CARLOS GOMES
MEIOS HUMANOS - CARACTERÍSTICAS FÍSICAS
As características físicas do homem, cuja evolução se verificou ao longo de alguns milhões de anos, constituíram um factor determinante para a realização de tarefas produtivas, que são exclusivas do ser humano.
A postura erecta e o aperfeiçoamento
da locomoção bípede permitiram a posição vertical, a mobilidade do tronco
e a libertação dos membros dianteiros. A modificação na posição da cabeça
alargou o campo de visão e facilitou o controlo da acção das mãos. O
bipedismo alterou completamente a arquitectura do cérebro, permitindo o
aumento da capacidade craniana.
Os pés, onde o dedo grande perdeu a posição lateral, tornaram-se o
principal órgão de propulsão. Desenvolveu-se a capacidade de transportar
objectos ou alimentos a longas distâncias.
As mãos ficaram libertas da locomoção e as modificações físicas ocorridas passaram a ser utilizadas para agarrar coisas e projectar objectos com força e precisão, sob o controlo directo dos olhos e do cérebro. A possibilidade do polegar se poder colocar à frente dos restantes dedos transforma a mão num instrumento próprio que actua como uma ferramenta adequada às tarefas laborais. A mão exerce uma função intermédia entre o cérebro e o objecto e, ainda, uma função especializada e activa do tacto, proporcionando conhecimentos valiosos das propriedades dos bens materiais. A utilização simultânea das duas mãos permite uma coordenação de movimentos em acções complementares.
O desenvolvimento gradual do cérebro e a capacidade de controlar os movimentos constituíram um requisito indispensável ao aproveitamento e criação de utensílios e instrumentos de trabalho. A aptidão intelectual adquirida permitiu ao homem aproveitar de forma útil os bens da natureza, não se limitar a repetir os processos de vida, desenvolver a sua imaginação e desencadear o progresso técnico. A memória cerebral permitiu acumular e transmitir informação às gerações seguintes sobre os modos de trabalho, o fabrico de instrumentos, o mundo circundante ou os hábitos de vivência colectiva.
A possibilidade da emissão de sons e por fim da fala resultou da evolução gradual da laringe, dos lábios e do aumento da capacidade cerebral numa zona especializada. Os homens, na sua actividade conjunta, tinham algo a transmitir entre si. O domínio da linguagem tornou-se um factor importante do processo produtivo.
Com a actividade laboral o próprio organismo dos antepassados adaptou-se às condições do meio e ao próprio trabalho. Este exerceu uma grande influência no seu desenvolvimento físico e mental. A mão sendo um meio de trabalho é também um produto dele. A busca de alimentos e, em especial, a caça estimulou o desenvolvimento e a adaptação dos diferentes órgãos.
As transformações físicas do ser humano, a coordenação do cérebro e da mão, o desenvolvimento dos sentidos e da consciência, da faculdade de abstracção e raciocínio, desencadearam uma superioridade técnica e deram um impulso à actividade produtiva e ao aperfeiçoamento da vida em sociedade que iria determinar o futuro da Humanidade.
Não são sensíveis as alterações às capacidades físicas do homem no decorrer dos últimos cento e cinquenta mil anos. O “homo sapiens, sapiens”, assim denominado pelos antropólogos, é já considerado idêntico ao tipo de homem moderno. As diferenças ocorridas, não influenciaram de forma significativa o conjunto das faculdades físicas postas em acção pelo homem na actividade produtiva. Na África Oriental e Meridional, o “homo sapiens, sapiens” completamente desenvolvido surge entre 130 e 100 mil anos e é assinalada a sua presença na Ásia Ocidental há cerca de 50 mil anos.
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