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Keynesianas
Mario Gómez Olivares

 

O conhecimento, a incerteza humana na visão metodológica de J.M. Keynes

 

 

“If a theory is first proposed and is then confirmed by the examination of statistics, we are inclined to attach more weight to it than a theory which is constructed in order to suit  the statistics. But the fact that the theory which precedes the statistics is more likely than the other to be supported by general considerations-for it has not- presumably, been adopted for not reason at all- constitutes the only valid ground for this preferences”[1].

“Between two set of propositions, therefore, there exist a relation, in virtue of which, if we know the first, we can attach to the latter some degree of rational degree. This relation is the subject matter of the logic of probability”[2].

 

A instabilidade económica e social é atribuída por Keynes à incerteza, à insegurança, às dificuldades de índole monetária e financeira onde se desenvolvem a actividade especulativa e o entesouramento, actividades que constituem um entrave ao processo económico equilibrado, a produção e ao emprego. Os fundamentos metodológicos que influenciam a formação desta visão sobre o funcionamento da economia capitalista são conhecidos no plano da construção teórica mas menos no plano da arquitectura epistemológica. Neste artigo nos propomos, em primeiro lugar por  em evidência a distinção entre o que é atomístico e o que é orgânico, da qual se deriva  uma abordagem que distingue  entre o plano micro e o plano macro dos problemas económicos. Em segundo lugar, investigamos em Keynes  a relação entre lógica e probabilidade, cuja importância irá a ser decisiva para compreender a sua noção de incerteza. Em terceiro lugar, examinar o modo como Keynes sintetiza através da sua  noção de probabilidade,  um método em que privilegia o análise indutivo, sem porém descurar a importância do análise dedutivo.

 

1.         A visão atomística e orgânica na metodologia económica

         

No ‘Treatise on Money‘ Keynes[ 1971] analisa as forças que conduzem à expansão ou contracção da produção e não a explicar o nível do output num determinado momento. Keynes[ 1975] pretendia explicar a dinâmica do output no seu conjunto e o ciclo do crédito num clima de grande controvérsia[3]. A dificuldade de Keynes estava na incapacidade de poder explicar as variações do nível do output e emprego no quadro da estrutura metodológica neoclássica utilizada no ‘Treatise on Money‘: a teoria quantitativa para abordar os problemas macro-económicos, e a teoria do valor e da distribuição para abordar os problemas micro-económicos. Esta dificuldade explicita Keynes assim:

“ The division of Economics between the Theory of Value and Distribution on the one hand and the Theory of money on the other is, I think, a false division. The right dichotomy is, I suggest, between the theory of the Individual Industry or Firm and the rewards and the distribution between different uses of a given quantity of resources on the one hand, and the theory of Output and Employment as a whole on the other hand” [1971, 293].

A certeza de uma abordagem diferente do consensual na época dá lugar a um  ensaio em que as variáveis nominais(moeda e activos financeiros) afectam as variáveis reais(investimento, produção e emprego), em que os aspectos macro e micro surgem claramente esclarecidos e onde a moeda ganha um papel diferente:

 “ we require the complete theory of a Monetary Economy”.. ”for the importance of money essentially flows from its being a link between the present and the future” [1971, p.293].

 

A macroeconomia, uma teoria sobre o output e o emprego no seu conjunto, é um movimento metodológico que permite reavaliar criticamente o significado da teoria dos preços clássica como o único e exclusivo mecanismo de ajustamento do sistema. Separando a macroeconomia da microeconomia é possível abordar os problemas do sistema económico em moldes diferentes e sugerir explicitamente interpretações distanciadas da teoria clássica.

O elemento de continuidade e ruptura entre o ´ Treatise´ e a Teoria Geral está dado pela abordagem que Keynes faz da problemática da relação Investimento-Poupança, que começa pela crítica a teoria clássica dos ´loanable funds´ na determinação da taxa de juro e que acaba na teoria da preferência pela liquidez. Separa-se o vínculo existente entre a determinação do investimento real e a taxa de juro na via clássica dos fundos emprestáveis, criando-se um vínculo entre o investimento e a eficiência marginal do capital.

Keynes traça na Teoria Geral uma nova linha, uma linha entre uma teoria do equilíbrio estacionário e uma teoria do equilíbrio móvel, onde no análise de equilíbrio parcial da firma são dispensáveis as preocupações com as características da moeda, pois as firmas operam com quantidades de recursos fixos e condições constantes. Mas assim que se analisa o emprego como um todo, é necessário uma teoria monetária da produção e do emprego como um todo, porque o capitalismo é um sistema onde existem mudanças de opinião  sobre o futuro que influenciam o presente.

O princípio lógico de distinguir entre as formas atomísticas-aditivas e orgánicas-não-aditivas da organização estrutural revela-se claramente no paradoxo da poupança, na ineficácia da política de reduzir salários não admitindo os efeitos sobre a procura, nas consequências da actividade de entesouramento sobre a quantidade de moeda e no motivo especulação da procura de moeda sobre a taxa de juro.

A crítica à aplicação indiscriminada da forma atomística na teoria económica, tinha realizado Keynes[ 1971] num ensaio sobre Francis Ysidro Edgeworth:

 

“The atomic hypothesis which has worked so splendidly in physics break down in psychics. We are faced at every turn with problem of organic unity, of discreteness, of discontinuity-the whole is not equal to the sum of the parts, comparisons of quantity fail us, small changes produce large effects, the assumptions of a uniform and homogeneous continuum are not satisfied” [ 1971, 262].

 

Segundo R.M. O´Donnell[1983], a origem do problema levantado por Keynes na Teoria das Probabilidades, a falácia da composição, encontra-se no ensaio de 1905 “ Miscellania Ethica” como resultado da aplicação por Moore das categorias atomístico-orgánico à natureza de preceitos éticos, morais, como verdade, beleza e bondade. Isto implica o reconhecimento da importância fundamental que tem para o pensamento lógico-correcto a distinção entre as formas atomísticas( aditivas) e orgânicas(não-aditivas) da organização estrutural.

Precisamente Keynes nega esta doutrina do atomismo como doutrina geral, que permite olhar as variáveis macro-económicas como sendo a soma de partes constituintes, baseando-se na possibilidade da existência de interacção orgânica e interdependência funcional. É que sendo para Keynes a economia uma ciência moral os efeitos da retracção iterativa  das unidades orgânicas  pode por vezes conduzir a uma falácia de composição[4], “and where the latter exists, there would be a logical inconsistency in utilising the approach of methodological individualism and its implied technique of arithmetic summation, thereby invalidating the doctrine of atomism”[1991, 85].

Mas podemos apreciar Keynes como metodologista pluralista no sentido de que o princípio atomístico ou individualismo metodológico se aplica numas condições e o princípio orgânico noutras:

 

 “ to put these concretely, I see no reason to suppose the existing system seriously misemploys the factors of production which are in use...It is in the determining the volume not the direction of actual employment that the existing system has broken down”[1936, 379].

 

Qualquer tentativa de determinar o volume do output e emprego, obrigaram  Keynes incorporar no seu quadro metodológico e, em consequência das suas ideias filosóficas, as duas formas da estrutura organizacional que conduzem a formas do pensamento lógico, tendo privilegiado substancialmente o caminho inexplorado da macroeconomia.

Muito antes de dar lugar à fundação da abordagem macro-económica, Keynes desenvolveu as bases filosóficas que permitem distinguir a composição e decomposição estrutural dos fenómenos económico-sociais. As noções atomístico e estrutural constituem categorias diferentes e contrapostas mas coexistentes na actividade dos agentes económicos, o que permite descortinar não apenas a natureza dos agentes, o seu comportamento e influencia sobre actividade económica, como deslindar os campos da sua influência. Assim o economista teórico pode precisar nos seus modelos os comportamentos que resultam da actividade e interacção dos agentes distinguindo quando se encontram numa situação orgânica ou atomística. Este princípio lógico geral, junto a outros, é um instrumento do pensamento correcto, no sentido gnoseológico, permitindo elaborar teorias correctas e aplicáveis às circunstâncias.

 

2. Os problemas do método científico: a noção de probabilidade

 

J.M. Keynes evitou durante a sua vida intelectual os métodos dedutivos e indutivos nas suas formas extremas. J. Neville Keynes e Alfred Marshall foram os inspiradores dos conhecimentos primordiais em matéria metodológica que Keynes sustentou durante a sua actividade como cientista e economista. J. Neville Keynes[1917], seu pai, era da opinião que diferentes métodos seriam adequados, embora era da convicção que o estudo deveria começar e concluir com a observação, o método dedutivo deveria ser apoiado no método indutivo:

A positive science may be defined as a body of systematized knowledge concerning what is; a normative or regular science a body of systematized knowledge relating to criteria of what ought to be, and concerned therefore with the ideal as distinguished from the actual “ [ 1917, 34].

J.N. Keynes  manifestava a tese de que a procura da objectividade na investigação científica deveria ser  sem o recurso a utilização de hipóteses preliminares ou preconcebidas concernentes ao fenómeno em investigação, extraindo unicamente regularidades e relações causais baseadas em recoleção de factos e a sua eventual repetição. Relativamente ao lugar atribuídos à indução e à dedução ele sustentava que:

“it is necessary, first, to determinate what are the principal forces in operation, and the laws in accordance with they operate. Next comes the purely deductive stage, in which are inferred the consequences that they ensue from the operation of these forces under given conditions. Lastly, by comparison of what has been inferred with what can be directly observed to occur, an opportunity is afforded for testing to correctness and practical adequacy of the two preceding steps, and the suggestion of necessary qualifications” [1907, 212- 213].

Para Marshall, que concordava com Neville Keynes, havia lugar para todos os métodos na teoria. Nesse sentido podemos entender a frase de Marshall:” A ciência económica não é mais do que o funcionamento do sentido comum ajudado por aplicações de análise organizada e de raciocínio geral, os quais facilitam a tarefa de recolher, arrumar e traçar inferências dos factos particulares” ( Princípios, p. 32). Sendo sempre um problema de escolha do método adequado em concordância com a situação. Marshall considerava-se um representante do ‘dull mean‘ entre os dois métodos, embora o próprio como Marshall refere em outro escrito o que é importante é interrogar os factos de forma a apreender a maneira como actuam as causas isoladas e combinadas, aplicando este conhecimento na construção do corpo da teoria económica, para então com ajuda de tal corpo  lidar-se com o lado económico dos problemas sociais. O trabalho é feito à luz dos factos, mas a luz não ilumina directamente, tem que ser reflectida e concentrada pela ciência. Relativamente ao lugar atribuidos à indução e à dedução ele sustentava que:

 

“it is necessary, first, to determinate what are the principal forces in operation, and the laws in accordance with they operate. Next comes the purely deductive stage, in which are inferred the consequences that they ensue from the operation of these forces under given conditions. Lastly, by comparison of what has been inferred with what can be directly observed to occur, an opportunity is afforded for testing to correctness and practical adequacy of the two preceding steps, and the suggestion of necessary qualifications”.

 

Keynes [1971] pensava que Marshall estava mais inclinado para a indução.

O método indutivo não representava atractivo para Keynes, do mesmo modo, rejeitou a visão extrema  e altamente abstracta do método dedutivo para a teoria económica, afirmando que a ciência económica não pode ser nem deveria ser como as ciências naturais. Quando Hume, Hutcheson e também Smith afirmavam que a Economia era uma ciência moral, pretendiam demonstrar que a moral como as outras disciplinas filosóficas, seguia leis positivas. Neste sentido a afirmação de Keynes deve ser entendida de modo diferente, como ciência ética e portanto sometida a influência de normas, valores, crenças, convenções, hábitos e juízos de valor:

 “Economics is essencially a moral science and not a natural science… to convert a model into a quantitative formula is destroy its usefulness as an instrument of thought” [1971, 188-189] A teoria económica: “is a method rather than a doctrine, an apparatus of the mind, a technique of thinking, which helps its possesor to draw correct conclusions [1975, 296].”

Keynes era partidário de uma combinação de ambas metodologias, afastadas as visões inconvenientes de ambas abordagens. Keynes parecia ser mais marshalliano que Marshall no estar no ‘dull mean‘ dos métodos[5]. Na biografia  de Thomas Robert Malthus, Keynes escreve:

 “ But Ricardo, in the course of simplifying the many successive stages of his highly abstract argument, departed, necessary and more than he himself was aware, away from the actual facts; whereas Malthus, by taking up the tale much nearer its conclusion, had a firmer hold on what may be expected to happen in the real world” [Keynes, 1971, 88].

 

Este elemento metodológico revela-se frequentemente através da abordagem utilizada na solução de problemas do tipo ‘problem-dependent nature`‘ que não é senão a ideia que a combinação dos métodos dedutivo e indutivo deve servir o fim último de interpretar os problemas e propor os remédios. Austin Robinson [ 1975, 10] escreve:

 “ He loved argument, he could occasionally be carried away by his own argument into preposterous conclusions and laugh them off. He was delighted when we developed our own argument. He let us talk and intervened only at the very end. If he dominated us, it was in quite a different way. We gradually came to see things very much as he would see them, to accept his valuations of what were priorities, and to accept his conclusion for action because he had led us to make them our conclusions. But his mind was always the quickest. His thinking was more radical and less circumscribed by unconscious limitations of political or institutional assumptions. And not infrequently we were discussing something about Keynes was still developing ideas that he would be publishing in a week or two, and we had the excitement of feeling ourselves on the fringes of policy-making”[ 1975, 10].

 

Isto é patentemente visível numa carta a R. Harrod:

 

“ It seems to me that economics is a branch of logic, a way of thinking... One can make some quite worth while progress merely by using your axioms and maxims. But  one cannot get very far except by devising, new and improved models. This requires, as you say, ‘a vigilant observation of the actual working of our system”[6].

Isto implica que o problema do método exige necessariamente uma visão integrativa de ambos métodos dependendo da tarefa que se defronta, embora tendo consciência dos problemas que ambos métodos colocam ao investigador, pelo que não deve surpreender que a procura da combinação óptima destes métodos seja uma arte singularmente dificultosa. Keynes diria elegante. A este propósito escreve no Treatise on Probability:

“If a theory is first proposed and is then confirmed by the examination of statistics, we are inclined to attach more weight to it than a theory which is constructed in order to suit  the statistics. But the fact that the theory which precedes the statistics is more likely than the other to be supported by general considerations-for it has not- presumably, been adopted for not reason at all- constitutes the only valid ground for this preferences”[1971, 88].

 

Para Johannes J. Klunt [ ,103] o balanço entre os métodos, a preocupação de Keynes, tem sido superada pelo Instrumentalismo ou pelas modernas metodologias de Kuhn e Lakatos, que evitam uma detalhada consideração sobre este balanço.  Não sou muito dessa opinião pelo menos no que refere a Lakatos, e penso ser necessário considerar à importância que Lakatos confere ao indutivismo na construção do hard core e na crítica à cruzada anti-indutivista de Popper. Mas sem dúvida que o problema sobre o adequado lugar a dar ao trabalho teórico  e ao trabalho empírico e a sua integração, esta longe de ser resolvido pelos economistas, o que pode  reforçar a ideia de que a abordagem pelos programas de investigação científica permite capturar melhor o desenvolvimento de uma teoria. Keynes considerou que o trabalho teórico expresso na Teoria Geral era do tipo lógico-deductivo, sem requerer investigação estatística, mas foi construindo o seu modelo explicativo com base em leis psicológicas de base empírica, que expressam a introdução de juízos empíricos, intuições e crenças racionais sobre a conduta dos agentes económicos.

Estes problemas metodológicos são abordados no ‘Treatise on Probability‘. Utilizando a autoridade de R.B. Braithwaite[1975], podemos dizer que se trata de uma contribuição original de Keynes à teoria das probabilidades:

 

“ The originality of Keynes´s approach lay in his insistence that probability, in its fundamental, sense, is a logical relation holding between propositions which is similar to, although weaker than, that of logical consequence..the Treatise contain the first publication of the view that a partial belief is to be justified by knowledge of a logical probability relationship, and these logical relationships form the subject matter of probability theory”[1975, 238].

 

Esta obra de juventude permite a Keynes [ 1908], na base das observações que acreditava serem significativos, indutivamente derivar conclusões lógicas conectadas a essa realidade, sublinhando porem a necessidade de começar com uma probabilidade apriori finita relativamente ao conteúdo de verdade de qualquer generalização, o que significa que deve existir  algum juízo, crença com um valor de verdade aceitável.:

“I have described probability as comprising that part of logic which deals with argument which are rational but not conclusive...(indução e analogia M.G.O).. almost all  empirical science rest of these. And the decisions dictated by experience in the ordinary conduct of life generally depend on them”...” In the majority of case we are content with that other kind of induction which leads up to laws upon which we can generally depend, but which does not claim, however adequately established, to assert a law of more than probable connection. This second type may be termed inductive correlation”[ 1908, 241-244].

Keynes escreve no ‘Treatise‘:

“ Between two set of propositions, therefore, there exist a relation, in virtue of which, if we know the first, we can attach to the latter some degree of rational degree. This relation is the subject matter of the logic of probability”[1908, 6-7].

Os termos certeza ou probabilidade descrevem os vários graus da crença racional sobre as proposições que diferentes quantidades de conhecimentos nos consentem especular. A probabilidade permite o estudo filosófico desses tipos do conhecimento. O grau de crença racional que podemos garantir para essa classe de conclusões, i.e. a sua probabilidade, não tem nada a ver com os acontecimentos actuais. Os conhecimentos sobre os que se baseia a conduta, a ciência ou a metafísica, sobre os quais formamos a maior parte dos nossos argumentos sobre as nossas crenças racionais, é admitido serem inconclusivos em menor o maior grau. Keynes estabelece quais crenças racionais podem ser derivadas de um conjunto de factos que são adquiridos directamente,  todas as proposições são falsas ou verdadeiras, o conhecimento que temos delas depende das nossas circunstâncias, e como frequentemente é conveniente falar de proposições como certas ou prováveis, isso expressa estritamente a relação em que elas estão relativamente ao corpo do conhecimento actual ou hipotético. A teoria da probabilidade é lógica, porque diz respeito com o grau de crença a que é racional especular em determinadas circunstâncias, e não porque as crenças sejam  de indivíduos particulares. A probabilidade nesse sentido não é capricho humano é sobretudo  lógica humana. A probabilidade nos diz que crenças racionais adicionais, certas ou prováveis, podem ser derivadas como argumentos válidos do nossos conhecimentos directos, dado um corpo de conhecimentos directos que constituem nossas últimas premissas. Isto envolve relações lógicas puras entre as proposições que incorporam nosso directo conhecimento e as proposições sobre as quais procuramos conhecimento indirecto. As proposições particulares que seleccionamos como as premissas dos nossos argumentos dependem de factores subjectivos particulares e peculiares a nos próprios, mas as relações às quais outras proposições estão relacionadas e que intitulamos de relações prováveis, são objectivas e lógicas, ele escreve:

 “As a consequence the object of the theory of probability is that knowledge which can be obtained by argument from direct adquaintance with fact. The choise of the facts or propositions used to adquire knowledge by argument is naturally subjective, but the relation, in which other propositions stand to these, and which entitle us to probable belief, are objective and logical”[7].

Esta teoria das probabilidades, é um caminho metodológico do qual Keynes faz sistemática utilização no seu trabalho teórico e que adquire na Teoria Geral uma relevância que convêm ter presente. Fausto Vicarelli [1985, 155] escreve a-propósito:

Most of Keynes‘s interpreters have never questioned his extraordinary ability to face up to the complex and at times dramatic problems of his time. On many occasions however the analysis proposed in the General Theory has been considered as having no relation to the vision of the capitalism which emerges from his earlier, fundamental works. This has created considerable and, in some instances, insuperable difficulties, both in understanding Keynes‘s message ( the theory) and in the analysis of the functioning of the economic system ( the method)”[1985, 155].

A sua concepção das probabilidades está mais próxima da Lógica que das Matemáticas. Vicarelli é da opinião que a concepção de probabilidade de Keynes é mais ampla que a utilizada na frequência estatística de um fenómeno:

 ..” Keynes, recalling the evolution of philosophical and mathematical thought on probability, emphasises how the dominance of frequency-based theory has restricted the application of probabilistic theory to repeatable events, identifying probability with its quantitative measure. There can be no doubt that economist are familiar precisely with this frequency-based approach and that they nearly always reason in term of probability distributions attaching economic significance to means, variance, etc. The Treatise on Probability call for a broadening of conceptual horizons, inviting economist to reason in term of the logical relationship between direct and indirect knowledge[Vicarelli,1985,174, nota nº 9].

Braithwaite [1975, 240] adverte para o facto que mesmo os seguidores da abordagen de Keynes fariam diferente:

 ” But most present-day logicians would be chary of using such verb as ´perceive´ to describe knowledge of logical-consequences relationship: many would instead describe such knowledge in term of the structure and use of language system”.

Assim, a tentativa de utilizar o conceito de equilíbrio no sentido mais amplo, com raízes profundas na tradição do equilíbrio geral, e portanto num quadro metodológico exclusivamente dedutivo permite aproximar Keynes de Walras, dando lugar a interpretações à la Hicks ou à la Patinkin-Clower-Leijonhuvfud, onde o desemprego é explicado pela situação de rigidez no sistema de preços e salários, restrições quantitativas e institucionais.

Mas a aplicação do conceito de probabilidade à Teoria  Geral poderia contribuir para uma interpretação diferente da seguida pela síntese neoclássica, seja pelo seu método seja pelo o seu conteúdo. O aspecto metodológico relaciona-se  com o processo lógico de determinação do equilíbrio de subemprego, as questões de conteúdo referem-se ao lugar das expectativas e ao modo como elas representam a visão de Keynes sobre o capitalismo desde um ponto de vista  teórico. Alias o próprio Keynes alude ao ‘Treatise on Probability‘ na Teoria Geral. No roda pé da página 148 da Teoria Geral, Keynes convida a olhar para o capítulo VI do Treatise sobre o peso( weight) dos argumentos. O termo  ´weight´ significa para Keynes conhecimento relevante. A não consideração desta relação conduz a utilização do conceito de equilíbrio neoclássico nas interpretações da Teoria Geral, formalizando nesse sentido as principais proposições dela.

A habilidade analítica da Teoria Geral, é que ela explica, ao nível mais alto de abstracção, as forças que determinam os níveis do rendimento e emprego num determinado momento do tempo, enfatizando, a coexistência a cada nível de tempo, das decisões baseadas nas expectativas de curto e longo prazo.

A Teoria Geral mostra a incompatibilidade entre o equilíbrio walrasiano, e portanto do pleno emprego dos factores, e a visão do equilíbrio com subemprego keynesiana[8]. Na sua relação com o plano subjacente a Teoria Geral, as comparações entre valores ex-ante e ex-post, que é possível evitar ao interior da abordagem do equilíbrio, baseiam-se em níveis de análise completamente diferentes.Keynes afirma, num esclarecimento teórico publicado um ano após a publicação dessa, deixando pouca margem para dúvidas sobre a utilização da abordagem probabilística:

 

“The expected results are not on a par with the realised results in a theory of employment. The realised results are only relevant in so far as they influence the ensuing expectations in the next production period. Income on the other hand is realised result...Time relationship between effective demand and income incapable of being made precise.. No definitive relationship between aggregate effective demand at one time and aggregate income at some later time. This not matter”[9].

 

A validade da teoria keynesiana da  procura afectiva em diferentes situações de equilíbrio é o argumento mais convincente que o equilíbrio neoclássico ´doesn‘t matter‘ e, que a teoria é construída fora do quadro analítico do equilíbrio geral[10]. Isto implica entender a teoria sem olhar ortodoxamente para a linguagem marshalliana da sua exposição, e portanto considerando que se procura capturar as forças que determinam o output e o emprego[11].

Para Keynes, a teoria económica  era essencialmente uma ciência moral e não uma ciência natural. A teoria  utiliza juízos de valor  e  introspecção, ela tem a ver com  motivos, expectativas e incertezas psicológicas, pelo que não se pode converter num modelo, cuja  fórmula quantitativa, destrui a sua utilidade como instrumento do pensamento.  A teoria económica é mais um método que uma doutrina, um aparato da mente, uma técnica de pensar que ajuda a retirar conclusões correctas. Alias Keynes contrapõe à noção de equilíbrio estacionário a sua noção de equilíbrio móvel [Keynes, 1936, 292-294]. Como se vê a utilização do termo equilíbrio é apenas um problema de método e linguagem, porque o equilíbrio móvel é não-equilíbrio no sentido marshalliano; considerando que o termo equilíbrio, que emprestado da física nos indica algum ponto de repouso, é pela sua vez um método de análise baseado na acção intertemporal de forças económicas, a sua utilização de certo modo abusiva, i.e., num outro sentido, gera apenas confusão. É claro que é esta utilização por Keynes da noção de equilíbrio, uma das confusões frequentemente referida pêlos economistas interpretes do seu pensamento. O problema, porém, não deve ficar na recriminação das confusões, mas si pela procura de entender o que Keynes pensava.

Mas era necessário fundamentar esta visão num método, o qual Keynes propõe no ‘Treatise on Probability‘. Este método é uma abordagem que representa a tentativa de sintetizar os métodos indutivos e dedutivos. O conhecimento que obtemos a través da nossa observação pode ser certo ou provável. É sobre o conhecimento provável que se discute, porquanto o primeiro apenas pode ser possível nas ciências naturais.

Keynes partia de uma noção em que o conhecimento de uma certa proposição oferecida pela evidência é usada para derivar conhecimentos pelo argumento de proposições não observáveis, na base de uma relação lógica existente entre a primeira e a segunda. Se a primeira proposição é indutiva a segunda derivada  pode ser dedutiva, com o que  o conhecimento verdadeiro depende  do valor da crença racional atribuída e associada  as primeiras  premissas. A aplicação deste método da sentido e valor à teoria económica de Keynes. Descobrimos o poder heurístico do método de Keynes quando comparado com o método dedutivo do equilíbrio[12]. Por todo isto podemos concluir que o modelo lógico-probabilistico é baseado no método indutivo suportado dedutivamente[13], que significa que Keynes se ampara em juízos prováveis para construir teorias.

El problema fundamental do progresso científico, y uno fundamental en la vida diária, es el aprender de la experiência. El conocimiento que se obtiene de esta manera es, en parte, meramente descripción de lo que ya hemos observado, pero em parte consiste en hacer inferencias de la experiencia pasada para predecir la experiencia futura. Esta parte puede llamarse generalización o inducción..El processo es tan habitual que escasamente nos damos cuenta de él. Y dificilmente podemos existir por un minuto sin que lo llevemos a cabo. En las raras ocasiones en que alguien lo menciona, se le llama sentido común y nada mas.La parte comun se observa que sólo lo es a grupos homogéneos, lo qual indica que la información que se basa el sentido común es realmente común a los miembros do grupo y que, además, el proceso para procesar  la información es también compartido por todos sus miembros.. La lógica tradicioal ou deductiva admite sólo tres actitudes ante qualquer proposición: Prueba, refutación o total ignorancia. Pero ningún número de instancias previas de una regla proporcionan una prueba deductiva de que la regra se cumplirá en la próxima ocasión. Devemos señalar que la inducción es mas general que la deducción. Cualquier inferencia inductiva incorpora en su propia naturaleza la possibilidad de que la alternativa elegida como la más verosimil pueda de hecho ser errónea. Devido a esta mayor generalidad, la inducción debe incorporar postulados que no se incluyen en la deducción. Estos postulados no pueden ser probados por lógica deductiva, tampoco son generalizaciones empíricas. De hecho, hemos de distinguir las reglas generales de la teoria de su contenido empírico. Las reglas son proposiciones a priori, aceptadas con independencia de la experiencia, y que no afirman nada sobre la experiencia. La inducción es la aplicación de estas reglas a los datos observacionales

3 A probabilidade do conhecimento e a incerteza

 

Keynes distinguiu entre lógica formal e lógica humana, entendendo a primeira como um conjunto de regras para o raciocínio correcto e a segunda como o análise de certos hábitos mentais úteis através dos quais a mente humana usa a informação oferecida pela percepção; distingue entre graus de crença e crenças em geral, admitindo que estes conceitos são profícuos para a teoria das probabilidades:

“ Thus the calculus of probabilities belongs to formal logic. But the basis of our degrees of belief- or the a priori probabilities, as they used to be called- is part of our human outfit, perhaps given us merely by natural selection, analogous to our perceptions and our memories rather than formal logic”[1908, 5-6].

 

A abordagem probabilística das expectativas, no sentido do Treatise[14], ganha maior importância pelo modo como Keynes discute a incerteza na Teoria Geral, o que  é de suma importância porquanto permite ter um ponto de vista diferente com respeito ao papel das expectativas na elaboração dos conceitos de eficiência marginal do capital e de preferência pela liquidez, dois pilares chaves na construção teórica de Keynes.

Por exemplo, essa abordagem encontra aplicação no capítulo 12 da Teoria Geral, dedicado às expectativas de longo prazo, onde Keynes afirma que o estado das ‘long-term expectations‘ depende não apenas das previsões mais prováveis mas também da confiança associada a elas. As decisões económicas são tomadas não num contexto de risco, como no caso de ensaios que se repetem e cujas probabilidades são calculadas na base de frequências, mas sim num contexto de incerteza, caracterizada pela escassez de informação[15].

Mas justamente, uma interpretação das expectativas à luz do conceito keynesiano de probabilidades, permite ver por exemplo a formação das expectativas de longo prazo  e a sua utilização no cálculo da eficiência marginal do capital. Keynes assume que os empresários começam com a observação de uma série de informações que o mercado oferece de um modo regular. A partir dessas, derivam-se uma série de elementos que podem ser usados na avaliação perspectiva do retorno dos investimentos. Desse avaliação perspectiva, baseada num grau de conhecimento resultam expectativas que incentivem o travam o investimento, determina-se uma probabilidade.

Dado que os empresários decidem os níveis de produção na base das suas procuras e das expectativas sobre preços, são as forças da procura somadas na propensão ao consumo e na eficiência marginal do capital que influenciam o nível de produção, e esta proposição de Keynes é independente do equilíbrio. Se a um determinado momento de tempo, a procura agregada está em excesso relativamente à produção, este será um momento de revisão das expectativas e dos planos de produção Se tomamos atenção às proposições fundamentais contidas no capítulo 3 à luz da sua noção de probabilidade, onde Keynes sumaria as proposições posteriormente desenvolvidas na sua obra magna, nomeadamente que o desemprego involuntário é causado pela insuficiência da procura efectiva, o desemprego involuntário corresponde à realidade observada, da qual temos conhecimento directo. A procura agregada é uma proposição conhecida pelo argumento. A explicação das forças económicas em acção é a relação lógica entre observação e conclusão. Por outras palavras, um incremento no investimento conduz a um incremento no rendimento. Aqui o ‘incremento no investimento‘ constitui a evidência no qual baseamos o nosso argumento, enquanto que um incremento no rendimento é uma conclusão induzida com uma probabilidade determinada pelo grau de crença racional que pode ser atribuída a essa conclusão. Repare-se que isto é válido dentro do conjunto de proposições, entre as quais que Y=F(N) onde N é N=F(D), considerando o estado da tecnologia conhecida, as preferências dos consumidores, etc., pelo que uma outra função N= x(D) sendo x uma função decrescente( o caso ricardiano da introdução das máquinas que diminuem o emprego e o rendimento) pode conduzir a uma outra conclusão e portanto logicamente a um outro grau de crença racional. Essa probabilidade, todavia, não tem nada a ver com o resultado efectivo obtido em termos de nível de rendimento.

A interpretação da Teoria Geral como um análise de forças as quais num determinado momento de tempo determinam o rendimento e o emprego permite clarificar um importante momento de conteúdo do modelo lógico de Keynes, nomeadamente, o significado e consequências da coexistência entre ‘short-and-long-period expectations‘. As decisões de produção dos empresários dependem das expectativas de curto prazo relativamente ao retorno das vendas, as decisões relativamente à ampliação da produção dependem das expectativas de longo prazo relativamente ao retorno dos investimento. O sistema capitalista caracteriza-se pelo facto que ambas decisões terem lugar num instante de tempo, influenciando simultaneamente ambas as forças em operação. De aqui podemos retirar a ilação que o método de Keynes tem em consideração os fenómenos num horizonte de tempo e não como Marshall em que os fenómenos acontecem em tempos de natureza e comprimento diferentes. Esta abordagem coloca a análise num grau  e nível de generalização e abstracção muito alto, em que é possível tomar em consideração o significado de um conjunto amplo de fenómenos. Por isso podemos falar de um análise realizado em tempo real, não no sentido que a análise visa  determinar o que acontece com a passagem de tempo, mas no sentido que nenhum fenómeno de relevante acção é ignorado num determinado momento de tempo. Na síntese neoclássica, os modelos estão determinados, mas, deve ser dito, que a determinação dos modelos sacrifica precisamente o aspecto da realidade capitalista em que Keynes baseia a sua interpretação das forças em acção num determinado momento de tempo.

Como Keynes demonstra esta consiste na coexistência de três processos de tomada de decisão diferentes. Dois de estes são decisões de curto prazo: decisões dos empresários que planeiam a combinação dos factores no horizonte de curto prazo, as decisões dos detentores de riqueza acerca dos activos a deter. A terceira é uma decisão de longo prazo: a decisão dos empresários de criar procura para os novos bens de capital, na base das suas expectativas de curto prazo. As decisões podem ser correctas ou erradas. A Teoria Geral não diz como tomar decisões correctas, pois da interacção de milhões de agentes resultaram obviamente decisões contraditórias, mas diz-nos que se são erradas, o erro influenciará a formação das expectativas em algum ponto futuro do tempo. Se são correctas não significa que elas serão repetidas, i.e., que a taxa de investimento ou a taxa normal de acumulação ou a utilização das capacidades as quais as expectativas de longo prazo tenderão a realizar-se. Argumentar que no curso do tempo a taxa de juro e o investimento tendem a certos valores normais graças ao facto que as forças que impedem essa tendência, tendem no tempo a ser neutralizadas, implica a definição de postulados a partir das quais se deduz que forças são temporárias e quais permanentes. Embora como demostra Lakatos ( Lakatos, 1971)mesmo um processo dedutivo deve começar com elementos indutivos, i.e., da realidade observada.

No caso das teorias do equilíbrio, partem da consideração que existem indivíduos racionais, que comportando-se de um determinado modo, dão lugar a uma série de actos encadeados do qual resulta um óptimo. Isto pressupõe a existência de um órgão de coordenação, a mão invisível de Smith, o comisseur-priseur de Walras, o auccioner de Edgeworth, o horse-trade de Böhm-Bawerk, nas teorias mais coerentes. Até que ponto a mão invisível foi um recurso smithiano contra a mão interventora do estado mercantilista é uma questão que tem sido discutida pelos historiadores do pensamento económico. Creio que a teoria de Keynes põe em causa a existência dos mecanismos de coordenação perfeitos, enquanto que as teorias que contestam o pensamento keynesiano retomam, pela via do pensamento dedutivo, elementos indutivos que bem podem ser figuras ideologizadas dos comportamentos dos agente económicos assimetricamente colocados nos mercados, como alias Keynes sublinha na Teoria Geral, é dos comportamentos que se trata, e é aqui a base do pomo da discórdia.

De um outro ponto de vista poderia afirmar-se que a operação dessas forças pode ser formalizado num modelo matemático, cuja determinação confirma a natureza lógica do processo indutivo. A solução desse modelo pode chamar-se equilíbrio, mas é claro que aquilo que chamamos de equilíbrio é um equilíbrio virtual, no qual todas as magnitudes são dadas ex-ante e as expectativas dos agentes são determinadas exogenamente. O lado forte da concepção de expectativa reside no modo como o argumento é baseado na maior e possível informação objectiva, nomeadamente, a realidade observada. O factor subjectivo existe, ele reside na escolha dos aspectos da realidade tomados como ponto de referência, e, isto não tem nada a ver com a natureza arbitrária das conclusões, mas bem constitui o ponto chave da teoria. A probabilidade não é capricho humano, referida sobretudo a lógica. A teoria da probabilidade é lógica, porque diz respeito com o grau  de crença  a que é racional reflectir em determinadas circunstâncias, e não porque as crenças sejam  de indivíduos particulares. As proposições particulares que seleccionamos como as premissas dos nossos argumentos dependem  dos factores subjectivos particulares e peculiares a nos próprios, mas as relações, nas quais outras proposições estão sobre estas, e que intitulamos de relações prováveis são objectivas e lógicas. É importante sublinhar que a probabilidade tem carácter objectivo porquanto ela dá lugar a graus de crença numa proposição baseados na lógica, distinta da probabilidade de graus subjectivo-psicológicos de crença que podem ser quantificados por algum método, como exemplo o método ‘of betting´ de Ramsey[16].

A lógica humana pode ajudar a entender o mecanismo que leva a determinar o estado de confiança, i.e., o complexo de condições das quais os agentes derivam importância decisiva na toma de decisões[17]. Justamente no roda pé da página 148 do capítulo 12 da Teoria Geral, Keynes afirma que “ very uncertain should not be taken to mean very improbable”, com referência ao capítulo VI do ‘Treatise‘, lugar onde discute o peso dos argumentos (‘weights of arguments‘) cuja probabilidade deve ser indagada. O termo peso é utilizado como sinónimo de conhecimento relevante, claramente diferente de probabilidade. O facto que a evidência relevante e disponível incrementa a magnitude da probabilidade de um argumento, pode acrescenta-la ou diminui-la conforme o novo conhecimento fortaleça  a evidência favorável ou desfavoravelmente: “but something seems to have increased in either case- we have a more substantial basis upon which to rest our conclusion. I express this by saying that an accession of new evidence increases the weight of an argument, but it will always increase its weight”[18].

A única base para um maior conhecimento em situações de incerteza é uma maior informação, um grau maior de confiança relativamente a essa informação[19]. Na Teoria Geral a incerteza domina as expectativas, que na linguagem do Treatise significa escassez de informação, que é a pior base para inferir proposições sobre o futuro.

A incerteza dos elementos que formam as expectativas reduzem a confiança, mas exercem um efeito neutral sobre a probabilidade e assim no grau de crença racional que é possível assinar aos acontecimentos futuros na base da sua relação com os acontecimentos actualmente observados, nesse sentido a escolha dos empresários é uma decisão provável.

Hicks na formalização da Teoria Geral, captura a importância estratégica[20] que Keynes dá as expectativas mas enfatiza as limitações e perigos dessa abordagem. O perigo reside no risco que a efectividade analítica do método das expectativas pode desaparecer nas aplicações de longo prazo. Na sua visão, essas limitações estavam implícitas na hipótese da invariância das expectativas respeito aos acontecimentos ocorridos, na linguagem de Hicks, ‘within the period considered‘ em análise [Kregel, 1982]. Como comenta Vicarelli:

 

 “The neoclassical synthesis of Keynesian thought has not paid much attention to expectations, relegating these to the position of exogenous elements capable merely of shifting functional relationships which in all other respects are considered to be stable. The development of macroeconomic theory along so-called neo-classical lines, has led on the other hand, via the rational expectations paradigm, to the incorporation of this aspect of the Keynesian anomaly within the orthodoxy of Walrasian equilibrium[21].

 

A debilidade da teoria keynesiana baseada nas expectativas, segundo seus críticos, consiste na falta de vínculo com elementos objectivos e por consequência uma determinação arbitrária na natureza das consequências das conclusões. Qualquer tentativa de explicar o funcionamento do sistema capitalista sem identificar primeiro leis objectivas e precisas que mostrem a tendência das suas forças na direcção de condições objectivas, de acordo a esta visão é esforço inútil. Nesse sentido, para além da questão de método, o recurso as expectativas, alega-se, mina o conteúdo heurístico da Teoria Geral.

Sem dúvida que uma das características mais originais da visão do capitalismo de Keynes é que as expectativas motivam decisões económicas reais e financeiras[22]. Esta expectativa, indicada anteriormente porem, poderia ser derivada com o maior grau possível de probabilidade e mesmo assim não corresponder a realidade factual, a que é influenciada por um vasto leque de circunstâncias[23]. A comparação entre as conclusões lógicas e a realidade factual é ilegítima e não pode constituir um elemento decisivo na avaliação da teoria. Um argumento ilógico poderia conduzir a conclusões coerentes com a realidade; isso não será suficiente, todavia, para garantirmos a sua respeitabilidade científica[24].

A teoria das probabilidades é uma contribuição muito importante, não apenas para a teoria económica como para entender a própria teoria de Keynes. O lado forte da concepção de probabilidade de Keynes reside no modo como o argumento é baseado na maior e possível informação objectiva, nomeadamente, a realidade observada. O factor subjectivo existe, ele reside na escolha dos aspectos da realidade tomados como ponto de referência, e não tem nada a ver com a natureza arbitrária das conclusões, mas bem constitui o ponto chave da completa teoria. É inquestionável  o significado chave que para Keynes tem a intensidade de demanda efectiva, a quantidade existente de bens de capital, as tendências no mercado de valores – contrariamente às manchas de sol ou do tempo  as quais os empresários tomariam como ponto de referência da realidade ao formular às suas expectativas.

A incerteza reduz a confiança, mas exerce um efeito neutral sobre a probabilidade e assim no grau de crença racional que é possível atribuir aos acontecimentos futuros na base da sua relação com os acontecimentos actualmente observados. A única base para um maior conhecimento em situações de incerteza é uma maior informação, um grau maior de confiança relativamente a essa informação. Isto implica dizer que a probabilidade aumenta quando aumenta o grau de crença racional, o que acontece quando derivamos argumentos que contêm a maior informação possível. Com isto Keynes retoma um certo optimismo metodológico, permitindo uma interpretação da incerteza em termos de probabilidade e desse modo a sua teoria das expectativas se distancia de qualquer interpretação irracional, no sentido da impossibilidade de conhecer as coisas e os fenómenos.

A incerteza reduz a confiança, mas exerce um efeito neutral sobre a probabilidade e assim no grau de crença racional que é possível atribuir aos acontecimentos futuros na base da sua relação com os acontecimentos actualmente observados. A única base para um maior conhecimento em situações de incerteza é uma maior informação, um grau maior de confiança relativamente a essa informação. Isto implica dizer que a probabilidade aumenta quando aumenta o grau de crença racional, o que acontece quando derivamos argumentos que contêm a maior informação possível. Com isto Keynes retoma um certo optimismo metodológico, permitindo uma interpretação da incerteza em termos de probabilidade e desse modo a sua teoria das expectativas se distancia de qualquer interpretação irracional, no sentido da impossibilidade de conhecer as coisas e os fenómenos.


 


 

[1] J.M. Keynes, CWJMK, vol. VIII, p.338. 

[2] J.M. Keynes, CWJMK, vol. XIII, p. 6-7. 

[3] Para uma visão sobre esta polémica veja-se os exelentes artigos de Gilles Dostaler, " The debate between Hayek and Keynes", in William Barber(ed.), Perpectives on the History of Economic, Vol. VI Themes in Keynesian Criticism and Supplementary Modern Topic, Published for the Histoy of Economics Society by Edward Elgar, 1989, pp. 77-101 e também António Argandoña Rámiz, " La polémica entre Keynes y Hayek: algunas consideraciones de interés para los debates de los años ochenta", in Rafael Rubio de Urquía(ed.) La herencia de Keynes, Alianza Universidad, 1988, pp. 235-267.

[4] A origem do problema levantado por Keynes na Teoria das Probabilidades: a falácia da composição, encontra-se no ensaio de 1905 " Miscellania Ethica" como resultado da aplicação por Moore das categorias atomístico-orgánico à natureza de preceitos éticos, morais, como verdade, beleza e bondade. Isto implica o reconhecimento da importância fundamental que tem para o pensamento lógico-correcto a distinção entre as formas atomísticas( aditivas) e orgânicas(não-aditivas) da organização estrutural. Ver R.M. O´Donnell, Keynes: Philosophy, Economics and Politics, citado por Richard X. Chase, in " Keynes´s Dichotomy: A Methodological Escape for a Theoretic Revolution, p. 82 in Methodus, Vol. 3, nº 2, 1991, nota 19, p. 85.

[5] J.M. Keynes, CWJMK, vol. VIII, p. 338.

[6] J.M. Keynes, CWJMK. vol. XIV, p. 296.

[7] Idem, p. 4. Braithwaite adverte para o facto que mesmo os seguidores da abordagen de Keynes fariam diferente: ” But most present-day logicians would be chary of using such verb as ´perceive´ to describe knowledge of logical-consequences relationship: many would instead describe such knowledge in term of the structure and use of language system", in op. cit., p. 240.

[8] Na sua relação com o plano subjacente a Teoria Geral, as comparações entre valores ex-ante e ex-post, que é possível evitar ao interior da abordagem do equilíbrio, baseiam-se em níveis de análise completamente diferentes.

[9]  J.M. Keynes, CWJMK, vol. XIV, pp. 179-180.

[10] Alias Keynes contrapõe à noção de equilíbrio estacionário a sua noção de equilíbrio móvel( Ver Teoria Geral, capítulo 21, especialmente p. 292-294). Como se vê a utilização do termo equilíbrio é apenas um problema de método e linguagem, porque o equilíbrio móvel é não-equilíbrio no sentido marshalliano; considerando que o termo equilíbrio, que emprestado da física nos indica algum ponto de repouso, é pela sua vez um método de análise baseado na acção intertemporal de forças económicas, a sua utilização de certo modo abusiva, i.e., num outro sentido, gera apenas confusão. É claro que é esta utilização por Keynes da noção de equilíbrio, uma das confusões frequentemente referida pêlos economistas interpretes do seu pensamento. O problema, porém, não deve ficar na recriminação das confusões, mas si pela procura de entender o que Keynes pensava.

[11] Alias Keynes fala de ´neutral equilibrium´. Esta interpretação do equilíbrio num determinado momento de tempo é compartilhado por V. Chick em " Macroeconomy after Keynes" e S. Weinraub.

[12]  Dado que os empresários decidem os níveis de produção na base das suas procuras e das expectativas sobre preços, são as forças da procura somadas na propensão ao consumo e na eficiência marginal do capital que influenciam o nível de produção, e esta proposição de Keynes é independente do equilíbrio. Se a um determinado momento de tempo, a procura agregada está em excesso relativamente à produção, este será um momento de revisão das expectativas e dos planos de produção Se tomamos atenção às proposições fundamentais contidas no capítulo 3 à luz da sua noção de probabilidade, onde Keynes sumaria as proposições posteriormente desenvolvidas na sua obra magna, nomeadamente que o desemprego involuntário é causado pela insuficiência da procura efectiva, o desemprego involuntário corresponde à realidade observada, da qual temos conhecimento directo. A procura agregada é uma proposição conhecida pelo argumento. A explicação das forças económicas em acção é a relação lógica entre observação e conclusão. Por outras palavras, um incremento no investimento conduz a um incremento no rendimento. Aqui o `incremento no investimento` constitui a evidência no qual baseamos o nosso argumento, enquanto que um incremento no rendimento é uma conclusão induzida com uma probabilidade determinada pelo grau de crença racional que pode ser atribuída a essa conclusão.. Repare-se que isto é válido dentro do conjunto de proposições, entre as quais que Y=F(N) onde N é N=F(D), considerando o estado da tecnologia conhecida, as preferências dos consumidores, etc., pelo que uma outra função N= x(D) sendo x uma função decrescente( o caso ricardiano da introdução das máquinas que diminuem o emprego e o rendimento) pode conduzir a uma outra conclusão e portanto logicamente a um outro grau de crença racional. Essa probabilidade, todavia, não tem nada a ver com o resultado efectivo obtido em termos de nível de rendimento. A interpretação da Teoria Geral como um análise de forças as quais num determinado momento de tempo determinam o rendimento e o emprego permite clarificar um importante momento de conteúdo do modelo lógico de Keynes, nomeadamente, o significado e consequências da coexistência entre `short-and-long-period expectations`. As decisões de produção dos empresários dependem das expectativas de curto prazo relativamente ao retorno das vendas, as decisões relativamente à ampliação da produção dependem das expectativas de longo prazo relativamente ao retorno dos investimento. O sistema capitalista caracteriza-se pelo facto que ambas decisões terem lugar num instante de tempo, influenciando simultaneamente ambas as forças em operação. De aqui podemos retirar a ilação que o método de Keynes tem em consideração os fenómenos num horizonte de tempo e não como Marshall em que os fenómenos acontecem em tempos de natureza e comprimento diferentes. Esta abordagem coloca o análise num grau  e nível de generalização e abstracção muito alto, em que é possível tomar em consideração o significado de um conjunto amplo de fenómenos. Por isso podemos falar de um análise realizado em tempo real, não no sentido que o análise visa  determinar o que acontece com a passagem de tempo, mas no sentido que nenhum fenómeno de relevante acção é ignorado num determinado momento de tempo.

Na síntese neoclássica, os modelos estão determinados, mas, deve ser dito, que a determinação dos modelos sacrifica precisamente o aspecto da realidade capitalista em que Keynes baseia a sua interpretação das forças em acção num determinado momento de tempo. Como Keynes demonstra esta consiste na coexistência de três processos de tomada de decisão diferentes. Dois de estes são decisões de curto prazo: decisões dos empresários que planeiam a combinação dos factores no horizonte de curto prazo, as decisões dos detentores de riqueza acerca dos activos a deter. A terceira é uma decisão de longo prazo: a decisão dos empresários de criar procura para os novos bens de capital, na base das suas expectativas de curto prazo. As decisões podem ser correctas ou erradas.  A Teoria Geral não  diz como tomar decisões correctas, pois da interacção de milhões de agentes resultaram obviamente decisões contraditórias, mas diz-nos que se são erradas, o erro influenciará a formação das expectativas em algum ponto futuro do tempo. Se são correctas não significa que elas serão repetidas, i.e., que a taxa de investimento ou a taxa normal de acumulação ou a utilização das capacidades as quais as expectativas de longo prazo tenderão a realizar-se. Argumentar que no curso do tempo a taxa de juro e o investimento tendem a certos valores normais graças ao facto que as forças que impedem essa tendência, tendem no tempo a ser neutralizadas, implica a definição de postulados a partir das quais se deduz que forças são temporárias e quais permanentes Embora como demostra Lakatos mesmo um processo dedutivo deve começar com elementos indutivos, i.e., da realidade observada. No caso das teorias do equilíbrio, partem da consideração que existem indivíduos racionais, que comportando-se de um determinado modo, dão lugar a uma série de actos encadeados do qual resulta um óptimo. Isto pressupõe a existência de um órgão de coordenação, a mão invisível de Smith, o comisseur-priseur de Walras, o auccioner de Edgeworth, o horse-trade de Bõhm-Bawerk, nas teorias mais coerentes. Até que ponto a mão invisível foi um recurso smithiano contra a mão interventora do estado mercantilista é uma questão que tem sido discutida pêlos historiadores do pensamento económico. Creio que a teoria de Keynes põe em causa a existência dos mecanismos de coordenação perfeitos, enquanto que as teorias que contestam o pensamento keynesiano retomam, pela via do pensamento dedutivo, elementos indutivos que bem podem ser figuras ideologizadas dos comportamentos, como alias Keynes sublinha na Teoria Geral, é dos comportamentos que se trata, e é aqui a base do pomo da discórdia.

[13] De um outro ponto de vista poderia afirmar-se que a operação dessas forças pode ser formalizado num modelo matemático, cuja determinação confirma a natureza lógica do processo indutivo. A solução desse modelo pode chamar-se equilíbrio, mas é claro que aquilo que chamamos de equilíbrio é um equilíbrio virtual, no qual todas as magnitudes são dadas ex-ante e as expectativas dos agentes são determinadas exogenamente.

[14] A formação das expectativas dependera dos elementos que consideramos pertinentes e relevantes no análise da situação. Keynes põe atenção não nos elementos que formam a expectativa mas no estado de confiança que atribuímos a elas quando não possuímos nenhum mecanismo para seu cálculo exacto, podendo exclusivamente singirnos ao graus de crença racional de elas contém. Se a expectativa é uma proposição no nosso modelo, qualquer seja, ela poderá ser verdadeira ou falsa de acordo as circunstâncias.

[15] Idem, p. 332-333. Jeffreys na sua Theory of probability explica " El problema fundamental do progresso científico, y uno fundamental en la vida diária, es el aprender de la experiência. El conocimiento que se obtiene de esta manera es, en parte, meramente descripción de lo que ya hemos observado, pero em parte consiste en hacer inferencias de la experiencia pasada para predecir la experiencia futura. Esta parte puede llamarse generalización o inducción..El processo es tan habitual que escasamente nos damos cuenta de él. Y dificilmente podemos existir por un minuto sin que lo llevemos a cabo. En las raras ocasiones en que alguien lo menciona, se le llama sentido común y nada mas...La parte comun se observa que sólo lo es a grupos homogéneos, lo qual indica que la información que se basa el sentido común es realmente común a los miembros do grupo y que, además, el proceso para procesar  la información es también compartido por todos sus miembros.. La lógica tradicioal ou deductiva admite sólo tres actitudes ante qualquer proposición: Prueba, refutación o total ignorancia. Pero ningún número de instancias previas de una regla proporcionan una prueba deductiva de que la regra se cumplirá en la próxima ocasión.Devemos señalar que la inducción es mas general que la deducción. Cualquier inferencia inductiva incorpora en su propia naturaleza la possibilidad de que la alternativa elegida como la más verosimil pueda de hecho ser errónea...Devido a esta mayor generalidad, la inducción debe incorporar postulados que no se incluyen en la deducción.. Estos postulados no pueden ser probados por lógica deductiva..tampoco son generalizaciones empíricas. De hecho, hemos de distinguir las reglas generales de la teoria de su contenido empírico. Las reglas son proposiciones a priori, aceptadas con independencia de la experiencia, y que no afirman nada sobre la experiencia. La inducción es la aplicación de estas reglas a los datos observacionales", citado por Gallastegui Zulaica, "Keynes y la probabilidad subjectiva", p. 508-510 in Rafael Rubio de Urquia y otros, La herencia de Keynes, Alianza Universidad, pp. 503-521.

[16] Para uma discusão sobre o assunto veja-se R.M. O´Donnel, " Continuity in Keynes´s Conception of Probability", in D. Moggridge(ed.), Perspectives on the History of Economic Thought, vol. 4, Keynes Macroeconomics and Method, History of Economics Society, 1990, p. 54.

[17] É importante sublinhar que a probabilidade tem carácter objectivo porquanto ela dá lugar a graus de crença numa proposição baseados na lógica, distinta da probabilidade de graus subjectivo-psicológicos de crença que podem ser quantificados por algum método, como exemplo o método `of betting´ de Ramsey. Veja-se   Para uma discusão sobre o assunto veja-se R.M. O´Donnel, " Continuity in Keynes´s Conception of Probability", in D. Moggridge(ed.), Perspectives on the History of Economic Thought, vol. 4, Keynes Macroeconomics and Method, History of Economics Society, 1990, p. 54.

[18] Idem p. 77.

[19] Zellner escreve en An Introduction to Bayesian Inference in Economics: " Por supuesto, el grado de creencia razonable que tenemos de una proposición depende de nuestra información actual. Por tanto, una probabilidad que representa un grado de creencia razonable sobre una proposición es siempre una probabilidade condicionada al estado de la información. En tanto en cuanto la información relativa a una proposición concreta cambia, revisamos su probabilidade y nuestra creencia sobre ella. Este proceso de revisión de probabilidades asociadas con proposiciones, a la vista de nueva información, es la esencia del aprendizaje por experiencia", citado por Gallastegui Zulaica, in op. cit., p. 508.

[20] Hicks escreve:” From the standpoint of the pure theory, the use of the method of expectations is perhaps the most Revolutionary thing about this book", in J.R.Hicks," Mr Keynes´s Theory of Employment, in Collected Essays, op. cit.

[21] Idem.

[22] A abordagem neoclássica, na medida em que é necessário considerar as expectativas num mundo de incerteza, é  obrigada a introduzir hipóteses ad hoc no conceito de equilíbrio temporal É o que pode ser observado nas sucessivas explicações à abordagem IS-LM por J. Hicks. Ver por exemplo "IS-LM: an Explanation", in Money, Interest anf Wages, Collected Essays, vol. II, Oxford: Basil Blackwell, 1982.

[23] O próprio Keynes escreve na Teoria Geral " We are assuming in effect that the existing market valuation, however arrived at, is uniquely correct in relation to our existing knowledge of the fact which will influence the yield of the investment, and that it will only change in proportion to changes in this knowledge: though philosophically speaking, it cannot does provide a sufficient basis for a calculated mathematical expectation", General Theory, p. 152.

[24] Alias a teoria das probabilidades  como uma forma lógica deve questionar-se sobre onde deve começar com a informação, mesmo quando ela existe de modo escassa, ou não se sabe nada. Este é provavelmente o aspecto mais controverso da hipótese das expectativas racionais que introduz hipóteses mesmo quando não existe ou existe pouco conhecimento. Assume-se que  uma hipótese tem uma probabilidade igual ao outra, visto que não existem regras para determinar qual hipótese é melhor que a outra, em caso de pensar que uma é melhor que outra está-se a introduzir elementos valorativos. A norma valida é então de que as hipóteses tem todas uma probabilidade igual, que é o modo de expressar a ignorância. A inferência estatística deveria  gerar distribuições que expressassem o princípio do conhecimento insuficiente. Acaba-se por utilizar distribuições chamadas a priori vagas ou difusas. Compare-se Gallastegui Zulaica, in op. cit., p. 512. O próprio Keynes sublinha no ´Treatise´ que as provas do princípio de indução baseadas no argumento da probabilidade inversa, estão viciadas por hipóteses injustificáveis relacionadas com a magnitude da probabilidade a priori. Keynes parte da ideia de que a indução pode ser útil apenas se considerar a probabilidade a priori finita. No capitulo sobre a indiferência  põe de manifesto quais as condições que devem existir num um conjunto de alternativas para que possa explicar-se o princípio de indiferença, i.e., para que possa afirmar-se que na ausência de informação sobre as alternativas possam considerar-se todas iguais. A condição mais relevante é aquela que exige a não existência de informação relevante sobre uma alternativa que não seja partilhada por outra, e em segundo lugar, não é aplicável a um conjunto de alternativas se sabem que alguma delas pode ser dividida de novo num par de alternativas possíveis mais incompatíveis, porque se as alternativas originais compreendem, cada uma, um número de alternativas indivisíveis e indiferentes, podemos calcular as suas probabilidades. Nos problemas que se referem a magnitudes infinitas, pode aplicar-se o princípio da indiferência apenas no caso que elas tendam ao limite. Veja-se J.M. Keynes, CWJMK, Vol. VIII, pp. 58 e seguintes.