Contribuciones a las Ciencias Sociales
Mayo 2012

CARNAVAL, FESTA, ESPETÁCULO



Marielys Siqueira Bueno (CV)
marysbueno@yahoo.com.br
Universidade Anhembi-Morumbi



RESUMO

A festa enquanto manifestação cultural nutre uma sociabilidade festiva que une os habitantes de uma comunidade. Esses eternos rituais que acompanham os homens em momentos extraídos da linearidade do tempo, tem muitas faces. Aqui focalizamos o carnaval como uma festa coletiva repleta de sentidos e significados. O carnaval é um festejar de liberação, um momento de viver intensamente. De origem remota, o Carnaval que incialmente é uma brincadeira de rua, evolui e vai introduzir a dimensão ‘espetáculo’ que conhece a expressão máxima nos atuais desfiles de escola de Samba redimensionando o Carnaval.

ABSTRACT

The party, while a cultural manifestation, nurtures a festive sociability that brings together the inhabitants of a community. These eternal rituals that accompany Man in moments extracted from the linearity of time have many faces. This paper focuses Carnival as a collective party full of significance. Carnival celebrates liberation; it is a magical moment of intense living. Of remote origin, early Carnival celebrations formerly held on public streets have evolved and introduced a dimension of “spectacle”, which reaches its maximum expression in the current technically complex, Samba School parades, adding a new dimension to Carnival.

“As festas abrem espaços no interior da sociedade e oferece a possibilidade para uma participação ativa onde se criam momentos para libertação física e psíquica proporcionando a vivencia da convivialidade”
George Balandier




Para citar este artículo puede utilizar el siguiente formato:
Siqueira Bueno, M.: "Carnaval, festa, espetáculo", en Contribuciones a las Ciencias Sociales, Mayo 2012, www.eumed.net/rev/cccss/20/

A festa é uma dimensão da cultura paradoxalmente universal e única. É única pois toda cultura, realmente todas e de todas as épocas tem seu elenco de festas. Ao mesmo tempo, cada festa e cada festejar é diferente, é único.
As festas, de maneira geral, são ocasiões para as pessoas se reunirem e delas saírem fortalecidas. Nela se instala o clima do riso, da descontração, da despreocupação. Na festa, o futuro e o passado se congelam – o presente predomina, é soberano. Na festa a mente se esvazia do fardo do cotidiano que emperra as ilusões enferruja os sonhos, o imaginário.
Em seu livro Carne e Pedra, Richard Sennet (1994, p.17) diz que “as relações entre corpos humanos no espaço é que determinam suas relações mútuas, como se vêm e se ouvem, como se tocam ou se distanciam” e, citando Hogart, diz que os corpos se tocando são um indício de conexão social, harmonia pois, segundo ele, a falta de contato físico expressa a desordem do espaço urbano.
Maria Laura Viveiros de Castro (20020 aponta para o fato de que a “festa não é só um fenômeno social, como constitui, simultaneamente, um fundamento de comunicação, umas das expressões mais completas e ‘perfeitas’ das utopias humanas de igualdade, liberdade e fraternidade” porque, como ela argumenta, toda festa é um ato coletivo, pois supõe um grupo e também sua participação diferenciando-se, assim, do espetáculo.
Dessa forma, a festa em suas múltiplas modalidades e em seus inúmeros significados, símbolos e contextos, têm em comum o fato de criar um espaço privilegiado para promover, favorecer as relações sociais, a parte vital da chamada “teia da vida”.
Em sua propriedade simbólica e na riqueza do seu imaginário estaria a essência de seu papel e de sua importância pois como mostra Jung, os símbolos não são importantes apenas para o crescimento e estabilidade psicológica do indivíduo mas, também, desempenham a função social muito importante de unir o indivíduo à coletividade mantendo-a coesa. E não apenas isso, pois como mostra Amaral (1998) a festa é uma linguagem capaz de tornar compreensível a vida em meio às contradições da vida social.
A festa tem leveza, nela se vê, se toca, se conecta com o “outro”. Na festa a despesa não é utilitária e a sociedade vê nela uma fonte de energia e criação e, enquanto manifestação cultural comunitária possui uma dimensão social que, no jogo das cores, ritmos, bailados e comidas, cria um distanciamento do tempo da “realidade”.
Hoje, mesmo que predominem os espaços impregnados pelo espírito da modernidade que se caracteriza especialmente pelo transitório, pelo efêmero e contingente e, que determina uma vida linear, direcionada, planificada, torna-se imperativo a constatação de que existem diferentes dimensões na concretude da vida.
As festas brasileiras constituem, inegavelmente, um cenário importante e atraente da cultura e ocupam um lugar privilegiado que favorece a sociabilização através da convivialidade festiva. Seu forte apelo aos sentidos atrai e envolve tanto a comunidade quanto o visitante. Nesse sentido, algumas festas brasileiras que vivenciam uma verdadeira explosão do imaginário em momentos criativos de uma plasticidade rica e atraente como, por exemplo, as festividades do Boi-Bumbá de Parintins no Amazonas e as comemorações do Divino em Pirenópolis em Goiás entre outras, fazem crescer o fluxo de visitantes. E, juntamente com a força do intenso movimento turístico, essas festas tradicionais passam por um processo de expansão e de espetacularização de suas festividades. Apesar dos aspectos positivos e vigorosos dessas manifestações culturais, a expansão de certas festas no cenário nacional tem gerado muitas e variadas reflexões e preocupações pelo fato de localizarem algumas transformações e concessões em função do número crescente de visitantes vindos de várias regiões do Brasil, e mesmo de outros países e essas transformações são vistas como comprometedoras para a tradição cultural.
Essa complexidade, esses problemas ligado às festa comunitárias brasileiras têm sido abordados por vários autores. Rita de Cássia Amaral (1998), em Festa à Brasileira diz que a festa é, conforme o contexto, capaz de celebrar, ironizar, sacralizar a experiência social e, também, pessoal. É capaz, ainda, de resolver, pelo menos no plano simbólico, contradições da vida social, apontando, assim, para seu poderoso papel mediador entre as estruturas econômicas, bem como entre as diferenças socioculturais, restabelecendo pontes entre o sagrado e o profano, entre o coletivo e o individual. Ainda segundo Amaral, a festa é capaz de apreender o sentido de cidadania proporcionando um despertar da consciência de grupo, de comunidade. Por essas razões, entre outras, ela atribui às festas uma tríplice importância social: cultural, por colocar em cenas valores, projetos, artes e devoção; como modelo de ação popular, e como produto turístico capaz de revitalizar e revigorar muitas cidades.
É inegável que o fenômeno turístico pode significar a revitalização dessas festas e oferecer condições para a manutenção dessas expressões culturais sempre ameaçadas de esgotamento e extinção face às condições corrosivas da modernidade. Pode-se dizer que, a despeito da modernidade, da presença invasiva do entretenimento veiculado pela mídia, as festas se multiplicam e ganham notoriedade. Muitas festas tradicionais tornaram-se atrações turísticas, exercendo, pela sua organização, uma ação de destaque, podendo alcançar o nível de instituição nacional. Por sua vez, essas festas oferecem ao turista elementos que o enriquece na medida em que se contrapõem com as atividades predominantemente repetitivas da vida cotidiana, pois que olhar já é participar pela alegria, satisfação que a festa suscita.
No entanto, apesar desses aspectos reconhecidamente positivos é preciso considerar a natureza da interação entre visitantes e residentes pois, segundo Urry, citado por Luiza M.T. Coriolano (1997) existem muitos determinantes conflitivos entre hospedeiros e hóspedes nas relações sociais através das práticas turísticas. Daí a necessidade de avaliar as marcas deixadas por esse intercâmbio que cria novos elementos e/ou novas funções nessas práticas sociais.
Questões como o turismo, a mercantilização, a espetacularização com a consequente intervenção profissional são aspectos questionados no processo de expansão de algumas festas tradicionais. É frequente as atitudes saudosistas com relação ao festejar de “antigamente” do carnaval, do Boi-Bumbá, da cavalhada de Pirenópolis etc., mas é inevitável que essas festas se atualizem na medida em que incorporam técnicas que a modernidade oferece. É inevitável, também, principalmente pela força do movimento turístico, que cresça o fluxo de visitantes que muitas vezes passam a exercer uma forte influência na tradição local.
No entanto, é importante considerar que, embora a modernização social se amplie vertiginosamente aprofundando as mudanças nas formas de expressão, e que as diversas modalidades de comunicação tenham padronizado muitos códigos e símbolos através da cultura de massa, é notável perceber que a cultura popular, especialmente através de seus festejos, revela uma extraordinária vitalidade. Assim, apesar da citada mercantilização, espetacularização e interferências decorrentes do movimento turístico de muitas dessas festas populares do repertório brasileiro, elas continuam fazendo, em seus espetáculos, uma interpretação dos mitos, das lendas e da história através da elaboração expressiva de uma imaginação simbólica que desempenha se papel revelador e crítico.
O imaginário nesses momentos criativos das festas dessa natureza, conforme Balandier (1985) continua o meio privilegiado pelo qual o homem introduz uma materialidade a seus sonhos, às tendências secretas e aos seus fantasmas e à sua necessidade de realização. Segundo ele, o indivíduo assume a vida coletiva e sua própria vida como elas são porque tem de ambas uma representação ao mesmo tempo objetiva e imaginária. Na mesma linha de argumentação, ele conclui que o imaginário permanece e é mais do que nunca necessário. Ele seria uma espécie de oxigênio sem o qual pereceriam toda a vida pessoal e toda a vida coletiva.

Não se pode negar que a festa é uma realidade social importante e que requer abordagens e interpretações múltiplas e complementares. E não se pode negar também que o Carnaval tem o maior destaque e uma maior amplitude no festejar do brasileiro.
O Carnaval não tem uma história linear, com um desenrolar de etapas. Na sua trajetória vai acumulando influências, recebendo acréscimos incorporados e recriados levando a manifestações múltiplas num amplo processo de ressignificação – assim, podemos dizer Carnaval Carioca, Carnaval paulista, Carnaval baiano e Carnaval pernambucano para citar os mais importantes.
Sem deixar de lado os vários sentidos locais, pode-se dizer que o Carnaval no Brasil evoluiu de brincadeiras de rua herdada de seus colonizadores europeus. Se trata de uma série de brincadeiras reunidas sob o termo de ‘Entrudo’. Essas brincadeiras herdaram muitas características da matriz europeia que incluía consumo exagerado de comidas e bebidas, danças, zombarias públicas do divertimento popular. No Brasil, na ocasião do Entrudo as pessoas jogavam umas nas outras, água, ovos, farinha levando às vezes essas brincadeiras ao exagero provocando o descontentamento com o que consideravam uma decadência dos costumes. Esse descontentamento com essas manifestações do Entrudo não era unânime e havia mesmo artigos em jornais que escreviam sobre as batalhas de água com bom humor e malícia.
Depois da Independência, a cultura europeia vai se tronar, para as elites, o parâmetro da moda e do comportamento. Disso surge, com grande sucesso, os bailes de carnaval. A elite iam aos bailes em carruagens abertas exibindo suas fantasias num passeio ostentatório que era apreciado pelo povo que não se furtava de se ‘manifestar’ jogando água, farinha etc.
Junto com a implantação da festa ‘civilizada’ outras modalidades começavam também a tomar forma. As elites passaram a organizar cada vez mais esses passeios reunindo mais carruagens e seguranças para protege-los das “saudações” com limão de cheiro. No Rio de Janeiro esses passeios evoluem até que um grupo organiza o Primeiro Passeio de uma sociedade carnavalesca. Esse evento inicia o surgimento de muitas outras sociedades carnavalescas que vão disputar o espaço do centro da cidade.
Gradativamente, o contexto histórico, a formação populacional de cada região vai criando os contornos da identidade das várias regiões. Mas apesar do desenvolvimento e da ampliação das manifestações carnavalescas de São Paulo, Salvador, Recife, o carnaval carioca continua ser o mais importante, o samba, ritmo típico do Rio de Janeiro surge em condições específicas da década de 20. Paira nessa época o esforço para criar uma identidade dentro de uma nova ordem mundial depois da Primeira Guerra mundial. O conceito de negritude passa a valorizar as produções culturais. O resultado disso é o surgimento de uma variedade de grupos com diferentes influências, e, dessa multiplicidade, vai surgir a identidade do carnaval carioca.
O samba, o batuque dos negros que antes era motivo de repressão e até mesmo prisão, é escolhido então como um traço da cultura brasileira e passa a ser valorizado por esse nacionalismo exacerbado.
O famoso carnaval de rua, espontâneo vai perdendo seu destaque face ao sucesso indiscutível dos desfiles das Escolas de Samba. Assim, a tradição dos carnavalescos que saiam pelas ruas festejando e dançando vai ganhando um caráter competitivo até que culminam com uma regulamentação progressiva até conhecer o sucesso e a visibilidade nacional e internacional de hoje.
A dimensão crescente do carnaval levou os organizadores a se mobilizarem para adquirir um espaço permanente para a apresentação dos desfiles. O Sambódromo surge então como a consolidação de um espaço permanente e adequado aos critérios de apresentação dos desfiles.
Os desfiles cresceram em complexidade técnica, em recursos cenográficos, na grandiosidade das alegorias e efeitos de luz de tal forma que hoje é considerada a maior festa popular do mundo. Os que assistem à apresentação do desfile das Escolas de Samba são unânimes em dizer que tudo que se possa ler e ouvir, imagens que se possam ver, não conseguem transmitir a efervescência da festa, seu aspecto monumental e seu clima feérico. Aliás, segundo Braga (2002) foi o carnaval carioca que inaugurou essa concepção de espaço destinado aos grandes espetáculos de massa que, mais tarde, se expandiu para outras manifestações populares como, por exemplo, a festa do Boi-Bumbá de Parintins que elevou a cidade a nível nacional através da grandiosidade de suas encenações no “Bumbódromo”.
A expansão do “espetáculo” carnaval, dando novos significados à tradição, determinam, evidentemente, importantes modificações. Nesse novo formato ‘espetáculo’, vai exigir, em função da variedade de técnicos, assistentes, especialistas, projetistas, compositores, músicos e os sambistas, um planejamento que requer múltiplos talentos gerando um tecido de atividades sociais criativas, criando, por esse processo, meios de expressão da maior amplitude.
Durante um certo tempo o carnaval carioca ficou praticamente reduzido aos desfiles das Escolas de Samba e aos grandes bailes dos clubes privados. Mas, atualmente, antes do carnaval oficial a população começa a participar dos chamados “ensaios técnicos”. Nessas ocasiões o canto, o ritmo atrai a população da cidade, dos arredores e os turistas – uma verdadeira festa popular com todos os que querem assistir e participar.
O Rio de Janeiro primeiro por sua condição de sede da corte e depois capital da República, serviu de modelo para o carnaval do resto do país.

O carnaval de São Paulo também é um típico festejo de liberação em momentos mágicos de viver intensamente com transgressões protegidas pelo espírito de festejar.
Estas festas também abriam espaço para o papel revelador e crítico que, através dos símbolos, das músicas veiculavam críticas e ironias.
A influência do carnaval burguês carioca foi incorporada por São Paulo graça à riqueza trazida pelo café das cidades paulistas.
Os cordões populares só iriam surgir a partir de 1914. Olga Simson, que pesquisou durante 12 anos sobre a relação dos brancos e pretos no carnaval de São Paulo traçou uma trajetória da formação do carnaval paulistano. Ela acha importante apontar os dois tipos de carnaval de São Paulo – o branco e o negro.
O grupo negro estava concentrado na Barra Funda, Bexiga e Baixada do Glicério onde a tradição negra já era reafirmada. Nessa tradição a dança e a música tinham o papel central.
Ela conta que o paulistano Dionísio Barbosa que morava na Barra Funda que trabalhava numa loja de móveis, foi transferido para o Rio de Janeiro e lá morava na casa de um organizador de rancho e chegou até desfilar no rancho liderado por seu senhorio. Extasiado com essa criação carnavalesca, ao voltar à São Paulo resolveu criar um folguedo carnavalesco na Barra Funda onde residia. Inicialmente lhe deu o nome de Grupo Carnavalesco Barra Funda. Posteriormente receberia o nome de Camisa Verde – nome escolhido pela população porque desfilaram com camisas verdes e calças brancas e chapéu de palha. Mas, por imposição policial tiveram que acrescentar o “branco” para diferenciá-lo do movimento político liderado por Plinio Salgado (os integralistas).
Essa foi então a primeira manifestação surgida como criação específica do carnaval popular de São Paulo absorvendo influências dos ranchos cariocas mas também do samba rural do interior de São Paulo porque Dionísio nasceu e foi criado em Itirapina.
Esses grupos, diz ainda Simson, fazia tudo para conquistar um espaço no carnaval que se desenvolvia na cidade e tinham uma mensagem a ser transmitida – a de denunciar com beleza, mas didaticamente, as discriminações sofridas e mostrar as muitas formas de resistência e luta engendradas pelos extratos populares.
Entretanto, havia um outro tipo de carnaval popular, criado nos bairros operários habitados na sua maioria por imigrantes italianos, espanhóis e portugueses. Eles criaram um carnaval forte de influência europeia, com carros alegóricos, isto é, um carnaval onde no desfile o mais importante era o visual.
Assim, os brancos se concentraram nos carros alegóricos, elaborados em conjunto durante por volta de cinco meses durante o tempo de folga. Eles exercitavam sua experiência artesanal no trabalho com o ferro, com a pintura e com a decoração, elaborando talentosas criações nos barracões do bairro. Eles foram beneficiados, também, por um costume que havia na Europa – a oportunidade que algumas empresas davam aos seus operários de usar, após o trabalho, os refugos, a sucata do processo produtivo para realizarem trabalhos artesanais para que eles cultivassem talentos não utilizados no trabalho rotineiro e repetitivo das fábricas.
Mas essas agremiações nada criavam musicalmente, apenas contratavam uma banda que tocava uma marchinha ou samba de sucesso – geralmente o samba que havia inspirado a criação dos carros alegóricos.
No grupo negro não havia carro alegórico. O estandarte bordado, fantasias simples por falta de recursos era o máximo da criação visual. Mas a criatividade ganhava força no campo da música, dos sambas especialmente compostas para o desfile e também na dança. No campo da dança elaboravam coreografias sofisticadas, principalmente para o grupo de amadoras que correspondiam às pastoras dos folguedos negros cariocas. Era tão grande a sofisticação dessa dança que ela era um argumento convincente para obter a autorização policial pois o carnaval negro não era legalizado, eles tinham de obter a cada ano, a permissão para desfilar pelo centro da cidade.
Possuíam o próprio conjunto musical formado por instrumentos de sopro e de cordas. Esse conjunto musical, durante o ano, tocavam em bailes pagos, e isso era a fonte de renda para a criação do próprio desfile
Mas com a oficialização dos festejos carnavalescos a partir de 1968 e a imposição do modelo carioca de ‘carnaval espetáculo’, tornou-se cada vez mais difícil esse espaço de censura e resistência no âmbito carnavalesco. Segundo Sinsom, a indústria cultural ao transformar o gênero carnavalesco em produto de mercado, esvaziou seu conteúdo étnico-cultural com mensagens pasteurizadas sem maiores significados.
No entanto, diz ela, como resposta a essa situação, surge no grupo negro de São Paulo, a partir dos anos 90, o empenho com a difusão e manutenção do samba tradicional e, procurando juntar pessoas interessadas e novos talentos, criam os núcleos como o Samba de Vela em Santo Amaro, o projeto Nosso Samba em Osasco, o Morro das Pedras em São Mateus entre outros.

Salvador, que entrou para o livro de recordes Guiness como o maior carnaval do mundo, a maior festa popular do planeta, tem seis dias de festa com três circuitos: do Dodô na Barra Ondina, o Osmar no Campo Grande Avenida Sete e Batatinha no Centro Histórico.
A invenção da guitarra baiana ou pau elétrico foi responsável pelo desenvolvimento de uma nova forma de carnaval. Agitou o carnaval de rua de Salvador animados por vários cantores famosos. Os shows dados em cima do trio elétrico passam pelas ruas como Barra, Ondina e Campo Grande atraindo, com uma exuberância rítmica irresistível que atrai foliões vindo de várias partes para a semana carnavalesca de Salvador.
O afoxé em Salvador é formado por pessoas ligadas ao Candomblé e na sua manifestação carnavalesca testemunham a herança cultural africana em seu ritmo e vestimenta. O Olodum que anima o carnaval baiano com seu ritmo contagiante foi, também, fundado como um grupo afro-carnavalesco. Atualmente, desempenham atividades culturais sendo reconhecidos como um grupo cultural de utilidade pública. Com seus 2000 associados abordam temas históricos relativos às culturas africana e brasileira.. Participam, também, de movimentos contra o racismo e pelos direitos humanos.

O carnaval de Recife e Olinda se projeta no cenário nacional com um carnaval de diferentes formas. O frevo é um ritmo que , de certa forma, marca o carnaval pernambucano. O carnaval de rua é animado pelo desfile de várias agremiações, representações de cantores e conjuntos musicais em palanques específicos. Recife possui o maior bloco de carnaval do mundo – o Galo da Madrugada que desfila do sábado de carnaval e é conhecido também como o Sábado do Zé Pereira.
Olinda é considerado o carnaval mais democrático e é a mais popular festa de rua reunindo milhões de pessoas. Pode-se dizer que é o mais popular pois tem realmente o povo como protagonista. Sem sambódromos, nem trios elétricos Olinda tem suas ruas tomadas pelos foliões que, eles mesmos, mantém o ritmo formando um carnaval de todos os matizes.
Por essas características recebeu o título de “Carnaval Participação” pois não existe cobrança de ingresso, nem comissões julgadoras, passarelas nem palanques de autoridades. As censuras e sátiras políticas se manifestam nas marchas e nas formas dos bonecos e fantasias. O boneco mais conhecido é o Homem da Meia Noite que dá o início oficial a zero horas do sábado. Uns blocos ficam até tarde da noite e outros só saem no raiar do dia garantindo uma animação inesgotável com uma variedade incrível de ritmos.
Roberto Benjamim (..anuá) diz que festas como o carnaval, as folias de rei e as folias do Divino, são, na verdade, ciclos de festas, considerando o espaço em que se situam. Na verdade, estamos distantes do tempo em que o carnaval ficava restrito aos três dias. Nos grandes centros esse período se amplia com pré-carnavalescos, festejos de comemoração das escolas etc.
Além disso, por todo o brasil, as cidade são animadas pelo festejo “micareta” que são carnavais fora do período oficial. Muitos desses festejos estão ganhando força e visibilidade e um crescente número de adeptos. Assim essas novas datas do carnaval animam os moradores das cidades brasileiras com o estímulo expressivo dos estudantes.

Vemos então que nas sociedades há sempre espaço para o festejar. Vemos que mesmo com os mecanismos alienantes da economia, as limitações opressoras do poder, da mercantilização, espetacularização, invasão dos turistas e o apelo poderoso dos meios de comunicação, o povo reage infiltrando nos interstícios da sociedade, formas de vivencias revitalizadoras para recuperar seu sentido de participação.
Assim, tanto no carnaval como nas outras festas populares a população sempre encontra maios de sair do papel passivo de espectador para assumir um papel participativo que reforça e nutre os laços sociais e, através das relações sociais que estão na base dessas manifestações ganham um sentido de pertencimento cultural.
Vale lembrar Marilena Chauí (1986) quando aborda a questão da resistência. Diz ela que entre o código de comportamento previsto pelos padrões de relacionamento, de comportamento e a sua incorporação na prática temos que contar com a imprevisibilidade e a vitalidade da ação e da reação dos atores sociais.
A questão que se levanta é que a festa que era a quebrado cotidiano do trabalho passa a ser, com esse processo de espetacularização, o trabalho cotidiano para uma diversidade crescente de novos profissionais. Realmente a preparação para o carnaval começa quase que imediatamente após o término dos festejos. E não é só com relação ao carnaval, os preparativos para as manifestações festivas populares como Boi-Bumbá, festa do Divino etc., exige o envolvimento de muitos participantes no planejamento e na execução das festas. Isso representa trabalhos para muitos mas, também inclui prazer e lazer para muitos que se encontra envolvidos com os ensaios e preparativos.
A festa é, sem dúvida, um período no correr dos dias, que possui um estilo próprio e uma função relevante no interior das quais se desenvolvem dimensões culturais que tem, para o conjunto da vida social, um efeito restaurador que contribui para equilíbrio o social e o individual.
Percebe-se nas funções sociais da festa nos resultados da coesão grupal e no esforço comum que fortalece a identidade grupal, o que fortalece a hipótese de que os festejos da cultura popular de caráter comunitário, pelo seu exercício participativo possui um grande poder de integração que é particularmente importante numa sociedade que estimula um individualismo crescente.
Concluo essas considerações que pretendeu apontar para o papel revitalizante das festas citando Edgar Morin que em sua recente palestra na Sala de São Paulo, defende que é preciso procurar e proporcionar a unidade humana em sua diversidade e afirmando que a unificação não pode ser só técnica e econômica, mas sim de cultura, de pátria e de nações.

BIBLIOGRAFIA
AMARAL, Rita de Cássia de Mello Peixoto. Festa à brasileira: significados do festejar num país que ‘não é sério’. São Paulo. Tese de doutoramento apresentada ao departamento de Antropologia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Sociais da USP. 1998.
BALANDIER, G. Le détour, pouvoir et modernité. Paris: Fayard, 1985.
BENJAMIN, Roberto. Expandindo a proposta da obra fundadora. In 5 Anuário UNESCO/UMESP de comunicação regional. São Paulo: Universidade Metodista, 2002.
Braga, S. Ivan Gil. Os Bumbás de Parintins. Amazonas: EDUA/FUNARTE, 2002.
CASTRO, Maria Laura Viveiros. Os sentidos no espetáculo. Revista de Antropologia. Vol.42, n.1, 2002. P.37 -78.
CHAUÍ, Marilena. Conformismo e resistência: aspectos da cultura popular no Brasil. São Paulo: Brasiliense, 1986.
CORIOLANO, Luiza Neide M.T. Da sedução do turismo ao turismo de sedução. In Turismo, modernidade, globalização. São Paulo: Hucitec, 1997.
SENNET, Richard. Carne e Pedra: o corpo e a cidade na civilização ocidental. Rio de Janeiro/São Paulo: Editora Record, 1997.
SIMSON, Olga Rodrigues de Moraes Simson. Carnaval em Branco e Preto: carnaval popular paulistano. São Paulo: Imprensa Oficial, 2007

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