El cooperativismo una alternativa de desarrollo a la globalización neoliberal para América Latina
CARLOS GOMES
FORMAS DE PROPRIEDADE
Com o cultivo de plantas e a criação de animais, levantam-se questões
dentro do agrupamento humano relacionadas com a pertença dos objectos
utilizados na produção, com a posse da própria terra ou dos bens
produzidos. A quem pertencem os produtos hortícolas plantados num pedaço
de terra por um indivíduo ou a sua família? A quem pertencem os animais
domesticados ou criados pelos pastores? A quem pertencem os cereais
cultivados pelo camponês ou os artefactos manufacturados pelo artesão?
Para a caça era suficiente a forma
vaga de retenção dum conjunto de território, o que de resto não impedia o
caçador de utilizar outras áreas. Essa forma vaga de posse da terra não
podia convir para cultivar os campos ou criar áreas de pastagem. Nesta
fase de produção agrícola desenvolve-se um conceito de propriedade comunal
de terras semeadas ou de vales e pradarias indispensáveis à alimentação
dos animais. As terras férteis são pertença da colectividade aldeã e a
cultura era efectuada colectivamente ou afecta aos clãs ou às famílias. As
aldeias agrícolas mantêm o principio da propriedade comunal.
A terra não cultivada é
expressamente reconhecida como pertencendo ao clã, à tribo ou à aldeia,
mas quando arroteada e trabalhada torna-se usufruto da família a quem foi
atribuída. Com a conversão à agricultura, a família encontra-se reforçada
em detrimento do clã. Esta transformação social realizou-se lentamente à
medida que foi adoptado o modo de produção alimentar.
Com a vulgarização dos domínios
familiares verificou-se também uma gradual e lenta transição para o
reconhecimento posterior da apropriação privada dos meios de produção
utilizados pela família. O aperfeiçoamento dos instrumentos de trabalho
conduziu à sua individualização, quer por parte dos utilizadores quer dos
artesãos. A enxada ou o arado simples, adaptavam-se melhor ao uso
individual ou familiar, conseguindo-se assim melhores resultados. Isto
provocou a necessidade duma mudança no modo de apropriação dos
instrumentos de trabalho, ou seja, a passagem inevitável da posse
colectiva de alguns meios de produção para a posse individual.
Alguns objectos de uso comum mantêm-se
na posse da comunidade; outros, como armas, peles, adornos pessoais,
utensílios domésticos, são objectos de pertença individual, dificilmente
discutida.
Os agricultores ao deterem a sua
própria parcela de terra arável, os seus instrumentos de trabalho e ao
utilizarem o próprio gado como meio de trabalho, passaram, com o
desenrolar do tempo, a sentirem-se detentores dos meios de produção e, bem
assim, dos excedentes dos bens de consumo produzidos.
As pastagens eram comuns e a posse
dos rebanhos reveste um carácter familiar ou colectivo, mesmo entre os
povos que optaram por uma vida pastoral nómada. Os indivíduos dedicados à
pastorícia tornaram-se possuidores do gado e, portanto, duma importante
fonte de alimentos, trocando depois os seus excedentes por outros produtos
alimentares ou utensílios.
Até ocorrerem estas transformações
no processo produtivo, as comunidades consideravam-se colectivamente
detentoras dos produtos recolhidos. Como vimos, no modo de produção
recolector os produtos são partilhados em comum pelos indivíduos a elas
pertencentes. O trabalho individual de pessoas ou famílias isoladas
pressupõe também a apropriação dos recursos e dos bens produzidos.
O aparecimento do uso particular dos
meios de produção dá lugar a um certo isolamento do indivíduo ou da
família, enquanto que no modo de vida recolector o homem está integrado no
colectivo. Os laços comunais ainda não são destruídos, mas já não se pode
falar de uma inteira fusão do indivíduo com a comunidade.