Contribuciones a las Ciencias Sociales
Abril 2014

MUDANÇA DE PARADIGMA EPISTEMOLÓGICO: UMA DISCUSSÃO SOB O PONTO DE VISTA DA EXPERIÊNCIA DE HALTHORNE



Atila Indalecio Marques Alves (CV)
Ronaldo Bernardo Junior (CV)
Universidades Severino Sombra
ronaldoufrrj@yahoo.com.br



Resumo
A existência de um paradigma epistemológico dominante no campo de estudo da administração é uma constante há muitos anos, apesar de diversos pontos de vistas contrários, alertando para os perigos da epistemologia positiva no campo das ciências sociais aplicadas, ainda são poucas as teorias organizacionais que se apegam a paradigmas epistemológicos alternativos. O presente ensaio teórico tem por objetivo analisar os estudos de Halthorne sob um ponto de vista epistemológico, demonstrando como uma pesquisa estritamente positivista pode gerar discussões que fomentam uma quebra de paradigma epistemológico desde as raízes dos estudos organizacionais, suscitado a reflexão sobre as possíveis abordagens aos estudos de administração.

Palavras-chave: Epistemologia; Paradigma; Experiência de Halthorne.

Abstract

The existence of a dominant epistemological paradigm in the field of management study is a constant for many years, despite many opposing points of view, warning of the dangers of positive epistemology in the field of applied social sciences, there are few organizational theories that cling to alternative epistemological paradigms. This theoretical paper aims to analyze the studies Halthorne under an epistemological point of view, demonstrating how a strictly positivist research can generate discussions that encourage a breach of epistemological paradigm from the roots of organizational studies, prompted reflection on the possible approaches to administration studies.

Key words: Epistemology; Paradigm; Halthorne experience.


Para citar este artículo puede utilizar el siguiente formato:
Marques Alves, A. y Bernardo Junior, R.: "Mudança de paradigma epistemológico: uma discussão sob o ponto de vista da experiência de Halthorne", en Contribuciones a las Ciencias Sociales, Abril 2014, www.eumed.net/rev/cccss/28/halthorne.html
  1. – INTRODUÇÃO

A pesquisa no campo da administração, dentre outros campos, passa por um momento de profunda reflexão sobre sua forma, conteúdo e objetivo, diversos são os estudos que chamam atenção para a qualidade dos trabalhos acadêmicos (Carrieri e Luz, 1998; Bruyne; Herman e Schoutheete, 1982; Bertero; Caldas e Wood Jr.,1999) e sobre a necessidade de mudança em seu foco de atuação (Burrell e Morgan, 1979; Habermas, 1963; Pirsig, 1987; Vergara, 1989).  A realidade mostrada por estes estudos apontam graves problemas, principalmente na concepção das pesquisas e seus respectivos quadros teórico-metodológicos o que demonstra uma carência de formação epistemológica básica forte.
A epistemologia surge com a função de entender o posicionamento do pesquisador e do objeto de estudo, bem com a relação existente entre ambos. Utilizando-se de uma metáfora, um engenheiro vê o objeto com a lente da engenharia, o psicólogo com a lente da psicologia, o administrador com a lente da administração, a epistemologia procura estudar a lente em si.
Os pesquisadores estão na base de um processo científico, armados com a metodologia, os filósofos das ciências estão no fim das pesquisas para analisar seus produtos, seus resultados. Os pesquisadores encontrarão na reflexão epistemológica não apenas fundamentos para se assegurarem do rigor, da exatidão, da precisão do seu procedimento, como também preciosas indicações que guiarão a indispensável imaginação da qual deverão dar provas para evitar os obstáculos epistemológicos e para conseguirem fazer progredir o conhecimento dos objetos que investigam (Bruyne; Herman e Schoutheete, 1982).
Ponto chave para a argumentação proposta por este trabalho está na visão de Bruyne, Herman e Schoutheete (1982) de que grandes acontecimentos científicos geram as maiores discussões epistemológicas, sempre que há alguma crise na ciência emerge a necessidade de novos pontos de vista, da estruturação de novos quadros teóricos e daí as discussões sobre o que é conhecimento, como o conhecimento é produzido e, principalmente, qual o papel do pesquisador nos resultados encontrados em uma pesquisa científica.
Bruyne, Herman e Schoutheete (1982) pontuam que uma ciência vai em direção aos seus princípios tanto quanto deles parte e a epistemologia nasce como um instrumento para o questionamento dessa ação. Desse modo, analisar uma ciência do ponto de vista epistemológico é refletir quanto a sua própria concepção, enriquece o conhecimento e o mantém vivo.
A partir dessas abordagens é que se questiona sobre quais são as possibilidades de um estudo estritamente positivista que configura como um grande acontecimento científico pode gerar discussões que conduzam à uma quebra de paradigma epistemológico nos estudos empresariais.
1.1 Objetivo
Com base na importância destes grandes acontecimentos científicos o presente ensaio teórico tem por objetivo analisar os estudos de Halthorne sob um ponto de vista epistemológico, demonstrando como uma pesquisa estritamente positivista pode gerar discussões que fomentam uma quebra de paradigma epistemológico desde as raízes dos estudos organizacionais.
O ensaio é dividido em três partes, primeiramente uma discussão sobre o que é epistemologia e sua aplicação no campo dos estudos organizacionais, posteriormente analisa o contexto e resultados encontrados nas experiências de Halthorne e discute estes resultados sob diversos pontos de vista epistemológicos, suscitado a reflexão sobre as possíveis abordagens aos estudos de administração. Por fim são feitas considerações acerca da possibilidade da quebra de paradigmas epistemológicos.
Este trabalho, por sua característica provocativa, não pretende dissertar sobre todos os aspectos da experiência de Halthorne, mas sim sacar de suas características metodológicas reflexões acerca do papel da epistemologia na administração, a fim de trazer respostas relevantes ao problema de pesquisa levantado.

– Espistemologia da pesquisa em administração

Conceituar Epistemologia é uma tarefa complexa, uma vez que sua própria natureza dá caráter de interpretação e subjetividade. Japiassu (1992) argumenta que o conceito de epistemologia não tem uma única significação fechada e irrevogável, seu conteúdo é diverso, porém seu objetivo é razoavelmente difundido, traçar os meios pelo qual se constitui uma teoria científica. Algumas perguntas emanam de suas argumentações: “Qual o papel, na prática científica, do contexto social e ideológico? Qual é a gênese das ciências? Qual é sua estrutura? Como crescem os conhecimentos?” (Japiassu, 1992).
O dicionário de filosofia (Abbragnano, 1970) define a epistemologia como a teoria do conhecimento, embora muitos a reconheçam como a filosofia da ciência ou mesmo a sociologia da ciência (Japiassu, 1992; Latour, 1987; Burrel, Morgan, 1979). Essas denominações carregam aproximações e afastamentos que merecem atenção para o melhor entendimento do que podemos conceituar como epistemologia.
O conceito de teoria do conhecimento apontado por Japiassu (1992) advém da interrogação da origem do conhecimento, de sua gênese, da identificação de leis de crescimento do conhecimento, da análise lógica da linguagem científica a fim de alcançar e entender as condições reais da produção do conhecimento.
Para Burrel e Morgan (1979) a epistemologia deve ser tratada como uma filosofia das ciências uma vez que sua função integra todo um ecossistema do conhecimento integrado a outros conceitos que lhe formam e por ela são formados, a ontologia, a natureza humana e a metodologia. A ontologia diz respeito à forma como interpretamos a realidade, como enxergamos a essência dos fenômenos. A epistemologia levanta suposições acerca do conhecimento, sua geração, transmissão e assimilação pelo sujeito, uma vez que tem caráter essencialmente pessoal. A natureza humana diz respeito à discussão sobre o papel subjetivo do homem como pesquisador e objeto, como produto ou produtor do seu ambiente. A metodologia apresenta-se como um caminho, um conjunto de ferramentas que procuram alinhar a produção do conhecimento às suas bases epistemológicas e ontológicas de forma coerente. Concordam com essa visão Denzin e Lincoln (1994) ao indicarem a ontologia como a compreensão da realidade, a epistemologia como a relação entre pesquisador e seu objeto de estudo e a função dessas duas na escolha e uso da metodologia de pesquisa.
O Quadro 1 apresenta os pressupostos básicos dos paradigmas de pesquisa relativo ao positivismo, pós-positivismo, a teoria crítica e o construtivismo. Tais elementos são classificados de acordo com a visão da ontologia, da epistemologia, e da metodologia, possibilitando uma visualização mais nítida das diferenças presentes entre cada uma das abordagens.
A sociologia da ciência é um conceito que, segundo Latour (1987), descende da epistemologia e busca compreender o que deve ser e o que não deve ser considerado ciência na busca do conhecimento, dizendo às pessoas o que alguém que faz ciência deve fazer que termos devam ser considerados e quem é que tem o direito de dizer o que as coisas realmente são. O termo sociologia da ciência também é discutido por Japiassu (1992) traçando a definição de um estudo que visa conhecer o problema de uma determinação social do conhecimento, estudar os fatores não-científicos inerentes à diversas descobertas científicas. Tem sua atenção principal no progresso da ciência, mas levando em conta as suas relações com a sociedade.
Para Bruyne, Herman e Schoutheete (1982) a epistemologia no processo de pesquisa pode ter dois lócus de atividade: um, como uma metaciência uma vez que vem após e reflete sobre seus princípios, fundamentos e validade. Outro, de caráter intrínseco, a ação intracientífica, a busca pela não promulgação de regras, mas pelo julgamento próprio de seus procedimentos e resultados durante o processo criativo. Para os autores a epistemologia deve se preocupar fundamentalmente com a experimentação e sua relação entre o estabelecimento de teorias e os fatos, novamente a importância de se estabelecer a forma pela qual o pesquisador se relaciona com o objeto do estudo.
Japiassu (1992) chama atenção para a necessidade de estabelecermos uma diferença entre saber e ciência. O saber, por sua característica muito mais ampla, diz respeito ao conjunto de conhecimentos metodicamente adquiridos e razoavelmente sistematizados e organizados de forma a ser transmitido por um processo de ensino pautado na pedagogia. Cabe aqui fazer uma ressalva quando ao conceito de conhecimento utilizado nos estudos organizacionais, principalmente tratando-se da disciplina de gestão conhecimento e da informação. Para esta, a base de tudo está no dado, símbolo ou um conjunto deles que pode ser quantificado e qualificado de forma racional e univalente. Do agrupamento lógico e estruturado de dados a fim de lhe dar sentido nasce a informação, esta que pode ser armazenada, transmitida e é carregada de significados. Por fim, quando a informação é assimilada, entendida e apropriada pela mente humana passa a ser considerada conhecimento (Ackoff, 1989). O conceito de saber, defendido por Japiassu e o conceito de conhecimento abordado nos estudos organizacionais podem guardar muitas relações e promove uma nova forma de enxergarmos a epistemologia. Para Japiassu (1992) a ciência é um conjunto de saberes não especulativos, de natureza racional que se afasta dos saberes especulativos de características mais ou menos místicas.
De acordo com as bases teóricas propostas por Japiassu (1992) a epistemologia consiste num estudo metódico e reflexivo do saber, sua organização, formação, desenvolvimento, funcionamento e produtos intelectuais e propõe uma classificação dos tipos de epistemologia: (1) Global - saber de caráter especulativo ou científico que são geralmente considerados e carregados de suas virtudes e problemas; (2) particular - saber de caráter especulativo ou científico tomado em consideração em um campo particular; (3) específica - saber estudado de perto, de forma detalhada, com rigor técnico constituindo uma disciplina específica, bem definida e estruturada permitindo entender seu funcionamento e relacionamento com demais disciplinas. Com base nesta classificação Serva, Dias e Alperstedt (2005) classificam a epistemologia da administração como sendo específica uma vez que tem característica essencialmente interdisciplinar.
Em um dos trabalhos mais relevantes sobre epistemologia em administração Burrell e Morgan (1979) discutem a concepção do conhecimento na administração, o desenvolvimento do constructo e as diversas epistemologias que servem a esse campo, dentre os quais se destacam quatro paradigmas: funcional/positivista, interpretativo, critica/humanista radical e radical estruturalista. Estes paradigmas podem ser organizados na forma de matriz relacionados de acordo com dois eixos fundamentais; o primeiro variando das teorias sociais que dão ênfase na estabilidade (regulação) até as teorias que buscam uma mudança radical; o segundo eixo transpassa entre as teorias subjetivas (individualistas) até as teorias objetivas (estruturalistas).
Conforme é exposto pela Figura 2 (Burrel e Morgan, 1979), os paradigmas das teorias sociais mais comummente usados podem ser distribuídos entre os paradigmas com viés mais objetivos e aqueles paradigmas com viés mais subjetivos, assim como direcionados para a sociologia da mudança radical ou direcionados para a sociologia da regulação.
Uma simplificação da figura em uma matriz pode contribuir em uma melhor visualização das quatro dimensões que ajudam no enquadramento dos paradigmas das teorias sociais com maior destaque. Tal simplificação é apresentada pela Figura 2.

A matriz de Burrel e Morgan (1979) apresenta e enquadra o Paradigma funcionalista/positivista, o Paradigma interpretativo, o Paradigma radical estruturalista, e o Paradigma radical humanista. Esses quatro paradigmas são mais bem explicados nas linhas a seguir.

- Paradigma funcionalista/positivista: tem por princípio a ação humana racional e acredita que é possível entender o comportamento organizacional através de teste de hipóteses. Fazem parte deste paradigma o objetivismo, teoria da ação social, teoria integrativa, teoria dos sistemas sociais;
- Paradigma interpretativo: procura explicar a estabilidade do comportamento pelo ponto de vista do indivíduo, sua interpretação do mundo e seus processos naturais. Enquadram-se aqui a fenomenologia, hermenêutica, sociologia fenomenológica;
- Paradigma radical estruturalista: de acordo com esse paradigma os conflitos estruturais inerentes à sociedade mudam constantemente devido a crises políticas e econômicas, é baseado principalmente nas ideias de Marx e Engles.
- Paradigma radical humanista: tem como principal preocupação soltar as amarras sociais que limitam o potencial humano, focam na ciência como agente de mudança social e libertadora das instituições. São exemplos desse paradigma a teoria crítica, individualismo anarquista e o existencialismo francês.
Payne (1993) chama atenção para o fato de que diversos periódicos internacionais vem abrindo espaço para a entrada de trabalhos voltados para as epistemologias interpretativas e críticas, essas epistemologias tem atraído a atenção de diversos pesquisadores, porém ainda há pouco espaço nas salas de aula para diferentes abordagens epistemológicas. Bertero, Caldas e Wood Jr.(1999) mostram em suas pesquisas que no a maioria dos periódicos de administração pelo mundo ainda prevalece uma inclinação essencialmente positivista tendendo ao cientificismo, particularmente no Brasil chama atenção para a baixa qualidade dos trabalhos acadêmicos, essencialmente organicistas e de inclinação funcionalista.
O positivismo tem servido à construção do conhecimento científico em administração desde seus tempos mais primórdios, a adaptação dos métodos cartesianos ao estudo das organizações foram e ainda são a base epistemológica dominante. De fato, as bases científicas mais antigas da administração têm forte carga positivista, desde os estudos de Ford, Taylor e Fayol até Elton Mayo onde encontramos uma evidência clara da necessidade de uma quebra de paradigma epistemológico muito pouco discutido sob esse ponto de vista.

 – Experiência de halthorne e o paradigma epistemológico

Considerado um marco no nascimento da escola das relações humanas, os experimentos desenvolvidos por Roethlisberger, Dickson e Mayo (1939) em uma fábrica da Western Eletric no bairro de Halthorne em Chicago nos Estados Unidos da América, ainda nos dias atuais são foco de discussão em todo curso de administração.
Em seu livro Management and the worker, Roethlisberger e Dickson (1939) reportam a experiência ocorrida de 1927 até 1932 que tinha por objetivo primário o estudo das condições ambientais na incidência de fadiga e monotonia entre os funcionários da fábrica. A abordagem claramente racional instrumental consistia em isolar grupos de trabalhadores, fazer alterações em variáveis como iluminação, umidade, temperatura e horas de sono e verificar seu impacto na variável produtividade.
Em uma de suas etapas principais, a experiência de Halthorne consistia em separa dois grupos de funcionários, um controle e uma variável. No grupo variável foram aplicadas mudanças na iluminação, primeiro reduzindo-se a força das lâmpadas no ambiente isolado de trabalho, como resultado foi percebido um aumento na produtividade; em um segundo momento a iluminação foi aumentada para níveis acima do momento zero, percebendo-se novamente um incremento de produtividade; em um terceiro momento a iluminação foi retornada ao nível do controle e a produtividade registrada ainda era maior do que nos outros momentos.
Como relatam os próprios Roethlisberger e Dickson (1939) os resultados inesperados levavam a discutir os métodos empregados na pesquisa, não era a iluminação que impactava, mas diversas outras variáveis praticamente impossíveis de controlar que estavam levando às mudanças de eficiência produtiva, dentre elas o fato de estarem sendo observadas, de estarem isoladas de seus grupos tradicionais, de formarem novos laços afetivos com o grupo de estudo, de estarem sob os olhos de diferentes gerentes e, mesmo quando sob a gerência tradicional, este agia de forma difusa por estar fazendo parte de um grupo de investigação.
As principais características do positivismo podem ser mais bem observadas no Quadro 2, a fim de direcionar uma análise posterior e ajudar no enquadramento do contexto gerado durante a experiência de Hawthorne.

Quadro 2 – Principais características do Positivismo


Características

Abordagem

Neutralidade científica

O positivismo defende a ideia de que existe uma verdade no objeto de estudo e que é possível isolar o objeto de qualquer influência externa como valores, crenças e ideologias.

Conhecimento

É a pura análise dos fatos como estão na natureza: a visão de que a natureza é passiva, os objetos existem e só precisam ser descritos.

Quantificação

O positivismo tem em suas bases a utilização de métodos quantitativos de análise dos dados empíricos

Instrumentalidade

A visão do homem como um mecanismo, algo previsível, racional e constante. As pessoas não são constantes, não reagem sempre da mesma forma, não são previsíveis e, principalmente, as experiências nunca são homogêneas.

Fonte: adaptado de Burrel e Morgan (1979)

O que Roethlisberger e Dickson (1939) viam como um problema de método fica evidente como um problema de abordagem epistemológica. Diversas teorias anti-positivistas apontam como principais críticas ao positivismo exemplos evidentes nos estudos de Halthorne.

4 – METODOLOGIA
De acordo com a taxonomia proposta por Vergara (2010) esta pesquisa tem o caráter qualitativo, uma vez que se propõe abordar determinado fenômeno em menor abrangência, privilegiando maior profundidade.
Quanto aos objetivos, esta se trata de uma pesquisa descritiva, pois busca descrever as características e o contexto de ocorrência de determinado fenômeno.
Em relação aos procedimentos adotados para a coleta de dados visando o alcance do objetivo, esta é uma pesquisa bibliográfica e estudo de caso. É bibliográfica porque faz uso da literatura já produzida sobre as teorias e sobre a unidade de análise, e estudo de caso porque se propõe a analisar uma determinada realidade em maior profundidade.

5 – ANÁLISE DO CASO HALTHORNE
O caso Halthorne será analisado por meio do enquadramento epistemológico proposto por Burrel e Morgan (1979), onde serão analisadas as ocorrências (ou a falta delas) dos quatro principais elementos que compõem o positivismo, sendo eles a Neutralidade científica, o Conhecimento, a Quantificação, e a Instrumentalidade.
5.1 Neutralidade científica
Essa neutralidade é derrubada na experiência de Halthorne quando ficam evidentes as desconcertantes modificações no método descrito por Roethlisberger e Dickson (1939) a fim de conduzir a resultados mais concretos. Ainda relatam dificuldade de encontrar uma forma de publicar os dados obtidos na pesquisa de forma a levar ao melhor aproveitamento dos mesmos.
Dizem os autores que “(...) tivemos problemas com a apresentação dos resultados, como poderíamos dar uma clara noção de como as coisas realmente aconteceram?” (Roethlisberger e Dickson, 1939 p. 35). A ciência é uma atividade humana e como tal é tomada de valores, paixões, inclinações e julgamentos de caráter pessoal por parte do investigador, da comunidade científica e dos objetos de estudo em si. A epistemologia crítica ataca com veemência os problemas apontados à neutralidade científica.
De acordo com esta epistemologia devemos constantemente interrogar sobre a responsabilidade social dos cientistas e técnicos (Habermas, 1963; Japiassu, 1992). Qual o real objetivo da pesquisa de Halthorne? Que consequências poderiam surgir de uma experiência como essa? Questionar o tipo de influências que poderiam ter guiado o desenho e as conclusões dos experimentos científicos ocorridos em Halthorne geram mais perguntas do que respostas, porém são os princípios básicos da epistemologia crítica que facilmente refutam os princípios positivistas utilizados nos estudos de Mayo, Roethlisberger e Dickson.
5.2 Conhecimento
A base positivista não pode ser considerada na experiência de Halthorne, os indivíduos estudados não tinham um comportamento previsto ou natural, o simples fato de estarem sob observação modifica por completo a sua ação e até mesmo a interpretação dos dados por porte dos pesquisadores. As inúmeras variáveis envolvidas no processo investigativo tornam os fatos naturais caoticamente incertos.
A epistemologia da complexidade, defendida por Morin (2005), chama atenção para a ecologia da ação, uma desencadeamento de acontecimentos e influências múltiplas decorrentes de uma ação inicial que escapa ao desejo e às intenções daquele que a provocou, muitas vezes em seu sentido oposto. Nos estudos de Halthorne percebemos um ótimo exemplo do paradigma da complexidade agindo em detrimento do positivismo.
5.3 Quantificação
A experiência de Halthorne deixa clara a preponderância de variáveis subjetivas sobre variáveis objetivas quando do impacto primordial percebido pelas pesquisas foi a satisfação do funcionário com a participação em uma pesquisa; o medo da observação e suas possíveis consequências; o tratamento diferenciado recebido pelas chefias; a dissimulação do comportamento frente às modificações ambientais; o orgulho dos funcionários sob observação frente aos demais colegas de trabalho e uma infinidade de outras dimensões objetivamente imensuráveis que podem não ter sido relatadas por Roethlisberger e Dickson.
5.4 Instrumentalidade
A visão do homem como um mecanismo, parte de uma máquina, algo previsível, racional e constante é a base fundamental dos estudos de Halthorne, e demonstrou ser a sua maior dificuldade de execução.
Dos relatos de Roethlisberger e Dickson pode-se extrair um episódio icônico que demonstra a falha da instrumentalidade. Nos experimentos de iluminação, em um determinado momento, as lâmpadas do grupo sob observação são trocadas por outras idênticas, sendo assim não houve nenhuma mudança efetiva na quantidade de iluminação no ambiente de trabalho, entretanto em toda troca desse tipo as medições de produtividade apontavam variações significativas e inconsistentes, hora variando para mais, hora variando para menos. Esse fato foi interpretado como uma tentativa dos sujeitos de pesquisa tentar “adivinhar” o comportamento que era esperado deles, de fato estava sendo muito mais importante a interação das pessoas com os fatos do que a manipulação instrumental de variáveis.
A epistemologia fenomenológica poderia fornecer uma abordagem muito elucidativa ao estudo como todo uma vez que abandona pressupostos e julgamentos, focando na essência do relacionamento do pesquisador com o seu objeto de pesquisa. Simplesmente pelo fato de entender que o papel do pesquisador, dos arranjos sociais e do relacionamento entre pessoas é parte fundamental, muitas vezes mais importante do que fatores meramente técnicos, nasceu toda uma escola de estudos organizacionais, a Escola das Relações Humanas (ERH).
A oportunidade de uma abordagem fenomenológica nasce junto com as ERH uma vez que tem como princípio apontar como a realidade se constrói por meio das pessoas envolvidas na em determinado fenômeno ou situação, não olhando isolando atores e objetos (Vergara, 2002).

Considerações FINAIS

Grande parte da beleza do conhecimento se deve ao fato de que este é vivo, ou seja, ele nasce, cresce, se reproduz e morre. Esse ciclo de vida do conhecimento deve ser sempre discutido e, principalmente levado à reflexão, ao questionamento, pois é a partir destes que se consegue a verdadeira evolução das ciências.
Ao observarmos grandes acontecimentos científicos em diversas áreas do conhecimento conseguimos refletir acerca das suas motivações, causas e consequências. Na administração, uma ciência nova, temos poucos fatos tão marcantes e notáveis, comparados a outras disciplinas como a física, para que possamos nos debruçar e refletir. Uma breve análise de um deles, a experiência de Halthorne, demonstra a fragilidade e superficialidade nas bases que fundamentam muitas teorias organizacionais no presente.
Desse modo, podemos observar que o velho paradigma racional funcionalista ainda impera nas pesquisas e no ensino da administração, discussões já antigas e frutíferas em ciências clássicas ainda nem começaram na administração. Continuamos errando.
Urge a necessidade de conhecermos e discutirmos novos paradigmas epistemológicos. Cabe a todo pesquisador se perguntar sobre o seu papel na produção do conhecimento, suas ações, motivos e consequências dos seus atos. É preciso que tenhamos novas visões sobre antigos fatos e que estejamos abertos a discutir novas abordagens. Como muito bem nos ensinou Alexander Pope “um homem nunca deve sentir vergonha de admitir que errou, o que é apenas dizer, noutros termos, que hoje ele é mais inteligente do que era ontem”.

Referências

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ACKOFF, R. L. 1989. From Data to Wisdom. Journal of Applies Systems Analysis.
BERTERO, C. O.; CALDAS, M. P. e WOOD JR., T. 1999. Produção científica em administração de empresas: provocações, insinuações e contribuições para um debate local. RAC [online], vol.3, n.1, pp. 147-178.
BURRELL, Gibson; MORGAN, Gareth. 1979. Sociological Paradigms and Organizational Analysis. London: Heinemann Educational Books.
BRUYNE, P. de; HERMAN, J. e SCHOUTHEETE, M. de. 1982. Dinâmica da Pesquisa em Ciências Sociais: os pólos da prática metodológica. Trad. Ruth Joffily. Rio de Janeiro: Francisco Alves.
CARRIERI, A. P.; LUZ, T. R. 1998. Paradigmas e metodologias: não existe pecado do lado de baixo do Equador. In: XXII encontro anual da ANPAD (1998: Foz do Iguaçu). Anais Eletrônicos...Foz do Iguaçu : ANPAD.
DENZIN, Norman K.; LINCOLN, Yonna. 1994. Handbook of Qualitative Research. Thousand Oaks: Sage Publications.
HABERMAS, J. 1963. La technique et la science comme idéologie. Paris : Gallimard.
JAPIASSU, H. 1992. Introdução ao pensamento epistemológico. 7ª ed. Rio de Janeiro: Francisco Alves.
Latour, Bruno. 1987. Science in action: How to follow scientists and engineers through society. Harvard University Press.
MORIN, E. 2005. Introdução ao pensamento complexo. Porto Alegre: Sulina.
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PIRSIG, R. M. 1987. Zen e a arte da manutenção de motocicletas. São Paulo: Paz e Terra.
ROETHLISBERGER, F.J. & DICKSON W.J. 1939. Management and the worker. Cambridge, Mass: Harvard University Press.
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Vergara, Sylvia Constant. Projetos e relatórios de pesquisa em administração. 12 ed. São Paulo: Atlas, 2010.

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