O FUNDO CONSTITUCIONAL DO NORTE-FNO NO ESTADO DO ACRE: RECURSOS DO POVO, POLÍTICA DE ESTADO, BENEFÍCIOS DA ELITE

O FUNDO CONSTITUCIONAL DO NORTE-FNO NO ESTADO DO ACRE: RECURSOS DO POVO, POLÍTICA DE ESTADO, BENEFÍCIOS DA ELITE

Régis Alfeu Paiva

Volver al índice

 

 

3.4.4 MADEIRA EM TORA, CARVÃO E LENHA

A variação da exploração de madeira em toras variou em torno de 30% da média geral, com picos de 33,3% acima e -28,3% no menor registro. Verifica-se uma ligeira tendência de queda até o ano de 1998, sendo que a partir de 1999 (época em que crescem as liberações do FNO), inicia-se um lento período de recuperação, a ponto do ano de 2004 ser praticamente igual ao de 1993, quando se atingiu o recorde de produção no período estudado, conforme se visualiza no Gráfico nº 19.

Estranhamente, este período de recuperação se coaduna com o início do chamado .Governo da Floresta., de forte propaganda ecologista e com viés preservacionista. Neste intervalo de tempo, encontra-se nos dois primeiros anos uma recuperação lenta (4,7% e 3,2% a.a, respectivamente), iniciando a partir deste período uma recuperação mais forte: 21,09; 43,26; 58,16 e; 76,44%, respectivamente para os anos seguintes em relação ao ano de 1998, o de menor produção.

Verifica-se que a tendência para o carvão vegetal é de estabilidade, não tendo flutuações tão bruscas. Para o carvão, o período compreendido entre 1996 e 2003 foi o melhor, sempre com resultados superiores à casa de duas mil toneladas. Em que pese o ano de 2004 ter registrado uma queda de aproximadamente 500 toneladas, este ano ainda é mais produtivo que todos os outros anteriores a 1996.

Segundo Lima (s/d), em 1973 foi registrada uma produção de 2,03 mil toneladas de carvão, sendo que em 1974 a produção foi de 6,83 mil toneladas. As produções de Carvão e Lenha revelaram uma correlação negativa entre si.

O dado pode ser um indicativo de opção pelos preços, ou seja, produz um ou outro, até por terem a mesma origem. Já a lenha, teve correlação positiva para com a madeira em toras, sendo o argumento justificador o mesmo para com o item anterior: a lenha é um subproduto da derrubada da árvore.

A análise estatística (Anexo nº 01, Quadro 10) revela que o desmate possui correlação positiva apenas com relação à extração de madeira e lenha. Neste caso, era esperado, pois a extração de madeira é ligada com a lenha (esta subproduto daquela), sendo que normalmente está a derrubada da hiléia associada a um aumento nas vendas de toras.

O carvão e a lenha tiveram uma correlação positiva com o PRONAF D e o número de contratos (Spearman), numa indicação de possível produção por pequenos proprietários. O PRONAF A teve correlação positiva com a extração de madeira (Pearson). A linha Promicro foi negativa para Madeira (todos os testes) e positiva para Carvão (Spearman para Contratos). O volume total de financiamentos foi positivo para Lenha e Carvão (Spearman para Contratos).

No tocante a estes produtos, era esperada correlação para com as linhas Prodesin, Comserv ou mesmo Promipec (Vide anexo nº 01, Quadro nº 11), todas relacionadas com setores demandantes em maior ou menor grau destes produtos, notadamente de madeira serrada. Entretanto isso não se confirmou e os dados reforçam a afirmação de mercado consumidor incipiente e confirma Amin(2002); Oliveira; Domingues(s/d). Contudo, o caso do Comserv pode ser creditado ao fato de que as principais liberações foram feitas posteriormente (2005).

3.4.5 CONSIDERAÇÕES SOBRE O EXTRATIVISMO

Em termos de setor extrativo, verifica-se a existência de contradição, em que o
desenvolvimento de alguns setores teve correlação com os recursos do FNO, enquanto os dois produtos responsáveis pela colonização do Acre (castanha e borracha) não tiveram. A forma de exploração baseada no extrativismo tradicional não encontra eco nos modernos tempos de produção globalizada, sendo afetada pelo avanço da tecnologia e da ampliação dos produtos mais rentáveis.

Com relação ao aumento dos produtos madeireiros, este dado era esperado, pois a atual política estadual fez com o que o Estado se voltasse ainda mais para a exploração da hiléia, ainda que sob o discurso do manejo sustentável.

Portanto, as correlações positivas entre o volume de desmates e a exploração madeireira mostram a possibilidade deste manejo não ser tão ecológico quanto o da propaganda oficial. O dado merece um estudo posterior e mais detalhado. De maneira geral, o FNO foi benéfico para com os setores analisados, com destaque para a extração de açaí.