4.5 – MERCADORIA
Uma coisa pode ser útil e produto do trabalho humano sem ser mercadoria. Um
produto só se transforma em mercadoria quando se destina à venda através da
troca, isto é, quando excede as necessidades do produtor e é de interesse deste
proceder à sua venda ou quando é produzido já com essa finalidade. Neste último
caso, o produtor começa a consagrar-se também à produção de bens destinados à
troca, com a finalidade de serem lançados no mercado, para serem vendidos e
usados posteriormente por outros produtores ou pelos consumidores. Nasce a
mercadoria e com ela o mercado, não só, como forma de ligação entre os
camponeses ou os pastores, aos artesãos, caçadores ou pescadores, mas também,
como forma das classes dominantes adquirirem noutras fontes bens de prestígio
fora das usais esferas de influência.
Os produtos do trabalho convertem-se em mercadorias quando aparece a divisão
social do trabalho e quando começam a surgir determinadas formas de apropriação
dos meios de produção e dos frutos do trabalho. A mercadoria assume-se assim
como uma categoria histórica. A redução de produtos a mercadorias é um fenómeno
que mudou a estrutura da sociedade. A produção de bens e serviços, que
representava apenas um esforço dirigido para o sustento da comunidade,
transformou-se num processo de produção intencional de mercadorias, o que
permitiu o enriquecimento privado.
A mercadoria possui duas propriedades essenciais: em primeiro lugar, tem de
satisfazer uma necessidade humana, para consumo ou reprodução, propriedade esta
que reúne as suas características qualitativas, ou seja, constitui o seu valor
de uso; em segundo lugar, como produto susceptível de ser trocado, a mercadoria
é portadora dum valor que representa o trabalho social incorporado na sua
produção. Todas as mercadorias são o resultado do trabalho do homem e tornam-se
quantitativamente comparáveis porque todas incorporam uma certa quantidade desse
trabalho. Só existe mercadoria quando existem pelo menos dois contraentes, ambos
possuidores de bens, convictos de tirarem proveito com a cessão recíproca dos
bens possuídos.
Com o aparecimento das mercadorias alteram-se as relações directas entre
produtores separados e independentes, baseadas no valor de uso, e surge um novo
tipo de relações sociais que envolvem intermediários, que baseiam as suas
compras e vendas no valor de troca. Na prática, estas trocas aparentam tratar-se
de relações apenas entre coisas, o que levou Karl Marx a designar este fenómeno
como feiticismo das mercadorias. Os possuidores das mercadorias não trocam os
seus artigos directamente entre si mas através dos possuidores de dinheiro, em
consequência do que se desenrola um conjunto de vínculos sociais.
A circulação mercantil é a soma de todas as relações de intercâmbio dos
possuidores de mercadorias. Envolve o conjunto de fenómenos económicos que
acompanham e se relacionam com a transmissão ou a troca de bens. É
essencialmente, e não apenas formalmente, distinta da troca imediata de
produtos. As relações de distribuição e de troca dos produtos do trabalho
determinam o “modo de circulação”. As mercadorias entram em circulação quando
procuram compradores e retiram-se da circulação quando chegam às mãos dos
consumidores. As coisas circulam no sentido económico quando estão disponíveis
para a troca e mudam de dono. Importa que seja rápida e segura a circulação
encarregada de fazer chegar o produto ao consumidor e de repartir os rendimentos
por todos os membros da sociedade. Na circulação de mercadorias o dinheiro
funciona como meio ideal de conta e como medida de valor na determinação do
preço da mercadoria vendida.
Os excedentes na esfera da produção, agrícola ou artesanal, entregues como
tributos às classes que detêm o poder, são por elas consumidos, servem de
pagamento aos seus súbitos ou integram-se, através dos mercadores ou dos
comerciantes, no processo de circulação.