Contribuciones a las Ciencias Sociales
Febrero 2013

AS COMPREENSÕES SUPERFICIAIS A RESPEITO DAS QUESTÕES HOMEM-NATUREZA NA SOCIEDADE CAPITALISTA



Christian da Silva Simões (CV)
christiansimoes@yahoo.com,br
Andreisa Damo (CV)
Andreisa Damo
Universidade Federal do Rio Grande, Brasil

RESUMO

O ser humano, ao longo do seu desenvolvimento histórico sempre fez uso da natureza como forma de suprir suas necessidades. Sua relação com a natureza, assim como a de outras espécies, causam transformações no meio natural, bem como em si mesmos, ao interagirem com ela (natureza) na obtenção dos elementos essenciais às suas vidas. No entanto, o modo de produção capitalista, em sua lógica incorrigível, tem elevado essa relação de degradação a níveis sem precedentes na história. No núcleo desse processo está a ganância que move um grupo restrito de seres humanos, pela busca incansável do lucro, a exaurir a força humana de trabalho e os recursos existentes na natureza, ao considerá-los em seu valor de troca, como fontes de riqueza. O contexto de crise civilizatória que estamos vivendo, traçada nas práticas essencialmente insustentáveis da sociedade capitalista, está a exigir dos sujeitos o rompimento com certas compreensões superficiais e ingênuas sobre os fenômenos e processos que envolvem as questões socioambientais, para que desenvolvam um nível crítico de consciência que lhes possibilite reconhecer as contradições da ordem burguesa para superá-las. Nessa direção, o objetivo do estudo que ora engendramos é lançar luz sobre as causas reais para os problemas socioambientais que enfrentamos, que são de ordem ecológica em sua concepção mais ampliada, analisando os motivos pelos quais estas reais causas não estão sendo suficientemente compreendidas pelos sujeitos, o que dá origem a representações superficiais e ingênuas sobre a totalidade das relações desenvolvidas sobre esse modo de produção enquanto motor da crise civilizatória que nos mazela em seus mais diversos desdobramentos e efeitos.

PALAVRAS-CHAVE: Ecologia, Marxismo, Modo de Produção Capitalista, Crise Civilizatória, Consciência de Classe.

The superficial comprehensions ABOUT HUMAN-NATURE IN the CAPITALIST SOCIETY

ABSTRACT

Human beings, throughout their historical development always made ​​use of nature as a way to meet their needs. His relationship with nature, as well as other species, causing changes in the natural environment as well as themselves, to interact with it (nature) in obtaining the essential elements of their lives. However, the capitalist mode of production, in its logic incorrigible, this ratio has increased degradation to unprecedented levels in history. At the core of this process is the greed that drives a small group of humans, the relentless pursuit of profit, to exhaust the strength of labor and human resources existing in nature, to consider them in their exchange value as sources of wealth . The context of civilization crisis that we are living, drawn essentially unsustainable practices of capitalist society is demanding the breakup of subjects with certain superficial and naive understandings about phenomena and processes that involve environmental issues, to develop a critical level of consciousness enabling them to recognize the contradictions of bourgeois order to overcome them. In this sense, the goal of the study is that now outlined shed light on the real causes for the environmental problems we face, which are of ecological order in its broader conception, analyzing the reasons why these real causes are not being sufficiently understood by the subjects , which gives rise to superficial and naive representations about the totality of relationships developed over such methods as motor civilization crisis that the illness in its various ramifications and effects.

KEYWORDS: Ecology, Marxism, Capitalist Mode of Production, Civilization Crisis, Class Consciousness.




Para citar este artículo puede utilizar el siguiente formato:
da Silva Simões, C. y Damo, A.: "As compreensões superficiais a respeito das questões homem-natureza na sociedade capitalista", en Contribuciones a las Ciencias Sociales, Febrero 2013, www.eumed.net/rev/cccss/23/sociedad-capitalista-ambiente.html

O estudo que ora engendramos a respeito de como estão sendo tratados e enfrentados os problemas ambientais no contexto da crescente e preocupante ameaça de catástrofe ambiental que nos cerca tem como ponto de partida e fundamento a perspectiva teórica marxista. Não é nenhum exagero alertar a crise civilizatória que estamos vivendo em termos de catástrofe se consideramos que nenhum modo de produção anterior ao capitalismo atingiu níveis de degradação ambiental tão elevados a ponto de por em risco toda a vida do Planeta.
Nossa compreensão parte do reconhecimento da insustentabilidade como um problema essencial do modo de produção capitalista, que é, portanto, orgânico a este e o constitui estruturalmente, sendo, desta forma, um produto de sua lógica funcional. Vivemos uma crise no âmbito das relações dos seres humanos em sociedade e com a natureza, na qual os valores forjados na ordem capitalista instituem uma crise civilizatória sem precedentes, atentando para a necessidade de transformarmos as relações do capital.
É-nos cara a possibilidade de, com as reflexões ora engendradas, ampliar a compreensão da ecologia para além de visões romantizadas da natureza, de reducionismos e concepções abstratas e fragmentadas que limitam as relações ecológicas àquelas estabelecidas biologicamente nos seres vivos entre si e com o meio, buscando entender a ecologia como uma totalidade de relações dos seres humanos em sociedade, e destes com a natureza não humana, a qual não está simplesmente “diante de nós”, mas faz parte e integra o mundo que produzimos; ecologia como a habitação dos seres humanos por meio da cultura, de tudo o que é produzido do trabalho humano criativo, nosso fazer, pensar e sentir. O ser humano como parte inseparável do meio, que é por ele transformado e o transforma processualmente quando, ao dar significado ao mundo, aos seus objetos e fenômenos, às pessoas, suas produções, e às demais formas de vida, compreende-o essencial, e entende a necessidade de não destruí-lo, mas de, ao contrário, torná-lo sempre melhor.
Entendemos que na natureza todos os fenômenos estão inter-relacionados, o que significa dizer que as nossas ações individuais e coletivas sobre o restante da natureza consequentemente resultam na modificação desta. Tais transformações sempre ocorreram como produtos inevitáveis da relação dos seres humanos com o mundo/natureza, como expressão do trabalho humano. Entretanto, é preciso atentar para o fato de que, sob o modo de produção capitalista, essas modificações têm forjado níveis de degradação que extrapolam todas as explorações já vistas da natureza enquanto totalidade por meio de um processo alienador que, exaure a natureza humana pela exploração da sua força de trabalho, da mesma forma que esgota e degrada a natureza não-humana em função da extração de recursos muito além da  capacidade de recuperação da mesma, causando danos muitas vezes irreversíveis ao ambiente e  às espécies que o habitam.
O capitalismo, como alerta Almeyra, conseguiu em período histórico de apenas seis séculos colocar em risco todo o Planeta, através de uma série de interferências desastrosas em todos os meios de vida da Terra, “rompeu o isolamento dos continentes e dos ecossistemas, modificou profundamente todas as espécies, seus habitats e o equilíbrio entre eles e o meio ambiente, desmatou, contaminou os mares, os rios, o ar” (2011, p. 11). Isso tudo para manter um padrão de vida que somente é possível a uma parcela muito pequena da população mundial.
Em meio a toda esta crescente degradação, algo que tem chamado a atenção, porém muitas vezes com características muito mais panfletárias e midiáticas do que científicas, é a preocupação com a vida humana em nosso Planeta: nossa espécie continuará a fazer parte deste processo?
De acordo com Almeyra: “A nossa espécie, como tal, não está separada da natureza, mas faz parte dela e interage com todas as outras espécies, que também a modificam continuamente e a depredam” (2011, p. 11), mas o que nos diferencia de forma substancial das demais espécies, principalmente dos demais animais - mesmo os mais próximos a nós, como os primatas superiores – é a nossa capacidade de abstração, ou seja, desenvolvemos enquanto seres humanos a habilidade de idealizarmos nossa ação antes de colocá-la em prática, na forma de um planejamento pensado da ação e de um significado atribuído à ação, em função da necessidade de um resultado que, para nós, é pré-visualizado por meio da abstração consciente: sabemos a ação, e o porquê da ação. Somos a única espécie capaz de dar sentido e atribuir hoje valor de troca (através das relações do capital no modo de produção capitalista) aos elementos da natureza, bem como aqueles produtos da própria ação humana (CHEPTULIN, 1984).
Tal reflexão conduz-nos a questionar: o que faz com que a nossa espécie haja de forma a poder contribuir com sua própria extinção? Certamente que esta indagação não tem uma resposta fácil, mas podemos começar com uma palavra: ganância. Entretanto, tal ganância não é um sentimento compartilhado por todos os homens, mas é atributo comum de um pequeno grupo que historicamente foi se firmando por meio da força e foi subjugando os demais através da expropriação dos meios de produção.
Karl Marx, nos Manuscritos Econômico-Filosóficos (2002), constata que a natureza é fonte de toda a riqueza, de tal forma que, se ela se torna propriedade privada de um pequeno grupo, este, por ser possuidor de toda a riqueza poderá determinar como os demais - que são os que nada possuem além de sua força de trabalho - devem viver.
Mas por que esta grande maioria não se rebela e retoma o que dela foi subtraído? Esta é outra pergunta de difícil resposta, mas começaremos com uma palavra: ideologia. Ideologia é a forma como um determinado grupo social compreende a realidade e a partir dela determina a forma como este deve existir, assim como também acaba determinando a forma de existência dos demais grupos sociais, ao operar por meio de estratégias que os aliena para a compreensão exata da realidade, impedindo-os de transformá-la. Na compreensão de Lukács (1983), a subordinação ideológica do proletariado deve-se pela situação e prática de classe, onde as aparências reificadas da economia capitalista levam à subordinação ideológica do proletariado.
Dessa forma, o grupo social dos detentores faz valer seus interesses sobre aqueles que nada possuem, pois estes detêm os artifícios capazes de enganar e iludir esta outra classe social. Podemos citar alguns exemplos destas ferramentas de persuasão: Escola, mídia, religião, entre outras. Leff (2006) explica que uma sociedade estratificada aceita diferenças de poder e, muitas vezes, concorda com a distribuição desigual dos recursos e da riqueza, por meio da influência dos mecanismos ideológicos, jurídicos e políticos de sujeição social e coerção política.
Sabe-se então, que os interesses de todos os homens não são iguais, mas que um pequeno grupo faz valer seus interesses sobre os demais e é assim que entendemos que nossa ação enquanto pesquisadores deve ser orientada: buscar formas de desideologização, ou melhor, formas de possibilitar a produção coletiva de uma outra ideologia, onde os interesses humanos estejam de acordo com o atendimento das necessidades de nossa espécie, o que certamente não é, e nem poderá ser, incondizente com as necessidades das demais espécies.
Estamos entendendo por necessidades humanas aquelas que dizem respeito ao atendimento das funções fisiológicas bem como aquelas destinadas ao intelecto humano, como a arte, a cultura e o lazer. Marx, nos Manuscritos Econômico-Filosóficos (2002), ao analisar a condição de vida dos trabalhadores do século XIX, colocava que estes, por não terem todas as suas necessidades atendidas acabavam vivendo à semelhança dos animais, quando, na melhor das vezes, conseguiam satisfazer suas necessidades fisiológicas, revelando uma conjuntura de extrema desumanização.
Embora tenham decorrido já quase dois séculos dos estudos de Marx, o que se vê hoje não é diferente disto. Quem detém o poder faz com que o trabalhador tenha acesso ao mínimo para continuar a existir enquanto trabalhador e não como sujeito, tendo no Estado o legítimo garantidor desse antagonismo de classes, já que este, embora tenha seus dirigentes eleitos pelo povo, acaba na prática obedecendo aos mandos e desmandos da classe detentora do poder, já que ele, o Estado, surge, desenvolve-se e permanece por meio da luta de classes.
Desse modo, a relação entre o Estado e a classe proprietária – burguesa - é uma relação dialética, na medida em que uma existe em função da outra. O Estado existe mantendo os interesses da classe dominante, fazendo uso para tal, de seus aparelhos ideológicos e a classe dominante mantém-se dominante pela forma como o Estado exerce seu poder sobre a classe dominada, por meio de uma dominação ideológica e alienadora, disfarçada de um caráter democrático, libertador, como se todos os seres humanos fossem equitativamente respeitados.
Para tanto, uma estratégia que ganha grande visibilidade dentro desta sociedade são as políticas públicas assistencialistas que têm servido como forma de atenuar conflitos, amenizando as reivindicações sociais, e fazendo com que os indivíduos historicamente privados de condições dignas de existência sintam-se realizados com a possibilidade de garantir o básico para sua existência. Une-se a isto uma escola que transmite conhecimentos fragmentados e desconexos da realidade, uma Igreja que prega o conformismo e serve como forma de controle social, atando-nos à crença de que somos o que deus quer e uma mídia que vende a ilusão de que podemos ser o que quisermos e que temos condições de ter aquilo que desejamos; no entanto, apesar destas e de outras promessas, os interesses dos grandes capitalistas continuam a prevalecer sobre todos os indivíduos.
Entretanto, ainda que exista quem negue a existência da uma luta de classes, entendemos que, embora muitas vezes sufocada e mascarada, a luta de classes continua a existir e nela colocamos nossas esperanças para que o ser humano atinja um nível de conhecimento – consciência de classe - tal que assegure o fim da sociedade de classes, por meio de processo e fim no qual os interesses individuais correspondam aos interesses coletivos.
Mesmo que estejamos no caminho em direção ao fim da sociedade de classes, muita “estrada” teremos que percorrer. O fim da sociedade de classes somente poderá ocorrer ao atingirmos coletivamente um nível de conhecimento que permita a nossa espécie a vida em sociedade, não da forma como vivemos hoje, mas sobre o fundamento de uma verdadeira alteridade, onde os indivíduos se sintam felizes com a felicidade dos demais e que, assim como diz Marx, no livro I de O Capital (1984), a natureza seja realmente o corpo inorgânico do homem e que não seja considerada como algo que deve ser explorado, degradado e apropriado por alguns, uma vez que ela é de todos.
Nessa trajetória, movida pelo objetivo essencial de engendrarmos o fim da sociedade de classes emerge, então, a preocupação com a forma como estamos nos relacionando com a natureza, incluindo nisto a natureza humana. Tal preocupação diz respeito aos limites de exploração da natureza atingidos pelo modo de produção vigente. Temos por um lado o grupo hegemônico global que defende que a solução para os problemas ambientais pode ser alcançada pelo desenvolvimento de novas tecnologias e de outro, o grupo dos marginalizados, que lutam por fazer valer seus direitos à vida.
Muito embora as questões ambientais estejam tão em evidência, elas são apenas a face aparente de uma crise maior: a crise estrutural do capital. Mészáros, em O Século XXI, Socialismo ou Barbárie? (2003), aponta que a terceira via proposta pelo capitalismo não foi e nem poderá ser a salvação para a nossa espécie. Segundo ele, se continuarmos a acreditar que os males do atual sistema social global podem ser solucionados apenas por meio de novas tecnologias, ainda mais por que o uso destas tecnologias pelo capital é questionável, em questão de décadas e não mais de séculos, a espécie que provavelmente dominará a Terra será a barata. Conforme afirmam Diaz e Zusman:

[...] sem uma crítica política e social de conjunto, não existe possibilidade de abordar seriamente a análise (menos ainda soluções técnicas) capazes de modificar a magnitude dos problemas ambientais desencadeados pelo capital, que continua empurrando a sociedade humana para a destruição e para a barbárie (2011, p. 13).

Entendemos serem válidas todas e quaisquer tentativas de combate aos problemas socioambientais, desde que trabalhem na contramão do capitalismo e, antes de tudo, que tais ações promovam o desenvolvimento de um ser humano omnilateral, no qual o nível de consciência crítica possibilite o desvelamento dos fenômenos que se apresentam na realidade para além de sua aparência, pois o que estamos presenciando são medidas paliativas, uma vez que não procuram atingir a lógica do sistema, ou seja, não irrompem contra a propriedade privada e a consequente obtenção de lucro a qualquer custo, mesmo que este seja um contribuinte para a degradação de nossa própria espécie.
Desde muito ouvimos falar em desenvolvimento sustentável, mais uma falácia defendida pelo capitalismo, se considerarmos que não pode ser sustentável um sistema onde 20% da população mundial consome 80% dos recursos do planeta. A única sustentabilidade que o capitalismo quer é a do lucro. Sabe-se que existem outras formas de produção de energia, de produção de alimentos e mesmo outras formas de relacionamento entre os homens e o restante da natureza que não causariam os danos praticamente irreversíveis que este modo de produção está a causar; porém, o capital não parece disposto a aceitar nenhuma via alternativa a não ser que isto signifique aumento no lucro.
No que diz respeito às tecnologias desenvolvidas em todo o mundo, não há neutralidade nelas, se pensarmos que sua produção e uso atendem a interesses bem definidos e, em sua grande maioria, aos interesses do capital.  Mesmo dentro de instituições públicas é comum o desenvolvimento de pesquisas que trabalham neste sentido. As empresas privadas fomentam tais pesquisas uma vez que tal investimento é muito baixo se comparado ao que teriam que arcar caso tivessem que criar laboratórios próprios e pagar o salário de pesquisadores altamente qualificados.
Assim, o dinheiro público acaba sendo utilizado para benefício de um grupo que irá tirar proveito desta situação e que acabará ganhando duplamente à custa do restante da população. Vejamos um exemplo: se uma empresa privada desenvolve, com o auxílio de uma universidade pública, novas formas de extração de combustíveis fósseis e isso não reflete em uma baixa nos custos de tais combustíveis para o restante da população, tampouco significa a diminuição ou a utilização mais racional de tal recurso, ela está ganhando por duas vezes, entretanto seu discurso será: garantir o abastecimento de combustíveis por pelo menos x anos. Isso apenas para exemplificar, mas não é diferente em outras áreas da ciência, como a medicina, física, química e engenharia, por exemplo.
Mesmo as pesquisas que se propõem realmente a melhorar a qualidade de vida no Planeta acabam por trazer soluções que, segundo Diaz e Zusman (2011) resultam parciais, pois não se propõem a uma mudança no modo de existência da sociedade e, deste modo, acabam por servir aos interesses do capital. Assim, combustíveis alternativos, alimentos orgânicos, construções ecológicas, entre tantas alternativas que surgem no enfrentamento dos problemas socioambientais, se tornam mercadoria que será fetichizada e com isso terá um alto valor de troca, podendo ser consumida por uma minoria que se considera “ecologicamente correta”.
Essa fetichização da mercadoria faz com que os indivíduos, por mais que estejam dispostos a contribuir com outro tipo de sociedade, acabem participando, mesmo que involuntariamente, de sua manutenção. Podemos trazer como exemplo os alimentos orgânicos: em suma, tais alimentos se propõem a respeitar os ciclos da natureza, assim como sua produção não inclui o uso de agrotóxicos; entretanto, a produção desses alimentos vem sendo apropriada pelo agronegócio, que viu neste tipo de produto uma forma de aumentar seus ganhos. Devido ao seu poder econômico, o agronegócio apropria-se da produção dos pequenos agricultores - uma vez que estes não dispõem dos meios adequados de distribuição de sua produção – pagando-lhes um valor muito abaixo daquele que será praticado ao consumidor final. Desta forma, se consumirmos produtos orgânicos que não sejam aqueles obtidos diretamente com os produtores – o que é frequente, devido ao número reduzido de produtores orgânicos emancipados, e ao acesso facilitado às linhas orgânicas nos grandes centros comerciais – estamos contribuindo para a manutenção deste sistema, por mais que pensemos estar fazendo o contrário.
Assim, cada vez mais nos vemos sujeitos desta realidade cruel e devastadora e, embora ainda hoje alguns movimentos se proponham a recusar a produção desenfreada de novas tecnologias, e principalmente o uso deturpado destas e, até mesmo a ideia de progresso, pensamos, assim como Coggiola (2011, p. 09) que “Não temos que renunciar à ideia de ‘progresso’, senão a um determinado modelo dele, que na realidade só beneficia a uma pequena minoria de privilegiados, em detrimento do resto da sociedade”. Isso porque, segundo o autor:

Nunca existiu, não existe e não pode existir, um capitalismo humano, civilizado e ecologicamente responsável. Os que defendem que é possível corrigir a degradação ecológica (com todas as consequências que esta terá para a imensa maioria da humanidade) dentro do sistema capitalista, mentem.
Mentem porque apesar de os preocupar a ameaça que pesa sobre o meio ambiente, aterroriza-os muito mais a luta pelo socialismo, que em última instância seria o fim de seus privilégios (2011, p. 09).

Partilhando desta compreensão é que afirmamos que o futuro da nossa espécie e talvez do nosso Planeta como um todo dependa de criarmos as condições necessárias para o desenvolvimento de indivíduos capazes de reconhecer a insuficiência do capitalismo e, a partir daí, engendrar a produção de outro mundo possível e necessário. Nas palavras de Almeyra:

A sociedade em escala mundial, por conseguinte, tem um desafio em curto prazo: acaba com o capitalismo ou este, mediante guerras e desastres ecológicos, destrói a civilização e até possivelmente as condições de existência da espécie humana (2011, p. 12).

Nessa acepção, os movimentos sociais são um importante instrumento de luta e resistência contra as imposições da sociedade capitalista. Tais movimentos surgem em resposta aos atuais níveis de opressão impostos pelo capitalismo, expressa na degradação ambiental, no desemprego estrutural e na consequente pauperização dos países periféricos. Embora, como entende Leff (2006) o ambientalismo não tenha penetrado propriamente o campo da análise dos movimentos sociais:

a destruição ecológica e a degradação ambiental, ao lado da marginalização social e da crescente pobreza geradas pela racionalização econômica do mundo – pelas ineficazes políticas assistencialistas do Estado e pelas políticas neoliberais de ajuste -, estão impulsionando a construção de identidades coletivas e manifestações inéditas, gerando novas formas de organização social para enfrentar a crise ambiental, questionando, ao mesmo tempo, a centralidade do poder e o autoritarismo do Estado (2006, p. 453).

Leff ainda considera estar faltando aos movimentos - que surgem como resposta aos problemas socioambientais - uma maior articulação, o que possibilitaria um enfrentamento mais eficaz a estes problemas. Acreditamos, assim como o autor, que esta falta de organização e articulação possibilita que alguns movimentos sejam sufocados pelo poder do capital, uma vez que estes muitas vezes correspondem a movimentos que se manifestam localmente e não possuem força suficiente para enfrentar atores hegemônicos globais.
Outro problema, segundo Coggiola (2011), é que estes movimentos converteram-se, para muitos, em um mecanismo de promoção social e fonte de privilégios. Isso porque muitos destes movimentos são mantidos por empresas privadas que tentam provar que os problemas ambientais podem ser resolvidos através de soluções técnicas ou simplesmente podem ser “compensados” através de projetos ditos “sociais” que na verdade servem para iludir e fortalecer a ideologia capitalista entre as comunidades atingidas diretamente por empreendimentos cada vez mais danosos ao meio ambiente.
Nesse sentido, diante do que referimos aqui, reafirmamos nossa posição de que se torna imprescindível o desenvolvimento de uma consciência de classe que possibilite aos seres humanos uma união capaz de produzir uma nova ordem social, pautada nos interesses do conjunto da sociedade e da natureza em sua totalidade, de acordo com uma concepção ampliada de ecologia. O desenvolvimento dessa consciência tem um papel fundamental para o desenvolvimento e articulação de sujeitos capazes de desvelar a realidade para além do que ela se apresenta em sua aparência.

REFERÊNCIAS
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COGGIOLA, Osvaldo. Crise Ecológica, Luta de Classes e a Necessidade do Socialismo. In Contra Corrente: Revista Marxista de Teoria, Política e História Contemporânea. Ano 3, nº 5, 2011, p. 06-10.
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DIAZ, H.; ZUSMAN, C. Crise Ambiental, Ecologia e Marxismo. In Contra Corrente: Revista Marxista de Teoria, Política e História Contemporânea. Ano 3, nº 5, 2011, p. 13-15.
LEFF, Enrique. Racionalidade Ambiental: A Reapropriação Social da Natureza. [traduzido por Luís Carlos Cabral]. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2006.
LOMBARDI, J. C.; SAVIANI, D. (orgs.). Marxismo e Educação: Debates Contemporâneos. Campinas-SP: Editora Autores Associados, s/ano.
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MARX, Karl. O Capital (Crítica da Economia Política). 9.ed.  Livro I, Volume 1. São Paulo: DIFEL, 1984.
MÉSZÁROS, István. O Século XXI, Socialismo ou Barbárie? [tradução de Paulo Cezar Castanheira]. São Paulo: Boitempo, 2003.
MINC, Carlos. Ecologia e Cidadania. São Paulo: Moderna, 2005.
PORTO-GONÇALVES, Carlos Walter. A Globalização da Natureza e a Natureza da Globalização. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2006.
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