BIBLIOTECA VIRTUAL de Derecho, Economía y Ciencias Sociales


ANTECEDENTES DO CAPITALISMO

Carlos Gomes
 


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1.10 – CONSERVAÇÃO E ARMAZENAMENTO

Enquanto o ser humano apenas se esforçava por extrair da natureza os meios de subsistência, obtidos através da recolha directa, de caça e da pesca, ou as matérias-primas indispensáveis à manufactura dos instrumentos, não tinha necessidade de os conservar ou armazenar. A obtenção destes recursos naturais só se justificava quando o consumo directo ou indirecto a isso obrigava, mas sempre por um espaço de tempo muito curto. Ainda hoje, em zonas tropicais de vegetação luxuriante, as pessoas apanham um cacho de bananas de uma árvore que se multiplica naturalmente, sobem a uma palmeira para beberem o leite de um coco ou escavam a terra para dela retirarem um rizoma ou um tubérculo que cozem ou assam, para uso imediato como alimento, sem terem necessidade da sua conservação.

A situação modificou-se com o início do cultivo dos cereais e o desenvolvimento da agricultura. Os grãos destinados às sementeiras tinham de ser guardados e conservados em celeiros até à época seguinte. Os destinados à troca tinham de ser armazenados até à venda nos centros urbanos ou nas feiras. Paralelamente, os palácios e os templos, que cobravam rendas em espécie pagas com cereais ou outros produtos agrícolas, careciam igualmente de dispor de sistemas de conservação e armazenamento. Por sua vez, a prática de preservação de alimentos servia aos lavradores para esconder uma quantidade de cereais à vigilância e apropriação senhorial.

Os métodos utilizados na conservação dos cereais eram essencialmente dois: guardavam-se os cereais em grandes recipientes, enormes vasos de cerâmica ou tulhas vulgarmente de madeira ou enterrava-se o grão em celeiros subterrâneos feitos de terra batida, em grandes covas empedradas feitas na terra ou em potes de barro. Em áreas de grande amplitude térmica, as populações aprenderam a transformar os alimentos frescos em produtos desidratados que se conservavam durante longos períodos de tempo e podiam ser facilmente transportados. O peixe e a carne eram preparados para conservação através da secagem ao ar, de cozedura, de fumeiro ou salga ou ainda por emersão em óleo ou em tulhas subterrâneas onde as temperaturas permanecem baixas. Estes métodos eram conhecidos desde tempos imemoriais. Na Europa, século XIV, desenvolveram-se processos engenhosos para amanhar e salgar o peixe. A congelação era já praticada pelos habitantes do Ártico. Embora a técnica de “refrigeração” estivesse, segundo se supõe, já em uso na China, a conservação de alimentos perecíveis por meio de gelo natural foi introduzida na Europa no século XVIII.

A armazenagem permitia a conservação e manutenção das sementes, géneros, mercadorias diversas, durante um certo período de tempo; tornou-se necessária não só com o desenvolvimento da agricultura, mas também com o aumento de densidade populacional e a produção de mercadorias. A armazenagem dos alimentos era feita nas aldeias e nas cidades, onde se mantinham preservados até serem consumidos, trocados por outros produtos ou vendidos no mercado. Na proximidade dos centros urbanos era frequente a construção de silos gigantes onde se concentravam as reservas estatais de cereais. Por vezes, encontram-se estes celeiros junto às estradas, o que evidenciava a necessidade de abastecer os exércitos.

No Egipto, as grandes reservas de produtos pertenciam ao Estado, aos templos e aos grandes proprietários particulares. Nos palácios e nos templos fazia-se uma escrituração muito cuidada de todos os artigos que diariamente entravam e saíam. Cuidava-se também do transporte das mercadorias dos locais de produção ou dos armazéns para o mercado.


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