais transnacionais de distribuição de drogas, movimentando a “economia paralela” em bilhões de dólares no mundo (STAIMAN 1995, FILHO e VAZ, 1997).
Na mesma década, percebe-se o reordenamento do tráfico internacional de drogas nas Américas, tanto nos meios de exportação, quanto na sua própria estrutura de funcionamento. Devido à invasão do Panamá pelos Estados Unidos, tentava-se fechar o cerco aos grandes cartéis do narcotráfico que atuavam nesse paraíso exportador de drogas caribenho. Para escapar desta restrição, um dos maiores cartéis do tráfico de drogas da Colômbia, o Cartel de Medellín, reordenou sua rota da exportação de drogas, voltando suas operações para o território brasileiro anteriormente secundário neste comércio (DEL OLMO, 1991, STAIMAN, 1995). Fenômeno esse notado por Michel Misse (1999) com aumento da oferta de cocaína nos morros do Rio de Janeiro dinamizando o tráfico local na década de 1980.
Nesse contexto de dinamização comercial tanto na economia legal, quando na ilegal, a repressão ao narcotráfico nas Américas, insere-se a região das semi-conurbações de Corumbá-Ladário-Arroyo Concepcion-Puerto Quijarro-Puerto Suárez. Atualmente esta fronteira é considerada uma das principais rotas de escoamento da produção de pasta base e cocaína colombiana e boliviana que adentra ao Brasil.
Insta ressaltar que atualmente somente na cidade de Corumbá-MS, temos as seguintes instituições de segurança e defesa estatais: Exército, Marinha, Aeronáutica; Polícia Militar, Polícia Civil e Polícia Ambiental, D.O.F. (Departamento de Operações na Fronteira); a Polícia Federal e a Força Nacional; A Receita Federal e a Anvisa. Considerando o tamanho da cidade, com pouco mais de 100 mil habitantes, podemos destacar sua presença como ostensiva e abundante (COSTA; OLIVEIRA; CAMPOS 2012).
Observamos também a implementação na estruturação dessas forças na região, a partir da Estratégia Nacional de Fronteira, que prevê a intensificação das fiscalizações na fronteira. As principais operações de fiscalização fundamentadas neste programa são: as operações Ágata (vinculado ao ministério da defesa) e a operação Sentinela (vinculado á Secretaria Nacional de Segurança Pública – SENASP) (OLIVEIRA, 2013). Neste sentido Corumbá é uma cidade “bem vigiada” aos olhos do Estado, se comparada às outras cidades de fronteira 1 do Estado de Mato Grosso do Sul, que são rotas do tráfico e não contam com todo este aparato de vigilância.

Em contrapartida na Bolívia, é lançado o Plan de Seguridad Ciudadana Chachapuma,que prevê a ampliação ao combate a criminalidade nos diversos departamentos bolivianos como também a reestruturação de todas as forças de segurança publica bolivianas (BOLÍVIA 2013). Em Puerto Quijarro nota-se o incremento e reforço com o envio de forças adicionais para implementação no combate ao narcotráfico2 ( EL DEVER, 2013).
            Apesar do reforço nas políticas de segurança na região, as redes ilegais continuam atuantes, demonstrando a incrível adaptabilidade, bem como respostas rápidas a essas políticas. Usando, criando e recriando os espaços fundamentais na articulação da criminalidade transnacional. Atualmente esta fronteira, é considerada pelo Estado Brasileiro, uma das três3 principais portas de entrada de drogas ilícitas provindas da Bolívia e do Peru. Rota usada pela principal facção criminal brasileira o Primeiro Comando da Capital – PCC. Justificando assim a ampliação das políticas contra esse tipo de delito.

CORUMBÁ-MS: FRONTEIRA E SUAS REDES ILEGAIS

A fronteira (MACHADO, 1999) por ser a entrada do Estado, sempre estará sob os olhares atentos deste, uma vez que, frequentemente os limites institucionais são “driblados” pela população de fronteira e, dessa forma, nessas regiões fronteiriças são criadas legislações especificas pelo Estado para permitir uma melhor vazão de mercadorias que passam pelas aduanas. Como forma de dinamizar o comércio entre os países, por um lado, e para implantar medidas repressivas contra o comércio ilegal nessas regiões. (MACHADO, 1998)
Dessa forma, sempre haverá uma dualidade fronteiriça do comércio, pois tanto as atividades tidas como legais como as ilegais estão sempre presentes no cotidiano da população, já que qualquer um pode atravessar a fronteira e comprar produtos e regressar novamente sem pagar impostos, ou mesmo comprar produtos “contrabandeados” (GRIMSON, 2000), como podemos perceber na cidade de Corumbá, centro da cidade em suas principais ruas como também em um pequeno camelódromo situado em uma parada de ônibus no centro comercial da cidade.
São grandes as vantagens desse comércio de fronteira em que o valor ambíguo da moeda pode ser considerado como dos fatores determinantes para o aumento de todas as modalidades de comércio (legal ou ilegal) (COSTA, 2010). Como afirmam Telles e Hirata “[...] é justamente nas fronteiras porosas entre o legal e o ilegal que transitam de forma descontinua e intermitente, as figuras modernas do trabalhador urbano, lançando mão das oportunidades legais e ilegais que coexistem e se expõem nos mercados de trabalho” (TELLES e HIRATA, 2007, p.174).
A Fronteira pode ser considerada como um espaço aberto para negociação e para os fluxos de integração informal, onde o comércio de drogas ilícitas se configura como um dos principais elos da integração informal, seja pelo sucesso na relação através dos atores sociais que cruzam a fronteira, seja pela eficaz formação de redes, assim como pelo grande conhecimento do terreno por parte desses comerciantes e pela capacidade de adequação à rapidez das mudanças no controle e no mercado4 . Sendo assim, (COSTA, 2010) para entendermos as relações de uma cidade de fronteira como Corumbá e Puerto Quijarro, não podemos apenas utilizar os limites do Estado como único parâmetro de análise, ou seja, para examinarmos o comércio de drogas ilícitas na região de fronteira é preciso entender como os atores sociais locais cruzam a fronteira com a mercadoria e estabelecem comércio efetivo, em que as medidas de repressão geram respostas rápidas e criativas por parte dos comerciantes de droga.
Portanto, se faz necessário estudar as redes que interligam o país com a fronteira e a partir do estudo dessas redes, entender de qual forma ocorrem as possíveis entradas dessa mercadoria no mercado brasileiro (MACHADO, 1998). Corumbá, com uma fronteira muito extensa, quase toda ela banhada pela planície pantaneira, e a proximidade com os grandes centros urbanos brasileiros, torna-se rota importante do trafico de drogas internacional desde a década de 1980, tendo como principal via a BR 262 (OLIVEIRA, 2014).
Essa dualidade do legal e do ilegal na fronteira e as diferentes legislações de cada país fazem com que o comércio de drogas busque novas maneiras de atuar através de parcerias de ambos os lados da fronteira. Por tanto, o sucesso das redes dependem justamente da fluidez destas redes adotando não uma hierarquia piramidal em sua estrutura, mas sim estratégias estruturais horizontais. Usando a fronteira como recurso(OLIVEIRA E COSTA 2011), possibilitando o reordenamento constante das competências circulatórias (TELLES, 2007) fronteiriças, dificultando a fiscalização dos agentes de segurança pública dos países.    
Nesse contexto, os nichos de corrupção produzida pelas mercadorias políticas (MISSE, 1997) se multiplicam, envolvendo desde o tradicional bastião da corrupção da burocracia das aduanas, grupos sociais com negócios na faixa de fronteira até organizações sediadas fora da faixa de fronteira, mas que se aproveitam, de forma permanente ou intermitente, das oportunidades de lucrar com os diferenciais de legislação, de moeda (MACHADO, 1998).

Através dessas parcerias e barreiras (de fiscalização) será delimitado o valor da droga no destino final,considerando o “fator risco”, quanto maior a fiscalização por parte do Estado, maior será o risco e o valor da droga no mercado ilegal “[...]o comércio de drogas ilícitas tem o caráter de atividade transnacional, operando em escala global, porém seus lucros dependem do risco que representam nas diferentes legislações e o controle de limites de cada estado nacional[...]” (MACHADO, 1998, p.46). Dessa forma podemos considerar o comércio de drogas como uma atividade extremamente lucrativa, levando-se em conta o lucro advindo da ambigüidade de moedas que se manifesta desde o custo produção até o seu destino final em algum lugar do Brasil ou em algum lugar do mundo.

ALGUNS APONTAMENTOS EM RELAÇÃO AO TRÁFICO DE DROGAS NA FRONTEIRA: CORUMBÁ/BRASIL – PUERTO QUIJARRO/BOLÍVIA

Desde 2010, venho pesquisando a dinâmica das redes ilegais do narcotráfico nesta fronteira (Brasil-Corumbá/ Bolívia- Puerto Quijarro e Puerto Suarez), tendo como fonte de pesquisa a cidade de Corumbá, pesquisa essa realizada nas chamadas bocas (ponto de venda de drogas) ou nas bocas familiares (OLIVEIRA e COSTA 2012). Através de dados empíricos coletados por meio de entrevistas informais com “boqueiros5 ”, “passadores” e pessoas que dão assistência a usuários de drogas, percebe-se uma dinâmica bem diferente do comércio de drogas dos grandes centros urbanos brasileiros, que pretendo apontar logo adiante.
Esta dinâmica do comércio de drogas ilícitas na fronteira é extremamente complexa e norteia ao extremo as relações sociais entre os indivíduos que trabalham nesse tipo de comércio.
De acordo com Feffermann, o comércio de drogas é um trabalho como qualquer outro, já que obedece à lógica do capital e tem sua estrutura comparada com uma fábrica, demonstrando com tamanha veracidade, a complexidade das redes, como uma cadeia de produção que passa por várias etapas desde a produção até a chegada ao varejo e por fim, ao consumidor. Dessa maneira, são necessários muitos indivíduos trabalhando para abastecer o mercado com o produto e obedecendo a uma hierarquia verticalmente estabelecida. O que diferencia esse trabalho informal dos outros informais é a criminalização do produto, o que torna esse trabalho ilícito e extremamente perigoso. (FEFFERMANN, 2008).
Dentro desta estrutura horizontal do narcotráfico, Puerto Quijarro e Corumbá ocupam papeis importantes, mas distintos neste processo. A primeira informação importante para se entender esta dinâmica, é a não existência de bocas do lado boliviano da fronteira, só existem atacadistas, os chamados Pichicateiros (pessoas envolvidas em atividades ilícitas na Bolívia). Neste nó fronteiriço, Puerto Quijarro tem um papel importante nas contratações da droga no atacado, que serão distribuídos no varejo de drogas em Corumbá e Ladário, como também em contratações de grandes “cargas” para envio ao interior do Brasil.
Oliveira (2008) apresenta três tipos de organização de interação entre os traficantes6 de drogas, que constituem o crime organizado nos morros da cidade do Rio de Janeiro. Essas interações entre o traficante varejista e o atacadista variam em três níveis, baixo, médio e alto, ocasionado assim um grande risco em termos financeiros que esses traficantes passam, para obter a melhor mercadoria.
“Por exemplo, o traficante A do morro X compra droga de modo consignado ou à vista ao traficante-fornecedor residente na Rocinha. Nesse caso, A tem sua boca de fumo abastecida por outro traficante de outra localidade. Então ocorre a interação de baixa complexidade [...] O traficante- fornecedor da Rocinha recebe a droga de um fornecedor F que não mora no morro e tem contato direto com os países produtores. Nesse caso, a interação é de média complexidade. Contudo, o fornecedor F pode receber recursos de outro financiador Fi, compra a droga na Colômbia e abastece as bocas de fumo dos morros. Caso isso ocorra, a interação é de alta complexidade”(OLIVEIRA, 2008, p.154).
Na região da fronteira Corumbá-Puerto Quijarro, essa relação de complexidade entre os traficantes para obter a droga funciona de maneira distinta, já que, como é uma região de fronteira, o traficante varejista tem os contatos diretos do lado boliviano sem precisar de um intermediário atacadista brasileiro para obter o produto. Às vezes, a relação é tão próxima entre o varejista e o atacadista, que o próprio atacadista boliviano leva a droga na boca sem precisar de um passador. Nota-se, portanto que essa relação de complexidade para obter a droga não se aplicaria por completo na fronteira, já que nessa região é muito mais “fácil” obter determinados tipos de drogas, como a pasta base de cocaína e a cocaína, já que a Bolívia é um grande produtor desse gênero de droga.
Outro ator importante nessa trama complexa das relações sociais entre os traficantes da fronteira são as figuras do “passador” e o “mula”. Os passadores são empreendedores que atuam por vontade própria, mesmo sabendo dos riscos que esse tipo de trabalho lhes acarreta, disponibilizando até seus números de telefone para o fornecedor entrar em contato para uma próxima travessia da droga. Quando há, a contração do passador é por que a fiscalização esta bem “ativa” na região, já que não é preferível para o boqueiro contratar esta pessoa, pois diminui sua margem de lucro com o produto. Há também o atacadista do lado brasileiro da fronteira, que também tem seu papel na distribuição da droga no varejo da região, e são esses atacadistas que são os mais utilizados pelas boca na hora de adquirir o produto, já que com esses atacadistas as bocas podem comprar o produto em menor quantidade para a venda. Por exemplo: um boqueiro que for comprar a droga na Bolívia, pasta base de cocaína ou a cocaína, ele só comprará a droga se for a partir de duzentos e cinqüenta gramas (250g), e com o atacadista do lado brasileiro ele pode comprar a droga a partir de dez gramas (10g). O que facilita e muito para as bocas, que geralmente só vendem um tipo de produto (OLIVERA e COSTA, 2012, OLIVEIRA, 2013).
Neste processo de passagem da droga entre os limites estatais é necessário falar de uma figura “fantasma” que age recrutando principalmente os chamados mulas7 . O correria age nas distintas esperas estruturais deste comércio, é uma pessoa que goza de respeito dentro dessas redes.
Geralmente o correria 8é muito vinculado ao grande traficante, já que ele tem poder aquisitivo maior para fazer com que alguém contrate o mula sem que ele entre em contato com essa pessoas que levará a droga, diminuindo o risco do grande traficante de aparecer (funciona como uma proteção contra a polícia caso o mula seja pego e possivelmente delatá-lo à polícia). O boqueiro, quando tenta mandar o produto para alguma outra localidade fora da região, é ele próprio quem faz a contratação. Desta maneira a pessoa contratada, que para o grande traficante se torna uma pessoa desconhecida, para o pequeno traficante geralmente pode ser um vizinho ou até mesmo alguém de sua própria família.
Este estudo não pretende abarcar este comércio em sua totalidade, já que essa é uma das muitas formas que as redes ilegais podem operar. Entretanto, podemos visualizar o caráter transnacional deste comércio, que a partir do financiador, passa por uma rede extensa de distribuição do lado boliviano, até chegar à fronteira em questão, nas mãos do atacadista boliviano, que por sua vez distribui a droga nessa na região. São vários níveis organizacionais das redes ilegais, desde o financiador, que opera nas zonas de produção de coca, até as conexões locais, nos corredores de trânsito (Corumbá como uma cidade passagem) fundamentais para a distribuição da droga. Como a fiscalização, controle e repressão estão sempre buscando se atualizar diante das várias formas de entrada de droga no Brasil, os comerciantes de drogas também se atualizam buscando novas formas de burlar as forças de segurança. (Machado, 2007).
Outro ponto importante neste trabalho são as relações das bocas de fumo de Corumbá e Ladário, e como elas trabalham na venda da droga. Grillo (2008) mostra que esses pontos de vendas nas favelas do Rio de janeiro, apostam na visibilidade na conquista de territórios para a venda da droga. Por isso, a demanda de armas, já que há uma tensão de vários lados, polícia, traficantes rivais, milícias que tentam constantemente tomar o controle do território e da bocae com isso o controle do trafico de drogas da região. Se pensarmos esses pontos em Corumbá não há uma concorrência que faça ter a necessidade de uso de armamento, o que nos leva a pensar as manifestações de “cordialidade” ou compartilhamento entre as bocas da região. Essa “cordialidade” se faz necessária pelo fato de que á maioria dos pontos estão localizadas em casas de família, ou seja, são vendidas nas próprias casas dos traficantes, completamente diferente do tráfico dos morros do Rio de janeiro, em que a boca é apenas um local de venda e não um ambiente familiar. Estes fatos nos levam a pensar o porquê dessas bocas preferirem a invisibilidade ao invés de quererem ser notadas como nas favelas do Rio de janeiro. Dessa forma o ambiente familiar e as relações de vizinhança ocasionam essa atitude em querer passar despercebidos.  “A comparação da dinâmica territorial e organizacional dessas redes fornecem elementos importantes para a compreensão dos aspectos que contribuem ou não para a demanda pelas armas e toda a cultura de violência que se constrói em torno delas [...]”(GRILLO, 2008,p.131). A estruturação atual das bocas em Corumbá data da década de 1970 a partir de diversos núcleos familiares independentes não ocorrendo os chamados barrões do trafico como em outras cidades de fronteira (Ponta Porã e Coronel Sapucaia) do Estado.
As relações de vizinhança, parentesco, cidade pequena, a boca situada em sua própria casa, cada família operando seus negócios independentemente. O traficante se parece mais com um moderno gerente – montador de operações – pragmático/ negócios – do que com um chefe de organização mafiosa (PERALDI, 2007), rompendo com a visão mitológica do trafico de drogas no rio de janeiro ou em São Paulo onde estão sempre prontos para um confronto armado direto (OLIVEIRA e COSTA, 2012).
Em relação aos valores da droga tanto no atacado quando no varejo de Corumbá há preços variados, a partir de um real a chamada paradinha no caso da chamada “base” (pasta base de cocaína), a paradinha9 de cocaína a partir de cinco reais. No atacado comprasse de sessenta reais a caixa 10 de pasta base e até oitenta reais o valor máximo pago por uma caixa de cocaína.
No atacado, do lado boliviano da fronteira, o preço exato do quilo de pasta base de cocaína e da cocaína pode variar em relação à moeda de compra, real, dólar ou euro. É difícil apontar, uma vez que os preços de tempos em tempos sofrem altas e baixas, variando de três a nove mil dólares são geralmente vinculado ao preço do dólar estadunidense.  O fato é que tanto a pasta base quanto à cocaína podem ser trocadas por algum bem de consumo. Os carros ou motos são os mais visados       causando assim um aumento de roubos de veículos nessa região, já que muito possivelmente esse veículo será trocado pela droga, criando um sistema de reinvestimento, a partir de práticas ilegais(negócios de peças de motos e de carros paralelas na região).Além disso, este processo de operação do tráfico de drogas, associado ao roubo de veículos na fronteira mobiliza uma vasta rede de atores sociais e intermediários na economia criminal de fronteira.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

É importante ressaltar que, em na fronteira Brasil-Bolívia, em Corumbá, ao contrário dos grandes centros urbanos, como Rio de Janeiro e São Paulo, onde a economia ilegal do tráfico de drogas é extremamente hierarquizada para manter a coesão da organização criminosa - o que leva a um enorme esforço dos órgãos de segurança do Estado para desmantelar esse tipo de arranjo, criando verdadeiras crises na segurança publica nessas localidades. Facções criminosas, como o PCC e o Comando Vermelho são os principais condutores dessa economia nessas localidades11 .
Na fronteira em questão prevalece como forma de atuação comercial, uma gama de atores sociais que cruzam a fronteira diariamente, estabelecendo relações sociais diversas caracterizando esse comércio de drogas como um comércio fronteiriço transnacional. Esses atores sociais são empreendedores, se aproveitam do valor ambíguo da moeda para auferirem lucros elevadíssimos em cima do produto que, a partir daí, muitos investem seus lucros na economia legal, movimentam uma cadeia de relações de trabalho que está extremamente imbricado na fronteira.
O fato de a grande maioria dos pontos de venda de drogas estarem situados em casas de família torna-se um dos fatores preponderantes na forma de distribuição da droga na região e também para o grande número de pessoas envolvidas diretamente ou indiretamente nesse negócio, assim notamos o legal e o ilegal se entrelaçando, “todo mundo toca um pouco nos benefícios desse comércio”. O que se reflete na possibilidade de promoção social para numerosos atores sociais, implicados em uma vasta gama de negócios laterais à sua atividade “criminosa”. É neste sentido que enfatizo a necessidade de adotar mudança no olhar, para compreendermos as modalidades de trabalho “ilegal” na fronteira, afastando-nos da dicotomia que associa o “Bem” ao trabalho legal/formal e o “Mal” ao trabalho ilegal/informal. Esta divisão absoluta existe, em grande medida, apenas como discurso oficial, distante da realidade empírica observada em que atores sociais, em graus variados de participação e aquisição de lucro “ilegal” estão envolvidos nessas atividades, que não apenas oferecem trabalho e subsistência a muitas pessoas, mas que possibilitam o reinvestimento “legal” de seus ganhos na cidade, a partir da mesma lógica capitalista dos negócios “legais”, em que prevalece a ética do “homem de negócio” e do “empreendedor”.

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1 Aqui faço menção a algumas cidades que fiz trabalhos de campo, como Antônio João, Bela Vista, Caracol.

2 Para mais informações:  http://www.eldeber.com.bo/policia-implementa-plan-chachapuma-en-zonas-fronterizas-con-brasil/131112162822

3 http://www.correiodoestado.com.br/noticias/fronteira-de-corumba-e-uma-das-principais-rotas-usadas-pelo-pcc/167366/

4   Conceitos desenvolvidos por Lia Osório Machado em sua palestra de abertura do II Seminário de Estudos Fronteiriços, em agosto de 2010, em Corumbá-MS.

5 Chefe de um ponto de venda de drogas (boca).

6 Importante ser pontuado que essas relações de complexidades vão depender dos contatos estabelecidos nestas redes.

7 São pessoas que são contratadas para levar certas quantidades de drogas para outras regiões fora da fronteira. Ver Linjard (2012) e Guimarães (2014).

8 É importante ressaltar que a categoria do “correria” é extremamente fluída no mundo do crime. É impossível vincula-lo apenas a um setor deste mundo. Por hora quem recebe o nome de correria geralmente é uma pessoa de muito respeito dentro do mundo do crime. 

9 Pedaço pequeno de plástico contendo uma pequena quantidade de droga.

10 A caixa é o tamanho de uma caixa de fósforos pequena de cozinha, contendo dez gramas de cocaína.

11 Importante frisar que tanto no estado de São Paulo quando no do rio de Janeiro, existem outras organizações criminais. Mas as maiores continuam sendo o Primeiro Comando da Capital e o Comando Vermelho.

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