4.7 – DÁDIVAS E OFERENDAS
Dar significa, por definição, oferecer alguma coisa a alguém sem nada receber em
troca, pelo menos de imediato. Porém, nas relações económicas, a dádiva é em
geral seguida de outra dádiva. Tornou-se um modo de agir generalizado e que se
tem verificado quer entre os povos antigos quer entre os actuais. Raramente era
apresentada como um acto unilateral, pois todo o presente pressupunha
reciprocidade. Embora haja esta contrapartida, frequentemente obrigatória, estes
actos só se concebem como distanciados no tempo, não se buscando qualquer
equivalência de valores de uso, não se afigurando qualquer avaliação por uma
unidade comum. A dádiva é algo cedido na expectativa duma resposta de valor
idêntico. Quando esta não existe, aquele que a tinha recebido coloca-se em
estado de dependência.
A dádiva pode originar a permuta, quando a obrigação de retribuir se combina com
a exigência de equivalência, podendo ser considerada como uma permuta diferida.
Tem sido um meio através do qual a troca se efectua fora da racionalidade
económica. A permuta que deriva da dádiva pode pertencer ao domínio económico ou
a um âmbito mais vasto no qual os factores económico e social se acham
interligados. O sistema de dádiva recíproca pode ocupar um lugar de primeiro
plano e regular uma parte importante das permutas económicas ou da distribuição
de papeis de natureza política.
Podem distinguir-se dádivas entre iguais e dádivas hierárquicas. Estas
caracterizam-se pela desigualdade de valores e pela diferença do que se espera
do outro. A oferenda feita por um igual pressupunha, em compensação, outra
oferenda. Em geral, não existe a doação unilateral, mas sim a troca de
presentes. A troca de oferendas desempenhou um papel considerável na vida social
e no resultado favorável de transacções comerciais ou de negociações pacíficas.
Nas relações entre senhores e agricultores, as dádivas eram constituídas por
presentes originalmente espontâneos, mas que a classe dominante passou a exigir
como norma corrente e parte da renda, definindo até as quantidades de cereais,
galináceos ou quaisquer outros artigos. No Império Persa, século VI, ainda havia
“ofertas obrigatórias” que consistiam, de facto, num contributo pago em géneros,
usado entre outras coisas para manter o aparato administrativo do soberano.
Estas ofertas podiam incluir cavalos, concubinas e eunucos.
A dádiva quando dirigida directa ou indirectamente ao adversário tem como
objectivo preciso suscitar uma outra dádiva ainda mais conspícua, que dê nas
vistas, por parte do antagonista no sentido de o prejudicar e de a longo prazo
lhe quebrar a resistência.
No período de expansão do comércio internacional, os mercadores e os grupos
dedicados ao comércio aprendiam a quem se deviam dirigir, de que maneira e com
que presentes podiam promover relações com as sociedades com que projectavam
contactar. Este comportamento foi também comum aos descobridores de novos
territórios e aos colonizadores. Por trás da oferenda existia todo um objectivo
de troca e reciprocidade.