AS RELAÇÕES ARGENTINO-BRASILEIRAS: IDENTIDADE COLETIVA E SUAS IMPLICAÇÕES NO PROCESSO DE CONSTRUÇÃO DO MERCOSUL

AS RELAÇÕES ARGENTINO-BRASILEIRAS: IDENTIDADE COLETIVA E SUAS IMPLICAÇÕES NO PROCESSO DE CONSTRUÇÃO DO MERCOSUL

Daniela Cristina Comin

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1.7 O Peronismo e a “Terceira Posição”

Em 1942, Juan Domingo Perón ascende ao poder através de um golpe de Estado. Para Bandeira (1987), a instabilidade criada na Argentina principalmente em razão da rivalidade entre Estados Unidos e Grã-Bretanha que gerou um fortalecimento dos nacionalismos que, somado ao contexto da Guerra Mundial, criaram um ambiente favorável ao golpe de Estado.

O governo de Perón foi marcado por aquilo que ficou conhecido como “Terceira Posição”, isto é, o presidente argentino que não buscava alinhamentos em um contexto de Guerra Fria onde o mundo estava bipartido ente duas grandes potências: Estados Unidos e União Soviética.

Perón buscou uma maior aproximação com os países da América do Sul e tentou relançar o ABC, o que, segundo Candeas (2005), despertou desconfianças no Brasil de que o peronismo “visava na verdade ao proselitismo regional”. Tais desconfianças fizeram com que Vargas não aderisse ao novo ABC.

Em 1946, Dutra assume o poder no Brasil e Perón é eleito na Argentina. Assim que assumiu a presidência Perón lançou o Plano Qüinqüenal com o objetivo de dar novo impulso ao processo de industrialização da Argentina. O Brasil, por outro lado, já tinha um considerável parque industrial; a usina de Volta Redonda, inclusive, já havia sido construída. Esta vantagem brasileira foi possível graças, sobretudo, à política nacional-desenvolvimentista de Getúlio Vargas e de sua postura política durante a Segunda Guerra Mundial. Vargas soube instrumentalizar o conflito para obter recursos com vistas à construção da Usina de Volta Redonda. (BUENO, 1992). A Argentina, no período, era o terceiro exportador e também importador do Brasil, sendo o principal exportador de trigo e o maior consumidor de insumos e produtos manufaturados do Brasil. (BANDEIRA, 1987).

“Necessidades econômicas e fortes interesses comerciais, a convergirem, impunham, portanto, aos dois países maior cooperação” (BANDEIRA, 1987, p.28). Apesar de alguns acordos firmados no período Bandeira afirma que a cooperação não podia passar do campo comercial em razão de resquícios de suas respectivas posturas na Segunda Guerra Mundial. Havia, inclusive, rumores de que a Argentina estava preparando uma guerra contra o Brasil. (BANDEIRA, 1987).

Capelato (2000) destaca que o ano de 1948 teria sido um marco na questão da identidade latino-americana, pois se discutiu muito a respeito do pan-americanismo em virtude da criação da CEPAL (Comissão Econômica para a América Latina). Porém, no Brasil, era o governo Dutra quem estava no poder e sua política era de alinhamento aos Estados Unidos, o que acarretou em um distanciamento brasileiro de seus vizinhos, inclusive da Argentina que estava sob o governo Perón e que havia adotado a chamada Terceira Posição.

Em 1950, Vargas é novamente eleito no Brasil tendo recebido apoio de Perón. O governo de Vargas continuou com uma política principalmente direcionada aos Estados Unidos, porém, também buscou uma maior aproximação com a Europa. No que tange à Argentina, a relação permaneceu apenas na arena comercial.

Vargas chegou a propor em 1953 que se retomassem os acordos do ABC, tendo sido bem recebida a proposta por Perón que desejava formar uma União Aduaneira na América Latina. Contudo, Vargas acabou desistindo do acordo sob argumento de que ele ia contra a unidade pan-americana. Sua postura recebeu críticas do presidente argentino.

Na verdade, Vargas não queria se amarrar a acordos comerciais porque desejava estar livre para poder articular-se politicamente com diversos países com o intuito de angariar recursos para o desenvolvimento do país.