BIBLIOTECA VIRTUAL de Derecho, Economía y Ciencias Sociales


ANTECEDENTES DO CAPITALISMO

Carlos Gomes
 


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3 – MEIOS DE PRODUÇÃO

3.1 – MEIO AMBIENTE

O meio ambiente humano inclui o conjunto de todas as condições externas que possibilitam a existência e o desenvolvimento duma comunidade. É um sistema complexo que inclui o meio natural e um meio artificial criado pelo próprio homem.

A influência do meio ambiente natural é uma das mais importantes condições materiais da actividade humana, mas não é decisiva, porquanto o seu aproveitamento depende do nível das forças produtivas e do tipo de relações sociais existentes numa determinada época e sociedade. As características do conjunto do meio natural em que se vive influem sobre o processo produtivo e, por conseguinte, sobre o tipo de actividade económica exercida pelo homem. Uma pluviosidade variável, com precipitações que podem ser violentas ou fracas, raras ou frequentes, influem directamente sobre a quantidade de cereais, frutos ou produtos lácteos. Os cereais e outros produtos sobem de preço e quando as reservas faltam a fome generaliza-se.

O meio geográfico exerce uma grande influência sobre o desenrolar da actividade produtiva, embora este condicionalismo tenda a ser cada vez mais dominado pelo homem. As barreiras naturais, montanhas ou desertos, florestas densas, savanas, grandes rios e lagos ou oceanos, influenciam as relações entre os povos e dão lugar a agrupamentos com posições económicas e expressões culturais distintas. As cadeias de montanhas, na sua maior parte cobertas pela selva densa apresentam sérias dificuldades para a comunicação entre as regiões. A presença de desertos constitui uma barreira a separar povos durante longos períodos e onde a agricultura pode não ser possível ou apenas ser praticada em territórios restritos como os oásis. As florestas densas constituíram obstáculos à comunicação entre povos e à formação de civilizações fundadas sobre uma agricultura intensiva.

Os grandes rios constituíram, por um lado, obstáculos à comunicação entre os homens e à sua deslocação para outras regiões; por outro lado, constituíram fontes de riqueza e progresso. A disponibilidade dum curso de água navegável reduz bastante o custo dos transportes e favorece a agricultura. Nas suas margens surgiram terras férteis que se tornaram pontos cruciais no desenvolvimento dos primeiros grandes Estados divididos em classes. Nos dois países do Médio Oriente, Egipto e Mesopotâmia, os rios atravessam o centro da planície e inundações periódicas enriquecem e renovam o solo. O cultivo regular fixou o homem à terra, contribuiu para a sua fixação e permitiu cultivar mais do que era necessário. Os rios Nilo, Eufrates, Tigre, Indo e Amarelo, tornaram-se pontos cruciais no desenvolvimento de grandes Estados.

Na primeira fase da sua evolução, a humanidade desenvolveu-se com maior êxito em regiões com um clima mais ameno e com um bioma rico. Porém, não se pode explicar esta evolução apenas com a influência do meio geográfico. Ainda hoje, zonas com um solo, um mundo vegetal e animal rico e um clima favorável, mantêm uma economia atrasada e um nível de cultura bastante baixo. Em contrapartida, esta situação não se verifica em áreas com solos pouco ricos e difíceis condições climatéricas.

A influência das condições climáticas no processo produtivo deu lugar a que numa cidade do Perú, no II milénio a.n.e., fosse criado um centro especializado na transmissão de informações sobre os ciclos climáticos de importância para a produção agrícola, serviço que era pago em bens manufacturados pelas comunidades que os recebiam.

Os recursos naturais ocorrem e distribuem-se pelas camadas geográficas em conformidade com a evolução dos processos naturais, mas o seu aproveitamento e transformação verifica-se segundo a aplicação dos esforços meritórios humanos. Extensas regiões situam-se em ambientes complexos, montanhosos ou desérticos, baseadas em diferenças de altitude e acessos de chuvas de monção, com uma grande variação de clima e diversificação de vegetação. Os povos das zonas glaciares, das zonas equatoriais e tropicais atrasaram-se no seu nível de desenvolvimento. Os mongóis não teriam alcançado uma tal expansão e poder se o clima não tivesse favorecido a humidificação das terras de pasto que alimentava os seus cavalos. As deslocações dos povos têm muito a ver com estes obstáculos naturais. A chuva excessiva é tão prejudicial às colheitas como a falta dela. Ambas as situações causam tormento e desolação.

O meio ambiente artificial resulta duma motivação e acção consciente dos homens que depende, em particular, do nível dos conhecimentos técnicos e científicos e da sua aplicação útil. A influência humana sobre o ambiente natural tornou-se muito importante com a expansão da produção: foram abertos caminhos através das montanhas, construídas pontes, barragens, canais de irrigação, foram fertilizadas as terras, desbastadas florestas através de queimadas, intensificada a domesticação e criação de animais e plantas, construídos povoados e cidades, meios de transporte, etc. Esta acção sobre a natureza efectivou-se num quadro social definido pelas relações económicas entre as diversas classes sociais. A actividade humana exercida sobre o meio ambiental traduziu-se também em consequências negativas, tais como, por exemplo: a redução da diversidade biológica que passou a ficar dependente do pastoreio e da irrigação; o desbaste dos limites das florestas com efeitos nas alterações climáticas, na distribuição das espécies animais que contribuiu para erosão dos solos; a exploração excessiva ou inadequada dos terrenos de cultivo originada por interesses das classes dominantes, etc.

As condições ecológicas ou existem na natureza e são directamente utilizáveis ou apresentam-se sobre a forma de materiais a transformar. O meio ecológico exerce uma acção permanente e vinculativa que requer a sua renovação. A sua influência na produção pode facilitar ou refrear as forças produtivas. Por sua vez, as actividades produtivas humanas exercem um intenso e duradouro impacto sobre os equilíbrios naturais, o que aconselha a definir os modos de produzir a fim de salvaguardar o ambiente.


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