Contribuciones a las Ciencias Sociales
Mayo 2013

A DINÂMICA DAS FRONTEIRAS MIGRATÓRIAS NO TERRITÓRIO BRASILEIRO: ANÁLISE A PARTIR DE UMA TRAJETÓRIA FAMILIAR DO NORDESTE AO CENTRO-OESTE



Adriano Chaves de França (CV)
adryanoch@hotmail.com
Francisco Queiroz (CV)
Ticofqueiroz@Hotmail.Com
Universidade Federal da Grande Dourados




RESUMO
A história das migrações no Brasil é, com certeza, parte significante da história de formação e desenvolvimento do próprio país, e no neste caso migrar não se tornou uma doença, mas um mecanismo de poder buscar e lutar por melhores condições de vida. Se pudesse se retornar às origens históricas saber-se-ia que toda a população de alguma forma são migrantes ou descendentes de migrantes. Para compreender tais dinâmicas, este trabalho se propõe a analisar um caso especifico, por meio de uma atividade em forma de entrevista, buscando a partir de então realizar um entendimento que seja capaz de explicitar as condições relevantes do fenômeno de migração ao longo do território Brasileiro.
PALAVRAS-CHAVE: migrações, dinâmicas, fronteira, Brasil

 

BORDER MIGRATION DYNAMICS IN THE BRAZILIAN TERRITORY: AN ANALYSIS FROM THE FAMILY TRAJECTORY OF NORTHEAST TO EAST-CENTER

Abstract
The history of migration in Brazil is certainly a significant part of the history of formation and development of their own country and migrate in this case did not become a disease but a mechanism to seek power and fight for better living conditions. If you could return to the historical origins would know that all people somehow are migrants or descendants of migrants. To understand these dynamics, these works is to analyze a specific case, by means of an activity as an interview, looking from then perform an understanding that is able to explain the relevant conditions of the phenomenon of migration throughout the Brazilian territory.
Keywords: migration, dynamic, border, Brazil



Para citar este artículo puede utilizar el siguiente formato:
Cahves de França, A. y Queiroz, F.: "A dinâmica das fronteiras migratórias no território brasileiro: análise a partir de uma trajetória familiar do nordeste ao centro-oeste", en Contribuciones a las Ciencias Sociales, Mayo 2013, www.eumed.net/rev/cccss/24/fronteiras-migratorias.html

ABREM-SE AS CORTINAS

Tornou-se comum encontrar nas nossas comunidades, no trabalho, entre os colegas de aula ou na parada de ônibus pessoas provenientes de outras cidades, outros estados e até mesmo de diferentes países. Às vezes, quem migrou foram os pais, os avôs ou os bisavós e se remontamos às origens históricas, somos todos migrantes ou descendentes de migrantes.
Para a realização do trabalho, foi entrevistado um casal que migrou a mais 50 anos do Nordeste brasileiro para a região Sudeste e posteriormente para a região Centro-oeste do Brasil.
Este trabalho propõe-se a desenvolver uma análise a partir da entrevista com um casal sobre as fronteiras da realidade social, procurer-se-a entender as relações populacionais com o espaço e o tempo em que vivem, e como estas relações acontecem, assim como, as motivações pela qual as pessoas se locomovem dentro de uma determinada porção territorial e como estas vêem o novo espaço explorado e o antigo espaço de origem.
No decorrer do mesmo, procurar-se-á responder as concepções que envolvem os aspectos elementares que promovem ao avanço das fronteiras da migração e seu desdobramento sobre os indivíduos com suas perspectivas sócio-econômica e cultural.
Os fatores pertinentes que condicionam as fronteiras de migração estão além da situação de simplesmente mudar de um lugar para o outro, mas existem inúmeros fatores que norteiam as relações de mobilidade no território.
O fenômeno das migrações, principalmente no Brasil, aparenta ter como condições premissas, suas causas na pobreza, no desemprego, no abandono em que os governos renegam o povo, na falta de garantia dos direitos humanos e sociais básicos e ainda a marginalidade social e a dificuldade de empregos estáveis constituem duas faces da mesma moeda.
São fatos como este que levam as pessoas a se desvincularem com seu território de origem e buscar condições que acreditam favoráveis a si e sua família, muitos deixam para trás toda uma relação sócio-espacial construída em torno da sua localidade, onde pessoas diferentes se inserem e apenas poucos contextos.

PORQUE MIGRAR!

Para o autor Martins em sua obra “O problema das migrações e da exclusão social no liminar do terceiro milênio”, não existe exclusão propriamente dita, e sim um equivoco de utilização do termo, inventado pelo próprio sistema de produção capitalista, onde todos são excluídos de alguma particularidade, no entanto o capitalismo trata de uma forma generalizada a “pobreza” como fato de exclusão social, e seu interesse em comum é de enfim incluir de certa forma toda a população no processo de produção capitalista, cada qual em sua função, exemplo, “proletariado e burguesia”. O próprio sistema que subjuga a classe de baixa renda como excluídos, necessita em primeira instancia dessa classe, na produção da riqueza através da venda da força de trabalho, ou no próprio consumo das mercadorias produzidas. Agente produtor e consumidor concomitantemente.

Sendo que, Martins ainda adverte:
A exclusão é o sintoma grave de uma transformação social que vem rapidamente fazendo de todos os seres humanos seres descartáveis, reduzidos à condição de coisa, forma extrema de vivência da alienação e da coisificação da pessoa, que Marx já apontava em seus estudos sobre capitalismo (MARTINS, 2003, p. 20).

As pessoas neste contexto são utilizadas pelo capital, não mais como sujeitos e sim como objetos “matéria-prima”, onde é levada em consideração primordial a força de trabalho e a capacidade de produção, sendo os chamados “excluídos” subjugados devidos essas importâncias materiais, que as transformam em “mercadorias” é “materialização do homem” á serviço do capital.

Assim, para Martins
É inconsciente reduzir à exclusão a pobreza material, isso pobreza de interpretação, a pobreza nem sempre é exclusão e a pobreza de fato de fato excludente é apenas o pólo visível de um processo cruel de nulificação das pessoas, descartadas porque já não conseguem submeter-se à continua ressocialização que delas faz apenas um objeto de um objeto ou objetivo (MARTINS, 2003, p.20).   

O homem, neste contexto de exclusão presencia a sua mutilação, advinda do capitalismo, transformando sua força de trabalho ou sua própria capacidade de produção em mera mercadoria, que é remunerada através de salários devido a demanda do mercado consumidor.

As definições sobre exclusão para Martins é de que:
Excluídos é apenas um rótulo abstrato, que não corresponde a nenhum “sujeito de destino”: não há possibilidade histórica e nem destino histórico nas pessoas e nos grupos sociais submetidos a essa rotulação. “Excluído” e “exclusão” são construções, projeções de um modo de ver próprio de quem se sente e se julga participantes dos benefícios da sociedade em que vive e que, por isso, julga que os diferentes não estão tendo acesso aos meios e recursos a que ele tem acesso (MARTINS, 2003, p. 31).

A forma de protesto adquirida pelos “excluídos”, nas ultimas décadas, se assim podemos dizer, é um tanto quanto conservadora, e o cerne não está vinculado á pretensão política de mudanças e transformação do sistema em si, e sim, na vontade explicita de integração ou inclusão á esse sistema, ou seja, a primordial reivindicação dos direitos de igualdades é a de acesso ao consumo e aos bens de serviços privados.
            O estado da arte em migrar no Brasil, esta muito relacionado ao desejo de parcelas da sociedade em caminhar em direção ao acesso das formas de reprodução social, onde a mais conhecida se estabelece por meio de acesso ao mercado de trabalho e de certa forma a busca a sua inclusão junto a dito desenvolvimento economica e territorial do país.
Nas últimas décadas, o fenômeno migratório no Brasil continuou intenso. O povo brasileiro parece viver num estado crônico de mobilidade que adquire características específicas dependendo dos períodos e dos lugares nos quais se processa, sendo que as migrações internas seguiram preferencialmente duas vertentes: os deslocamentos para as fronteiras agrícolas e para o sudeste.

ROMPENDO AS FRONTEIRAS E DESBRAVANDO NOVOS TERRITÓRIOS

Desde as inovações dos povos bárbaros asiáticos ate os migrantes dos novos tempos, grupos populacionais em movimento: lutam pela hegemonia de novos territórios, fogem de perseguições étnicas e repressões múltiplas, vislumbram a possibilidade de terras e mercados de trabalho mais promissores, ou simplesmente perambulam em busca de tarefas que lhes assegurem a mera subsistência (BECKER, 1997, p. 65).

A partir destes elementos acima, já é compreensível que o fenômeno de migração não se da somente pelos aspectos socioeconômicos, mas muitas vezes ele se apresenta como única solução a uma expectativa de vida futura, mesmo que seja somente por sobrevivência, porém no território brasileiro a partir dos anos 40 aos 80, houve uma grande movimentação populacional de origem principalmente do Nordeste em direção as regiões Sudeste, a procura de condições que fossem favoráveis a uma vida futura melhor.
Este é visivelmente o sonho das pessoas que migram, em sua maioria querem melhorias na suas qualidades de vida econômica, e um dos grandes motivos que fazem com que as pessoas deixem tudo no Nordeste e em outros vários lugares do Brasil e do Mundo.Como é considerado por Costa 2006: “há migrações distas “econômicas” vinculadas à mobilidade do trabalho, migrações provocadas por questões políticas e outras por questões culturais ou ainda “ambientais”.
Basta um olhar amplo e panorâmico pelo mundo e assim possibilita-se perceber um cenário de pessoas em mobilidade, em um processo de territorialização e desterritorialização. Onde a territorialização pode ser encarada por pessoas em movimentação, como sendo o espaço construído por suas relações sócioespacias no seu ambiente de convívio, para os migrantes é o seu território de origem, o qual é base fundamental para os seus laços ali vinculados e conforme o ritmo de vida presente, o controle, a sua cultura e outros elementos.
Antes de iniciar uma discussão sobre os processo migratórios é fundamental identificar quatro conceitos básicos na possibilidade de promover uma reflexão da temática exposta, sendo eles.
Para BECKER, 1997:
A migração pode ser definida como mobilidade espacial da população. Sendo um mecanismo de deslocamento populacional, reflete mudanças entre as pessoas (relações de produção) e entre essas e seu ambiente físico (BECKER, 1997, 98).

De acordo com SAYAD, 1998; COSTA, 2006:
Um imigrante é essencialmente uma força de trabalho, e uma força de trabalho provisória, temporária, em trânsito e o migrante  é uma parcela integrante – ou que esta em busca de integração – numa (pós) modernidade marcada pela flexibilização – e precarização – das relações de trabalho (SAYAD, 1998; COSTA, 2006, p.37).

Segundo COSTA 2006:(...) a territorialidade é construída na própria mobilidade espacial (COSTA 2006).

Ainda segundo COSTA 2006, apud  HAESBAERT 2001:
(...) desterritorialização é uma multi ou, no limite, a - territorialidade insegura, onde a mobilidade é compulsória [quando lhes é dada como possibilidade], resultado da total falta de (...) alternativas, de “flexibilidade”, em “experiências múltiplas” imprevisíveis em busca da simples sobrevivência física cotidiana (COSTA 2006, p. 49, apud HAESBAERT 2001).

Para entender os processos de mobilidade populacional em um determinado espaço, é necessário recorrer aos condicionantes que provocam a locomoção da polução. Sendo que segundo Becker (1997), cada momento de ordem política global, há uma correspondência econômica com a emergência de fluxos demográficos, isso indica que historicamente há uma relação direta sobre as motivações que levam os indivíduos a migrar conforme os aspectos econômicos e políticos vigentes.
O ato de migrar pode ser definido por vários outros elementos que provocam esta mudança territorial dos indivíduos, sejam eles por motivos étnicos, culturais, sócio-econômicos, perseguições religiosas e políticas (exílio), ambientais indo até os mais diversos tipos de frustrações e repressões como pontua Becker em sua obra “Explorações Geográficas: percursos no fim do Século”.
Diante do exposto, neste momento é possível destacar uma fragmentação do trabalho de campo realizado sob forma de entrevista, onde o senhor José Lourenço, destaca as motivações e condições que o levaram a migrar de sua terra de origem no ano de 1954 da cidade de “Bom Conselho” no estado de Pernambuco, na região Nordeste do Brasil, juntamente com sua família.
O senhor José Lourenço relata:
(...)Rapaiz óia lá é lugar assim, tem ano que chove, chove que é uma beleza e dá pra lavora, não tem terra melhor né! Mais tem ano que não chove, a gente planta e perdi a lavora né, ái eu toquei lá uma roça iiiiiiii, perdeu tudo! deu uma seca (ele pensa um pouco) os milho seco tudo. Ai eu me desgostei, sabe a di uma coisa vo me imbora pa Sun Paulo, ai foi chego uns cara lá cunhecido nosso,(com sotaque) de Sun Paulo e fazeram lá umas proposta, éééé por que é São Paulo porque la é bão, i lá todo mundo ganha dinhero, ai euuu fui nessa  ahah (risos) reii rapaiz quebrei a cara, ai quando cheguei em São Paulo, o mais nem achei o que ele falo, mais eu, não tinha cuma com que  vorta né, gastei o dinherin, já fiquei fui lá pensão lá de São Paulo, fui lá na migração(...) ai nun tinha mais pra onde corre não, era aqui mesmo(...)

Este fragmento da entrevista pontua a situação vivida, onde o senhor José caraticteriza os motivos que o levaram a migram do interior do Nordeste para São Paulo, podendo destacar dois fatores agravantes que levaram a esta mobilidade espacial: fator ambiental, como por exemplo a situação climática imprevisível da precipitação de chuvas que ocorriam regularmente, provocando problemas com a atividade agrícola de subsistência familiar outro fator agravante foi a “ideologia” de uma melhoria de vida que só ocorre em São Paulo, como relatado na entrevista. 
Assim é possível relacionar estes fatores como ressaltado por Becker que:
No âmbito das migrações internas, igualmente diversificada tem sido a topologia dos deslocamentos. Intensos fluxos de caráter rural-urbano ocorreram nas décadas de 50 e 60, representativos de um período marcado por crescente concentração fundiária e pela industrialização nos grandes centros urbanos do sudeste brasileiro. Estabeleceram-se migrações interestaduais de longa distância na década de 70, especialmente a de nordestinos para os eixos Rio de Janeiro – São Paulo e a de sulistas para as áreas do Centro-Oeste e Amazônia, responsáveis pela expansão e consolidação do mercado de trabalho a nível nacional (BECKER, 1997, p.117).

O senhor José relatou:
(...)Naquela época era um estoro rapaiz óia, quando a gente saia do norte era só pá Sun Paulo, Sun Paulo o Ri de Janeiro, aí ah a intenção era essa, mas quando chegava ai era como seu menino falo (Francisco) tinha uns que já havia assim um esquema, as veis  tinha um dinherin! Pra trais né! Ii eu num tinha pa volta, fiquei  pura ai batalhando(...)

A relação estabelecida por Becker e comprovada pelo trabalho empírico (entrevista), frente às migrações revela que esta movimentação ocorreu principalmente a partir da década de 50 e teve seu ápice na década de 70, principalmente pela mobilidade espacial dos indivíduos a procura de melhores perspectivas de vida, sendo que o Sudeste neste momento apresentou como opção alternativa pelo seu desenvolvimento industrial e econômico, assim passando a receber pessoas de vários territórios diferentes em busca de empregos e melhores condições de vida. No entanto, o que se conhece pelo belo discurso idealista sobre as oportunidades não é tão real, o quanto parece como a desilusão do senhor José em seu depoimento.
Esta busca incessante de oportunidades melhores em outros territórios sempre está associada a um paradigma que configura na possibilidade em retornar a sua terra natal, ou seja, é sair provisoriamente e voltar com condições que lhes ofereçam uma perspectiva de vida melhor, sem que o indivíduo se desterritorialize, sem romper suas relações socioespacias, conforme os autores (Becker 1997, Costa 2006 e Sayad 1998). No entanto, isso se torna impossível é sabido que não se pode ocorrer tal façanha, pois o espaço esta em constante movimento, o simples fato de mobilidade espacial é uma nova forma de territorialização e desterritorialização.
Os relatos do senhor José continuam conforme o seu depoimento acima, evidenciando o desejo de voltar ao seu território de origem, mostrando o apego pelo lugar constituído do qual ele saiu:
(...) a minha idéia era de voltar lá pra eu compra um terrenim lá, por que eu num tinha nada, meu pai nunca possuiu (pensa um pouco) nada, nóis morava di di favor no sitio do zotro né! Aí eu sempre tive uma vontade de compra um terreninho pra gente, né! Mais num pudia, aí meu, meu prano  foi esse! Eu digo, eu vou pra São Paulo trabaiava uns dois ano ganho um dinhero i volto pa cumpra um terrenim aí, pra coloca a família! Mais us pranus foi fustradu, num deu nada certo!(...)

Verificou-se na entrevista realizada, que o fenômeno da migração, por mais que seja uma busca incessante e alternativa sobre a óptica da melhoria de vida, ainda não foram desvinculados os sentimentos de pertencer ao lugar de naturalidade, assim como, as motivações que provocam esta movimentação são de âmbitos puramente econômicos, (...)
Em depoimento, o senhor José destaca o sentimento em deixar terra de origem e laços familiares:
(...)Aí, ai a gente sente muito né! Ainda hoje mesmo a gente lembra óia, oi eu sempre falo aqui, eu falo pra ela (esposa) que os filho são tudo aqui, um de São Paulo outros daqui, já nascido aqui, natural daqui! Se só fosse eu e ela (esposa), nóis ia embora (pensa um pouco), terminava por lá mesmo! Porque lá é assim ó, la é um clima bom! que nem hoje, quando ta, é desse jeito aqui, quando fri lá é desse jeito aqui, num faiz nenhum calor dixagerado que nem aqui, nem friu demais, é assim  uma  é legal pra gente o clima, e aqui pode vê quando é calor é forte o calor também!(...)

O relato acima demonstra, assim como é colocado por Sayad 1998, a respeito das circunstâncias que levam dos indivíduos a migrarem e a sua relação estabelecida com o lugar de origem, ao ponto de ressaltar o grande intuito em voltar.
Sendo que SAYAD 1998 destaca, um dos elementos centrais desta mobilidade:
Assim, basta que as circunstâncias que se encontravam na origem da imigração (ou seja, as condições econômicas) mudem e, ao mudar, que impõem uma nova avaliação que se pode tirar dos imigrantes, para que ressurja naturalmente, contra a ilusão coletiva que permitia que a imigração se perpetuasse, a primeira definição do imigrante como trabalhador provisório e da imigração como estadia literalmente provisória (SAYAD, 1998, p. 134).

No trabalho de campo, ou seja, na entrevista constataram-se as diferenças demonstradas na trajetória de migração do Pernambuco para São Paulo, observou-se que o meio de locomoção encontrado para chegar a São Paulo, foi o “pau de arara” (um caminhão de carroceria enlonada utilizado no transporte de pessoas), a viajem durou cerca de 15 dias conforme os relatos.
Ao chegar ao destino previsto houve um grande impacto a respeito das realidades distintas entre os imigrantes e a localidade, ou seja, ao nível de desenvolvimento diferenciado, formas e meios de comunicação, alimentação e também gêneros étnicos e culturais, além de uma apropriação diferente do espaço pelos indivíduos.
A comprovação dos impactos sobre estas culturas distintas, ao se encontrarem, é destacada da fala do senhor José, como se segue abaixo:
(...)Aaa ate á fala das das pessoa que a gente já nota diferença né! Por causo aqui é um sutaque de fala lá di Pernambuco né, ee aqui já é outro né!  E até dissai a gente já(...) la no, la no Norte né, eles já gosta muito é de canturia de poeta né! Poesia cantada, forró tamem! Ai aqui, aqui né é muito moda sertaneja, e la no nordeste é forró i é moda de viola né!  Repente, é quermesse, novena, tudo isso ai(...)

Observou-se o papel do Estado nas políticas desenvolvidas para o incentivo dos imigrantes vindos do Nordeste, como no relato do senhor José:
(...)A recepção foi boa hem, foi! Receberam a gente bem, nois foi pra migração né! Ali foi uma beleza hem. Deram cuberta pra gente, que a gente não trazia. Receberam bem, tratando bem, eles davam almoço, jantar, café num faltava nada ali, tudo por conta do Governo Federal, era levado quem num tinha dinhero lá pra migração! Aqueles que tinha dinhero pagava pensão e ficava lá mesmo(...)

Nas vezes que retornou a sua terra de origem, o senhor José relatou que houve múltiplas transformações nas relações sociais e na aplicação de implementos agrícola na produção agropecuária, assim, em seu depoimento observou-se a sua “territorialização que consiste em voltar às origens e se deparar com uma realidade totalmente diferente de quando partiu” e sua “desterritorialização por não haver os mesmos vínculos com aquele espaço, que outrora havia saído”. Percebeu-se ainda a mudança no manejo do solo para a agricultura, sendo que em sua época o plantio era feito pela enxada, em outro momento, após cerca de 15 anos passou a ser utilizado a “matracra”  e em seguida com o avanço industrial chegou o trator, tornando a agricultura mecanizada.
Em suma o senhor José, destacou que após sair da capital de São Paulo, foi para o interior trabalhar na atividade agrícola, sendo que não encontrou emprego na capital, após conseguir guardar um pouco de dinheiro no interior ele resolveu migrar novamente, já que estava com dificuldade para trabalhar, devido à ocorrência de um acidente de trabalho.
Segundo o exposto, distinguiram-se alguns elementos importantes, o fato da sua migração do Nordeste para São Paulo e agora possivelmente outra migração, devido o seu desejo de lugar melhor para ver seus crescerem. É visível a sua territorialização, ou seja, o seu vinculo com a localidade a qual estava presente , sendo ela em  dois momentos,  um onde ele tem relações com o seu lugar de origem e outro com o lugar onde ele consegue  se estabelecer profissionalmente e cria novas relações.
No entanto, a outro momento, marcado pela desterritorialização, ou seja, quando ele migra para São Paulo as suas relações com espaço ao qual ele se sente por pertencer são rompidos pela sua mobilidade e pelos novos vínculos que passam a tecer um a outra territorialização e ainda existe uma possibilidade de ocorrer novamente uma nova desterritorialização.
Assim o  mesmo vendeu seus pertences e se mudou para o município de Jateí – MS, onde comprou uma pequena propriedade rural e desenvolveu atividades ligadas ao campo, assim como, uma fabrica artesanal de farinha de mandioca, no entanto saiu desta localidade por haver a formação de um latifúndio em torno da sua propriedade de um pecuarista estrangeiro, se sentido obrigado a deixar sua terra.
Passando, então a migrar novamente para Fátima do Sul – MS, e com o passar  tempo por motivações familiares resolveu mudar-se para Dourados – MS, onde reside atualmente a cerca de 4 anos.
O que se apresenta neste momento é um novo processo de migração, onde a mobilidade espacial proporciona uma nova territorialização ao ambiente que se passar a ser construído na localidade em que se instala a família, sendo que há também uma novo elemento de desterritorialização pela ruptura das relações sócioespacias assim como afetivas pelo lugar no qual se estabelecia a sua família.
As relações advindas com a nova territorialização parecem ser significativas  sobre a maiorias das perspectivavas encontradas, onde sempre o sujeito procura uma melhoria e posteriormente tem o desejo de voltar a terra de origem, não somente a passeio.
Neste caso não é apenas a condicionante econômica que levou este indivíduo a buscar um novo lugar, ele se torna imigrante não somente como força de trabalho, mas também como forma de se refugiar da construção espacial desigual que cria/leva a muitas pessoas viverem na e da marginalidade, o sonho de paz ao qual ele se recorre, talvez seja uma sociedade mais justa e igualitária, ou quem sabe seja a vontade de ir a um lugar que possam ter relações parecidas com as suas estabelecidas no Nordeste e que tenham se perdido no processo de des-territorialização ao longo de sua vida.
É perceptível que os fenômenos de migração não são em si apenas uma mobilidade dentro do território, mas que envolve inúmeros aspectos capazes de configurar os espaços dados à distinção cultural de indivíduos ali presentes.
Neste aspecto, a migração acaba testemunhando a necessidade permanente de superar situações que se desgastaram e que precisam ser ultrapassadas. A migração sinaliza a urgência de mudanças e condicional a uma movimentação populacional no território em busca dos mais diversificados anseios que vão desde a sobrevivência para os pobres e refugiados ao turismo pela classe alta.

FECHAM-SE AS CORTINAS E PERMANECEM AS QUESTÕES

Vale a partir do exposto ate aqui, refletir sobre a relação entre crise e mobilidade humana. As crises sociais, econômicas, políticas ou culturais costumam “produzir” deslocamentos humanos.
Identificou-se que neste processo migratório, que há uma ligação vinculada ao eixo campo-cidade, em que esta mobilidade espacial pode ser vista por meio dos recursos de uma mão de obra proveniente do Nordeste brasileiro em especifico para trabalhar principalmente na atividade agrícola entre os anos de 1950 e 1970, para sustentar toda a infraestrutura alimentar da nova demanda nos grandes centros da região Sudeste.
Inúmeros fatores dão conta dessa nova complexidade da mobilidade humana, em âmbito mundial. O que se verifica é um vaivém mais ou menos desordenado, em todas as direções. Os migrantes acumulam em suas experiências várias saídas e várias chegadas, numa tentativa constante e praticamente vã de se fixar definitivamente. As trajetórias se repetem, torna-se difícil distinguir idas e vindas.
Destaca-se, contudo, que as migrações em si representam um fenômeno basicamente positivo. Não podemos esquecer o direito humano de ir e vir, as funções sociais e econômicas dos deslocamentos, a relativa melhoria das condições de vida da fuga de situações de opressão ou de catástrofes ecológicas, as novas oportunidade abertas e o enriquecimento cultural decorrente do encontro entre diferentes povos, culturas e religiões.
A maioria dos migrantes é atraída a abandonar a própria terra ou o próprio bairro, procurando melhores condições de vida e fugindo de situações de violência estrutural e doméstica; sendo este um grande desafio, pois “migrar” é um direito humano, mas “fazer migrar” é uma violência a sobrevivência humana.

Referências Bibliográficas

BECKER, O. M. S. Mobilidade Espacial da População: Conceitos, Tipologia, Contextos. In: Explorações Geográficas: percursos no fim do século. Org. CASTRO, I. E. et al. Bertrand Brasil. Rio de Janeiro,1997.
COSTA, R. H. Desterritorialização e Mobilidade. In: O mito da desterritorialização: do “fim dos territórios” à multiterritorialidade. Bertrand Brasil. Rio de Janeiro, 2006.
MARTINS, J. S. O problema das migrações e da exclusão social no liminar do terceiro milênio. In: A sociedade vista do abismo. Rio de Janeiro.  Vozes. 2003.
SAYAD, A. O que é um Imigrante. In: A Imigração ou os Paradoxos da Alteridade. Editora da Universidade de São Paulo. São Paulo, 1998.

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