BIBLIOTECA VIRTUAL de Derecho, Economía y Ciencias Sociales


ANTECEDENTES DO CAPITALISMO

Carlos Gomes
 


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5.4 – REVOLUÇÃO INDUSTRIAL

A revolução industrial, iniciada em meados do século XVIII, definiu-se como um conjunto de transformações económicas e sociais, realizadas no decorrer de algumas décadas, que mudaram radicalmente a fisionomia dos países da Europa Ocidental e se converteram num motor de expansão do capitalismo por outros continentes. Não foi um processo violento mas um conjunto de mudanças graduais e acumulativas que se traduziram numa efectiva aceleração do ritmo de transformações já em curso na formação do sistema capitalista. Revelou-se tão decisiva para todo o futuro da economia capitalista, tão radical na transformação da estrutura e organização da indústria que chegou a ser considerada como o período mais decisivo no desenvolvimento económico e social da época. Na realidade, a revolução industrial representou a transição dum estágio inicial e ainda imaturo e não transformado, para um estágio em que o capitalismo, assente nas transformações tecnológicas, atingiu o seu próprio processo específico apoiado na produção em larga escala e colectiva da fábrica, na aplicação intensiva de capitais, no estabelecimento de relações simples e directas entre capitalistas e assalariados. A revolução industrial completou a génese do sistema capitalista.

A Inglaterra reunia um conjunto de factores favoráveis que lhe permitiram iniciar este processo. Com efeito, dispunha duma mão-de-obra abundante, jazidas de carvão, matérias-primas provenientes das suas colónias no ultramar, rede de transportes de mercadorias, existência dum amplo mercado interno e externo. Ao fim de algum tempo todas estas realidades acabaram por ser partilhadas por outros países da Europa Ocidental.

As formas de exploração da terra tinham já sido alteradas com o desaparecimento provocado das terras de uso comum ou das pertencentes a pequenos proprietários, o que favoreceu os grandes latifundiários, o aumento progressivo da produção agrícola graças ao investimento dos novos proprietários em novas técnicas e sistemas de cultivo. O campo aumentou a oferta de produtos agrícolas devido a uma melhoria das técnicas de produção e utilização de novos instrumentos que vinham já sendo utilizados desde algum tempo atrás. A modernização da agricultura contribuiu para um crescimento demográfico devido à melhoria da alimentação e, também, aos avanços da medicina e dos cuidados de higiene.

Os rendimentos crescentes dos grandes proprietários agrícolas forma aplicados no processo de industrialização em curso. Os capitais disponíveis para a aquisição de matérias-primas eram conseguidos essencialmente pelos comerciantes. A acumulação e o investimento do capital encontraram horizontes cada vez mais amplos a incitar a sua aplicação na aquisição de máquinas e construção de edifícios. A concentração de capital tornou possível uma mudança fundamental na estratégia do investimento, transformando o capital acumulado numa alavanca do processo de transformação do sistema produtivo.

Com base na transformação técnica, o capitalismo atinge o seu próprio processo específico de produção apoiado na unidade de produção em grande escala e colectiva da fábrica. A Revolução Industrial foi marcada por importantes invenções técnicas, tais como: a máquina de fiar hidráulica e o tear de comando mecânico, utilizados na indústria têxtil; a máquina a vapor, uma das mais importantes invenções deste período, que permitiu ampliar a quantidade de energia disponível para a produção. Além disso foram construídos cerca de três dezenas de altos-fornos e numerosos canais para o transporte das mercadorias produzidas pela indústria. São de salientar as relações estreitas existentes entre o carvão, o ferro e o vapor. São considerados factores influentes, a expansão colonial como fornecedora de matérias-primas, acompanhada do desenvolvimento do comércio internacional, a criação de mercados financeiros e a acumulação de capital.

É importante salientar algumas das consequências da revolução industrial. O incremento da produção industrial criou uma oferta sem precedentes de bens comercializáveis, embaratecendo-os de modo significativo. Elevou-se o nível de consumo da população e o desenvolvimento dum amplo mercado de bens e serviços e, se bem que mais lentamente, um expressivo mercado de capitais. A produção em massa foi uma consequência da existência dum mercado capaz de absorver os produtos fornecidos pelas novas unidades de produção, resultante do crescimento interno da população e do seu poder de compra, o aparecimento de novos consumidores nos territórios colonizados.

A economia baseada no trabalho artesanal foi parcialmente substituída por outra dominada pela industria altamente mecanizada e detentora dos meios de produção. As mudanças tecnológicas tiveram efeitos de grande impacto na organização industrial, que passou dum sistema de manufactura assente no trabalho artesanal à fábrica, onde se concentram um grande número de trabalhadores e se intensifica a divisão do trabalho. A criação constante de novas tecnologias aumentou a produtividade.

As economias surgidas da Revolução Industrial caracterizaram-se pela produção massiva e consequentemente pela incorporação mais intensiva do capital.

A expansão do comércio foi favorecida pela melhoria das rotas de transportes. A aplicação de novas invenções e meios técnicos e científicos aos transportes terrestres e marítimos influenciaram o acesso a mercados cada vez mais distantes. Gerou-se uma ampliação da dimensão dos mercados estrangeiros, acompanhada duma nova divisão internacional do trabalho, influenciada pela difusão de matérias-primas existentes em diversas partes do mundo ou de produtos agrícolas levados ao conhecimento doutros povos, embaratecimento de produtos fabricados mecanicamente, novos sistemas de transportes e abertura de vias de comunicação, mediante uma política colonial e expansionista.

Deste modo, consolidou-se o sistema económico capitalista. Os empresários, apoiados numa doutrina que defendia o liberalismo económico, passaram a dominar a produção e os mercados.

As relações de trabalho despersonalizaram-se ao passaram do âmbito familiar, da oficina ou da comunidade, para a fábrica, e agravaram-se com o emprego em enorme escala de mulheres e crianças e o prolongamento do dia de trabalho. Ocorreram também importantes mudanças no modo de vida e nos hábitos de várias classes e camadas sociais.

A diminuição dos labores agrícolas e a procura de operários para as indústrias nascentes impulsionou a migração da população rural para os meios urbanos. Esta população socialmente marginalizada teve de viver, devido à carência de habitações, em espaços reduzidos sem condições mínimas de higiene e comodidade. Assistiu-se a grandes movimentações de povos a nível internacional com grandes diferenças raciais e culturais

A classe de operários assalariados cresceu ao ponto de constituir em algumas regiões a maioria da população activa. Na produção participavam homens, mulheres e crianças a trabalhar durante longas horas sem qualquer protecção legal perante os donos das fábricas ou centros de produção. Em contraste com a situação do proletariado industrial, fortaleceu-se o poder económico, social e político dos grandes empresários, que pagavam baixos preços pela força de trabalho. Face à situação de pobreza e precariedade dos trabalhadores surgiram criticas de vários sectores, nomeadamente ideológicos, políticos e até religiosos, que foram decisivos para o aparecimento de movimentos reivindicativos.


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