2 – TRABALHO
2.1 – PROCESSO DE TRABALHO
O trabalho é um processo entre a natureza e o homem, realizado em condições
históricas que se modificam, inclusive dentro do mesmo sistema económico, pois o
imobilismo não existe na actividade social. Ao trabalhar o homem põe em
movimento uma série organizada de acções directas ou indirectas sobre a natureza
de modo a separar alguns dos seus elementos das suas conexões com as condições
naturais de existência. Os elementos separados tornam-se úteis quer na sua forma
natural quer após as várias mudanças de configuração e de estado que os conduzem
à forma final sob a qual são utilizáveis, ou seja, consumíveis.
Com o desenvolvimento do processo económico, o homem adquiriu a capacidade não
só de transformar a natureza, mas também a de criar novas formas de sociedade.
Esta influência sobre a natureza manifesta-se igualmente por uma intervenção
activa concreta ou por uma intervenção através do pensamento e da capacidade de
concepção. O próprio homem altera também as suas características, tanto físicas
como intelectuais; modificam-se alguns órgãos, principalmente as mãos, e
desenvolve-se o cérebro, o que lhe permite acumular os conhecimentos adquiridos,
transmitir informações através da linguagem e da escrita.
No processo de trabalho o homem aplica o seu esforço duma forma consciente e
intencional, ao utilizar as suas forças físicas, conhecimentos e faculdades
manuais e intelectuais. Este esforço não significa uma forma instintiva de
actividade, mas antes uma capacidade de agir racional e orientada para um
objectivo concreto, que tem por alvo a apropriação de bens naturais e, com eles,
a criação dos produtos necessários à sua existência e a criação de objectos
úteis à sua vida social, ou seja, produzir bens e serviços económicos.
Valendo-se dos instrumentos de trabalho, que entretanto vai criando, o homem
procura adaptar ou transformar os produtos socialmente úteis com um dispêndio
efectivo dos seus músculos, nervos, cérebro.
Aquilo que o homem, como produtor, tira de benefício é representado pelo valor
do seu trabalho. O seu ganho corresponde à incorporação, no produto, do trabalho
que foi necessário para o obter. O trabalho pode resultar estéril ou improdutivo
quando não se manejam correctamente os meios utilizados, não se conhece o fim da
sua aplicação ou os produtos obtidos são prejudiciais ou sem qualquer utilidade.
A valorização do trabalho reflecte a estrutura social de cada época, o grau de
civilização de cada região ou a posição assumida pelas classes sociais,
produtivas ou não produtivas. Para alguns povos, e em algumas épocas, o trabalho
tem sido considerado como uma maldição que pesa sobre o género humano, como meio
de ganhar o sustento, mas sem lhe ser atribuída qualquer dignidade, ou então
como um fenómeno precioso que permite separar o homem do resto do mundo e
torná-lo dono da natureza. Para a aristocracia grega, o trabalho físico
significava: castigo, fadiga, sofrimento, infelicidade, suplício doloroso; era
incumbência dos miseráveis e dos escravos, ocupação esgotante e degradante, que
reduzia o homem à posição de gado. Sob o Império Romano, a classe dirigente
adoptou uma atitude de desprezo por aqueles que desenvolviam um trabalho físico.
O trabalho tribal é considerado intermitente, descontínuo, suspenso desde que já
não necessário. O homem trabalha e produz na sua qualidade de pessoa social,
integrada numa família, numa mesma linhagem, ou como membro dum clã ou duma
aldeia. Ser trabalhador não é um estatuto em si próprio. O trabalho resulta dos
laços comunitários e do exercício das relações preexistentes.