BIBLIOTECA VIRTUAL de Derecho, Economía y Ciencias Sociales


ANTECEDENTES DO CAPITALISMO

Carlos Gomes
 


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2.6 – MANUFACTURA

A manufactura é uma forma transitória entre a produção artesanal e a grande indústria. Resultou do crescimento da actividade artesanal e, consequentemente, do emprego dum maior número de trabalhadores. Estes são reunidos num mesmo estabelecimento, já não possuem matérias-primas nem instrumentos de trabalho, deixando de trabalhar em oficina própria e tornando-se praticamente assalariados. O fabrico é ainda sobretudo manual, com o auxílio de alguma ferramenta ou máquinas.

A manufactura revolucionou totalmente o modo de trabalho introduzindo mudanças essenciais na natureza da organização da produção. Dá-se uma mudança essencial nas funções dos produtores. O antigo mestre desaparece com a manufactura, transformando-se num patrão com funções diferentes das que exercia até então. O artesão deixa de criar por completo os objectos, de trabalhar com os seus próprios instrumentos, sob a supervisão do mestre de todas as operações do seu ofício que, por sua vez, deixa de ser o responsável directo pela mercadoria que produz. Surgem trabalhadores a desempenhar funções parcelares, a especializarem-se apenas na execução de algumas tarefas do seu antigo ofício, com perda duma grande parte das suas capacidades profissionais e criativas anteriores. A independência e a criatividade do trabalhador são destruídas, transformando-se este num executor de tarefas monótonas e, por vezes, embrutecedoras.

A divisão manufactureira do trabalho desenvolve a necessidade técnica de concentração dum maior número de trabalhadores num único estabelecimento e a subdivisão do processo produtivo numa série de operações parcelares, acessíveis a indivíduos sem qualquer qualificação. As manufacturas abriram assim as portas à população rural expulsa das suas terras, criaram uma determinada organização de trabalho social e simultaneamente desenvolveram uma nova força produtiva, como meio de produzir mais mercadorias, embaratecer o seu custo e acelerar a acumulação do capital. A manufactura submete os trabalhadores, antes independentes, ao comando e à disciplina do capital, e cria entre eles uma escala hierárquica.

A produção mantém inalterada uma boa parte dos instrumentos de trabalho. O trabalhador tende a adaptar-se, não só ao trabalho especializado que executa, mas também aos instrumentos que utiliza. A concentração das matérias-primas e subsidiárias, dos utensílios e instrumentos de trabalho num mesmo local e a competição entre os trabalhadores conduziu a um aumento de produtividade.

No regime de manufactura, os patrões artífices conseguem estabelecer uma relação directa com o mercado, desempenham o papel do comerciante, realizam a acumulação dum certo capital, organizam a produção na sua relação com os artífices domésticos ou com os trabalhadores reunidos nas suas instalações, que passam a utilizar apenas os instrumentos de trabalho propriedade dos patrões. Assim se forma uma unidade de produção em que elementos já de tipo capitalistas se entrelaçam com elementos anteriores. Com a manufactura surgiram novas industrias, aparecendo o Estado a incentivar e a proteger a sua criação e desenvolvimento, criando ele próprio manufacturas reais ou fomentando a instalação de manufacturas privadas através da concessão de créditos especiais ou privilégios monopolistas.

A propriedade dos meios de produção e a compra de força de trabalho pressupõe a existência dum determinado montante de capital, do qual começa a depender a escala da produção. A finalidade da produção tende a converter-se na valorização dum capital e não mais na reprodução. A valorização do capital começa a ter como base o prolongamento do dia de trabalho, o aumento absoluto do sobretrabalho e, consequentemente, a acumulação da mais-valia absoluta. O lucro torna-se, de forma crescente, o critério de eficácia económica e social.


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