1.10 – CONSERVAÇÃO E ARMAZENAMENTO
Enquanto o ser humano apenas se esforçava por extrair da natureza os meios de
subsistência, obtidos através da recolha directa, de caça e da pesca, ou as
matérias-primas indispensáveis à manufactura dos instrumentos, não tinha
necessidade de os conservar ou armazenar. A obtenção destes recursos naturais só
se justificava quando o consumo directo ou indirecto a isso obrigava, mas sempre
por um espaço de tempo muito curto. Ainda hoje, em zonas tropicais de vegetação
luxuriante, as pessoas apanham um cacho de bananas de uma árvore que se
multiplica naturalmente, sobem a uma palmeira para beberem o leite de um coco ou
escavam a terra para dela retirarem um rizoma ou um tubérculo que cozem ou
assam, para uso imediato como alimento, sem terem necessidade da sua
conservação.
A situação modificou-se com o início do cultivo dos cereais e o desenvolvimento
da agricultura. Os grãos destinados às sementeiras tinham de ser guardados e
conservados em celeiros até à época seguinte. Os destinados à troca tinham de
ser armazenados até à venda nos centros urbanos ou nas feiras. Paralelamente, os
palácios e os templos, que cobravam rendas em espécie pagas com cereais ou
outros produtos agrícolas, careciam igualmente de dispor de sistemas de
conservação e armazenamento. Por sua vez, a prática de preservação de alimentos
servia aos lavradores para esconder uma quantidade de cereais à vigilância e
apropriação senhorial.
Os métodos utilizados na conservação dos cereais eram essencialmente dois:
guardavam-se os cereais em grandes recipientes, enormes vasos de cerâmica ou
tulhas vulgarmente de madeira ou enterrava-se o grão em celeiros subterrâneos
feitos de terra batida, em grandes covas empedradas feitas na terra ou em potes
de barro. Em áreas de grande amplitude térmica, as populações aprenderam a
transformar os alimentos frescos em produtos desidratados que se conservavam
durante longos períodos de tempo e podiam ser facilmente transportados. O peixe
e a carne eram preparados para conservação através da secagem ao ar, de
cozedura, de fumeiro ou salga ou ainda por emersão em óleo ou em tulhas
subterrâneas onde as temperaturas permanecem baixas. Estes métodos eram
conhecidos desde tempos imemoriais. Na Europa, século XIV, desenvolveram-se
processos engenhosos para amanhar e salgar o peixe. A congelação era já
praticada pelos habitantes do Ártico. Embora a técnica de “refrigeração”
estivesse, segundo se supõe, já em uso na China, a conservação de alimentos
perecíveis por meio de gelo natural foi introduzida na Europa no século XVIII.
A armazenagem permitia a conservação e manutenção das sementes, géneros,
mercadorias diversas, durante um certo período de tempo; tornou-se necessária
não só com o desenvolvimento da agricultura, mas também com o aumento de
densidade populacional e a produção de mercadorias. A armazenagem dos alimentos
era feita nas aldeias e nas cidades, onde se mantinham preservados até serem
consumidos, trocados por outros produtos ou vendidos no mercado. Na proximidade
dos centros urbanos era frequente a construção de silos gigantes onde se
concentravam as reservas estatais de cereais. Por vezes, encontram-se estes
celeiros junto às estradas, o que evidenciava a necessidade de abastecer os
exércitos.
No Egipto, as grandes reservas de produtos pertenciam ao Estado, aos templos e
aos grandes proprietários particulares. Nos palácios e nos templos fazia-se uma
escrituração muito cuidada de todos os artigos que diariamente entravam e saíam.
Cuidava-se também do transporte das mercadorias dos locais de produção ou dos
armazéns para o mercado.