TURISMO E DESENVOLVIMENTO ESTUDOS DE CASO NO CENTRO DE PORTUGAL

Paulo Carvalho

3.2. Piódão (Serra do Açor): das intervenções às perspectivas dos residentes e visitantes
Centrando a análise na aldeia do Piódão (figuras 1 e 2), importa evidenciar, de forma prévia, a dimensão histórica dos principais problemas estruturais que marcam a evolução deste micro-território de montanha, nomeadamente o isolamento, a escassez de recursos, o afastamento e o desinteresse dos poderes públicos, o despovoamento (entre 1960 e 2001, o Piódão perdeu quase 80% da população residente, fixando-se em cerca de 60 habitantes), o envelhecimento (44% da população residente na freguesia do Piódão apresentavam 65 ou mais anos e apenas 10% eram jovens), o baixo nível de escolaridade e o abandono da paisagem rural (como consequência do declínio acentuado das actividades económicas tradicionais).
Contudo, estamos em sintonia com Moreno (1999: 407), quando refere que o PAH “constituiu uma oportunidade estratégica de promoção do desenvolvimento e projecção do Piódão, e um eixo incontornável em matéria de análise explicativa das mudanças que, desde então, marcam esta aldeia”.

 Quadro 2. Investimento financeiro realizado nas Aldeias Históricas de Portugal (1995-2002)

Aldeia

QCA II            (1995-1999)

QCA III        (2000-2002)

Total
(Euros)

Almeida

5.232.853

437.789

5.670.642

Castelo Mendo

1.331.164

49.561

1.380.725

Castelo Novo

48.972

2.140.623

2.189.595

Castelo Rodrigo

2.606.873

740.661

3.347.534

Idanha-a-Velha

1.587.530

1.723.597

3.311.127

Linhares da Beira

2.437.803

5.434.552

7.872.355

Marialva

2.243.556

1.122.549

3.366.105

Monsanto

1.482.858

255.463

1.738.321

Piódão

5.314.004

241.797

5.555.800

Sortelha

1.793.043

481.896

2.274.939

Trancoso

-

-

-

Belmonte

-

-

-

Projectos Transversais

2.374.815

272.612

2.647.427

Total

26.453.471

12.901.101

39.354.571

                                                                                                                                     
      Fonte: CCRC (2002).

Neste contexto, é relevante enfatizar o plano de candidatura do Piódão (Plano de Aldeia) ao Programa das Aldeias Históricas, em particular as linhas de intervenção definidas para o seu desenvolvimento. A informação publicada pela Comissão de Coordenação da Região Centro (CCRC) relativa aos Planos de Aldeia, apesar de resumida, permite compreender o essencial do Programa de Intervenção definido para o Piódão. Quanto às principais linhas de intervenção, verificamos que a actuação pública aparece segmentada em cinco grandes domínios:
– As infra-estruturas (com a melhoria das condições de salubridade das redes de esgotos e de abastecimento de água, o enterramento das redes de electricidade e de comunicação e a construção de três estações de tratamento de águas residuais);
– Os acessos viários (com o alargamento e rectificação da estrada de acesso à aldeia, de traçado muito abrupto e sinuoso);
– A sinalização (através da implantação de sinalização nos acessos e no interior da aldeia de modo a torná-la mais “visível” e a facilitar a orientação dos visitantes);
– A aquisição e remodelação de um imóvel destinado a Posto de Turismo;
– A realização de pequenos trabalhos de recuperação e de beneficiação da Igreja Paroquial sob responsabilidade do (antigo) Instituto Português do Património Arquitectónico (IPPAR).

 

imagen1

 

 

 

 

 

 

 

 

Fonte: Correia (2009)

Figura 2. A aldeia do Piódão (Serra do Açor/Cordilheira Central), em 2010

Em paralelo, pretendia-se uma cooperação da autarquia com as populações e organismos locais, prestando apoio técnico e financeiro em obras de recuperação e de reposição da traça original dos imóveis (fachadas e telhados).
Quanto ao apoio concedido às economias locais, as acções a desenvolver foram no sentido do melhor acolhimento do visitante, ou seja, a promoção e o desenvolvimento do potencial turístico da aldeia. Pretendia-se intervir ao nível do alojamento com a construção de uma Pousada que respeitasse integralmente as características arquitectónicas da aldeia (a Estalagem do Piódão), e na dinamização das artes e ofícios tradicionais com a criação de ateliês de artesanato e lojas de venda de produtos locais das freguesias vizinhas (trabalhos em madeira, aguardente de mel, mel, cestaria, doçaria, entre outros).

 

Quadro 3. Investimento e projectos concretizados na aldeia do Piódão (1995-2002)
 


Tipologia de Projectos

Intervenções (Nº)

Investimento Elegível

Comparticipação FEDER

%

Infra-estruturas Básicas

7

1.319.158

981.970

23,9

Valorização do Património

1

32.921

24.690

0,6

Arranjos Urbanísticos

1

45.424

31.797

0,8

Fachadas Recuperadas

49

174.111

130.583

3,2

Equipamentos Turísticos

2

3.757.963

2.818.472

68,1

Casas de Campo

2

106.295

40.777

1,9

Micro Empresas

 -

 -

 -

Acções de Animação e Promoção

7

31.326

23.038

0,6

Publicações Editadas

2

49.333

37.000

0,9

Estudos e Apoio Técnico

 -

 -

 -

Total

71

5.516.532

4.088.328

100

                                           Fonte: CCRC (2002).
                                                                                                         Unidade: Euros.
                                                                                                                                                                                                                     
No caso do Piódão, o investimento total, segundo elementos publicados em 2002, foi de 5,5 milhões de euros, distribuído por 71 intervenções (quadro 3). Do conjunto de intervenções realizadas destacamos os equipamentos turísticos (o exemplo mais relevante é a Estalagem da Fundação INATEL, com 3,8 milhões de euros de investimento); as infra-estruturas básicas (1,4 milhões de euros) e a recuperação de fachadas e coberturas (174 mil euros).
Como referimos em trabalho anterior , são visíveis os efeitos locais deste programa (e de outros complementares ), em especial no âmbito das novas actividades (comércio de artesanato; serviços de cafetaria, restauração e alojamento turístico) e equipamentos culturais (posto de turismo e museu).
Por outro lado, encontramos sinais evidentes dos efeitos positivos das intervenções de requalificação e revitalização (decorrentes das Aldeias Históricas) na evolução do número de visitantes em particular no período de 2001 até 2003, atingindo neste último ano o valor máximo de visitas (24175 visitantes) – o valor médio para o período em que existem dados disponíveis, ou seja 1999-2008, é de 16.726 visitantes/ano.
Importa recordar que os eixos vertebradores das intervenções no âmbito das Aldeias Históricas configuram objectivos económicos, sociais e patrimoniais, no sentido de melhorar a qualidade de vida dos residentes (designadamente através da renovação e ampliação da rede de infra-estruturas básicas), criar novas actividades económicas, em particular as relacionadas com o turismo, fomentar a oferta local de emprego e fixar população.
Na perspectiva da população residente, tendo como suporte inquéritos por questionário (realizados em meados de 2008), podemos afirmar que as principais vantagens decorrentes das intervenções estão relacionadas com a ampliação/reforço das redes de infra-estruturas básicas (água, energia eléctrica e saneamento), o turismo (número de turistas, nova imagem da aldeia e sua divulgação), a recuperação do património construído, a construção da piscina fluvial e o arranjo urbanístico do Largo Cónego Nogueira, por ordem decrescente de importância, respectivamente (Carvalho e Correia, 2009).
As maiores preocupações manifestadas pelos residentes no Piódão, no contexto das Aldeias Históricas, enfatizam o turismo e algumas atitudes e comportamentos dos turistas (nomeadamente os seus efeitos negativos em termos de estacionamento na Aldeia, e de privacidade, tranquilidade e segurança dos residentes), o funcionamento da ETAR (estação de tratamento de águas residuais domésticas) e o desinteresse em recuperar a piscina e o seu espaço envolvente (destruídos pela acção tempestuosa das águas, após o incêndio florestal de 2005). As respostas permitiram, ainda, perceber algumas críticas e incompreensão em relação às alterações arquitectónicas de alguns imóveis e no que diz respeito ao acesso (dos privados) aos apoios financeiros para intervenção nas estruturas edificadas. Prevalece, em geral, a ideia de que o esforço de investimento do Programa foi orientado no sentido de privilegiar (mais) os visitantes, relegando para segundo plano os quem vive diariamente na aldeia (Carvalho e Correia, op. cit.)
Em relação aos melhoramentos a concretizar no Piódão, as respostas sublinham a melhoria da assistência médica e do acesso aos cuidados de saúde, a reconstrução da piscina fluvial e sua envolvente, a melhoria dos acessos à aldeia e o aumento dos lugares de estacionamento. A construção de uma casa de convívio, a criação de mais postos de trabalho e a recuperação de imóveis configuram outras opiniões neste domínio (Carvalho e Correia, op. cit.).
No que diz respeito aos visitantes, com base em inquéritos por questionário realizados entre Junho e Setembro de 2008 (envolvendo 550 inquiridos com idade superior a 18 anos que se deslocaram em viatura própria ao Piódão, ou seja cerca de 3,3% dos visitantes/ano registados na última década), foi possível apurar um conjunto de informação que agora destacamos de acordo com os objectivos da presente reflexão.
De forma prévia, é preciso explicar que a amostra é constituída por 67,5% de excursionistas (371 inquiridos) e 32,5% de turistas (179 inquiridos) e apresenta as seguintes características principais: 93% dos inquiridos residem em Portugal (repartidos mais de nove dezenas de municípios – figura 3); 46% dos visitantes apresentam idades entre os 30 e os 49 anos; 44% dos turistas apresentam habilitações académicas de nível superior (valor semelhante tem o 1º ciclo do ensino básico nos excursionistas); a estrutura sócio-profissional é dominada pelos trabalhadores por conta de outrem (excepto funcionários públicos), com 31%, reformados (15%), e empresários e trabalhadores por conta própria (12%).
imagen2

Fonte: Correia (2009)

Figura 3. Distribuição geográfica dos inquiridos, segundo a área de residência, em Portugal Continental

Em relação à experiência e dimensão da visita, os inquéritos revelaram que 73% dos turistas pernoitam na aldeia, preferencialmente, na Estalagem da Fundação Inatel e na Casa da Padaria (TER), com uma permanência média de 2,3 noites/turista. Os restantes 27% ficam alojados em outros locais (Arganil, Fornos de Algodres e Covilhã) e utilizam preferencialmente hotéis e unidades de TER, com uma permanência média de 3,8 noites/turista. Para 77% dos visitantes, o Piódão é o principal destino da visita e cerca de 55% dos visitantes manifestaram vontade de conhecer, no próprio dia ou no dia seguinte, outros locais próximos em especial a Fraga da Pena e a Mata da Margaraça (integrada na Rede Nacional de Áreas Protegidas, na Rede Natura 2000 e nas Reservas Biogenéticas do Conselho da Europa), e ainda a Serra da Estrela, a Aldeia das Dez e a Senhora das Preces. De igual modo é importante assinalar que 65% dos inquiridos ainda não conheciam o Piódão.
Quando questionados sobre o que mais gostaram da aldeia, os visitantes enfatizam o “conjunto” (77%), ou seja, a unidade arquitectónica da aldeia e a sua integração na paisagem, a paisagem natural (10%), e os imóveis recuperados (5%). Em sentido oposto, cerca de 74% dos visitantes referem dificuldades/problemas durante a visita (figura 4), em particular os acessos viários (36%), as dissonâncias arquitectónicas (12%), os imóveis arruinados/abandonados (8%) e outros problemas (18%) como a falta de estacionamento, a abordagem por parte dos comerciantes/apelo à compra de produtos, e a sujidade de certos recantos da aldeia.
           
imagen3                                                                       Fonte: Correia (2009)

Figura 4. Principais problemas referidos pelos visitantes do Piódão

É este, também, o alinhamento principal de sugestões dos visitantes para melhorar as condições de acolhimento do Piódão. Com efeito, as suas respostas manifestam preocupação com o potencial turístico e cultural da aldeia e a necessidade de promover alternativas para melhorar a qualidade de vida da população local, nomeadamente: a melhoria dos acessos viários (52%), iniciativas de uniformização da aldeia (isto é, a eliminação de todas as dissonâncias arquitectónicas) e de recuperação dos imóveis que se encontram em estado de ruína ou abandono (12%), a reconstrução do parque de estacionamento e da praia fluvial referidas por 8% e 6% dos inquiridos, respectivamente. Como “outras sugestões” referidas pelos visitantes (11%), destacamos a instalação de um serviço de multibanco, a construção de um posto de abastecimento de combustível, a inviabilização de propostas para aumentar o sector comercial da aldeia, a promoção de uma maior oferta de restauração, a existência de painéis informativos sobre a aldeia direccionados para o visitante, a maior oferta de alojamento e o alargamento do horário de funcionamento do posto de turismo.
Ainda assim, quando questionados sobre a intenção de voltar ao Piódão, 91% dos inquiridos responderam de forma positiva.


1              Carvalho e Correia (2008).

2        Importa referir as dinâmicas recentes que decorrem na Aldeia por via de projectos e realizações de outros programas, em especial no âmbito do desenvolvimento agrícola/rural, em que se destaca o papel da Associação de Compartes da Freguesia do Piódão.
         No que diz respeito ao Programa LEADER não foi possível obter informação sobre a sua incidência no Piódão, apesar da nossa insistência junto da entidade local credenciada (ADIBER).

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